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REPERCUSSÕES DO MOVIMENTO QUADRINISTA UNDERGROUND

CAPÍTULO II: A EMERGÊNCIA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

2.3 REPERCUSSÕES DO MOVIMENTO QUADRINISTA UNDERGROUND

Para Magalhães (2009), a onda underground não se limitou ao contexto norte- americano, mas se expandiu por toda América e Europa, influenciando o surgimento de novos artistas, revistas e diversos estilos narrativos e gráficos. No Brasil, as HQ

underground emergiram entre os anos 1960 e 1970. Esse contexto histórico ficou

caracterizado pelo estabelecimento da Ditadura Militar que promoveu uma política de intensa repressão, intolerância e violência sobre a sociedade. A censura se tornou um dos meios que os governos militares utilizaram para silenciar e reprimir os movimentos sociais, políticos e culturais, a imprensa e até o modo como as pessoas se relacionavam.

De acordo com Luyten (1985, p. 80), os quadrinhos underground brasileiros se constituíram em um movimento cultural marginal que procurou se contrapor, através de uma vertente artística, à política ditatorial. Os quadrinhos alternativos representaram o inconformismo social e político de uma geração que não aceitava as imposições normatizadoras do Estado. Segundo Luyten (1985, p. 80):

Uma delas representou bem o movimento marginal ou udigrudi dos quadrinhos brasileiros. Esse movimento explodiu por uma série de razões. Além do cunho político de alguns periódicos, os jovens, inconformados por não terem veículos para publicar seus quadrinhos, devido sempre à concorrência estrangeira aliada à miopia de muitos editores nacionais, lançaram dezenas de revistas que surgiram, principalmente, nos meios universitários.

Magalhães (2009) comenta que a proposta dos quadrinhos underground brasileiros não só foi questionar a Ditadura Militar, mas também estava relacionada ao descontentamento sobre a política editorial que privilegiava os quadrinhos tradicionais e estrangeiros. Magalhães afirma que a preferência do mercado brasileiro pelos quadrinhos tradicionais era devido ao custo barato das revistas e à influência da política dos Syndicates. Assim, o movimento alternativo dos quadrinhos brasileiros surgiu com o propósito de protestar contra a situação sociocultural e política em que vivia a sociedade brasileira naquele momento. Inspirados nos

quadrinhos underground americanos, os quadrinistas marginais brasileiros construíram uma narrativa imagética de forte cunho político.

Para Silva (2002), os quadrinhos alternativos brasileiros se apropriaram das propostas estéticas e culturais do movimento underground americano, contribuindo para a emergência de um tipo de arte que se baseava no experimentalismo estético- gráfico. A própria expressão underground foi traduzida em uma versão tupiniquim chamada udigrudi. Silva salienta, ainda, que os quadrinhos alternativos (ou udigrudi) procuravam trazer a cultura marginalizada para a sociedade como forma de protesto social:

A estética desses quadrinhos tinha a intenção manifesta de se contrapor aos quadrinhos tradicionais, assim como aos valores a que eles estavam vinculados. Tais ideias fazem lembrar um pouco aquele “é proibido proibir” do maio francês; entretanto, havia uma proibição implícita que era a de não se apegar aos valores e estéticas tradicionais (SILVA, 2002, p. 24).

Silva (2002) concebe, também, que os quadrinhos underground brasileiros partiam de uma proposta independente do mercado tradicional, seu caráter e seu discurso era contestatório e alternativo, o que contribuiu para muitas inovações estéticas. A produção e a distribuição eram feitas pelos próprios autores, os quais eram também editores. Contudo, a maioria dessas revistas possuía uma tiragem reduzida e não durava muitas edições, devido à falta de estrutura econômica e organizacional.

A primeira revista underground brasileira foi O Balão, que surgiu no campus da USP e o seu conteúdo tinha como proposta as experimentações artísticas. O

Balão proporcionou o surgimento de muitos Fanzines e a diversificação do mercado

tradicional. Com isso, emergiram outras revistas, como por exemplo O Bicho (RS),

Esperança do Porvie (RJ), Vírus (RJ), Ovelha Negra (SP), Boca (SP), Capa (SP), Lodo (SP), Click (SP-RJ), Pivete (RN), Cabra-Macho (RN), Maturi (RN), Ôxente!

(PB), Humordaz (MG), Risco (DF), Tatu-Captum (RS), Baú de Cartuns (MA), Pau de

Arara (CE) etc.

Silva (2002) argumenta que a proliferação dessas revistas nos anos 1970 foi uma espécie de “estado embrionário” dos quadrinhos underground, pois as propostas artísticas e culturais estabelecidas por esses artistas influenciaram o

movimento dos quadrinhos alternativos dos anos 1980. Essas revistas foram escolas e celeiros de artistas underground como Luís Gê, Laerte, Glauco, Angeli, entre outros. Podemos afirmar que elas foram um primeiro momento da construção de uma arte militante e da denúncia contundente da realidade social e política vivida no país.

Todavia, a proposta vanguardista que se projetou nessa primeira fase dos quadrinhos underground foi O Pasquim. Este jornal alternativo utilizava o humor e a sátira para criticar e refletir sobre o cotidiano da sociedade brasileira. Cartunistas como Ziraldo, Jaguar e Henfil usavam os quadrinhos e as charges como crítica social. Cirne (1982) observa que a arte desses quadrinistas tinha como ponto de partida foi o projeto artístico-cultural de construir um quadrinho satírico, combativo, irreverente e de viés político.

Esse projeto do Pasquim surgiu no ano de 1968, a partir das ideias do cartunista Jaguar e dos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral. O objetivo era criar um jornal diferente e com um discurso satírico e irônico. Eles aproveitaram todo o aparato do jornal A Carapuça, de Sérgio Porto, e modificaram o nome para o

Pasquim, inspirando-se no monsenhor italiano, chamado Pasquino, que escrevia

ironicamente sobre os fatos sociais da Itália. A primeira edição saiu em 26 de junho de 1969 e teve uma tiragem de 20 mil exemplares. Esse jornal fez muito sucesso junto a um público mais intelectualizado, devido ao seu discurso irreverente e também por tratar de temas que não eram analisados por outras publicações, como sexo, relações de gênero, uso de drogas, críticas políticas. Para Queiroz (2004), o

Pasquim:

Através do humor, criticou paradigmas e enfrentou os tabus da moral vigente – liberação sexual, entre outros temas foram levantados e discutidos, suscitando escândalos e provocando reações apaixonadas. Divulgou no Brasil temáticas da contracultura e da busca de novas formas de percepção através das drogas. As entrevistas do Pasquim tornaram-se a tribuna livre das vozes de oposição ao regime, o espaço para manifestações de intelectuais, artistas e políticos. O humor foi, então, o veículo através do qual se viabilizou esta opção, que, de uma característica pessoal dos jornalistas do Pasquim, tornou-se um elemento de identificação com o público, ou seja, realizando-se numa relação coletiva. (QUEIROZ, 2004, p. 232).

Essa nova forma de pensar as notícias jornalísticas fez a turma do Pasquim ter muitos problemas com a censura, chegando a redação inteira a ser presa devido a uma sátira com o quadro de Pedro Américo sobre o Grito do Ipiranga, em novembro de 1970. O jornal continuou sendo publicado por Millôr Fernandes, mesmo com as prisões e atentados à bomba às bancas de revistas que vendiam o

Pasquim e outras publicações que criticavam a Ditadura Militar.

Segundo Queiroz (2004, p. 230), a linguagem discursiva do Pasquim e de outros jornais alternativos possuía uma forte influência da perspectiva gramsciana, pois o seu principal propósito era formar uma “consciência crítica nacional”. Queiroz argumenta que este discurso jornalístico procurava criticar os costumes, as tradições e os paradigmas sociais através do humor sarcástico.

O Pasquim se tornou um espaço artístico-cultural para manifestações de descontentamento frente ao regime político e às diversas expressões do caráter autoritário e conservador dominante na formação social brasileira, bem como se distanciou do mainstream da grande mídia. Esse jornal desenvolveu uma linguagem próxima do que era falado nas ruas. Sua escrita era repleta de expressões coloquiais e neologismos, como: pô, paca, sifu, sacumé, putsgrila, etc.

Esse discurso irreverente estava relacionado com um sentido contestatório de antidisciplina e burla social. Através da linguagem humorística, a geração

pasquiniana construiu uma maneira de romper com a censura: “O uso destes

cognatos, além de afetar a moral da sociedade, sobretudo das classes médias, afetava também o regime como um todo, pois através de subterfúgios, a censura imposta pela ditadura a favor da própria moralidade estava sendo driblada” (QUEIROZ, 2004, p. 233).

O Pasquim possuía uma estrutura organizacional que o distinguia dos outros jornais. Primeiramente, sua organização interna ficou marcada pela pessoalidade e pela subjetividade. Cada autor, cartunista ou jornalista construía sua individualidade e seu próprio discurso. Isso proporcionou ao Pasquim uma pluralidade linguística que rompia com as padronizações da grande imprensa. Enquanto os jornais tradicionais se ancoravam numa representação uniformizada e bem comportada da realidade social, o Pasquim se baseava em um discurso heterogêneo e irreverente, cujos diferentes estilos proporcionavam uma análise dinâmica e crítica da sociedade brasileira. Para Queiroz (2004), o discurso pasquiniano promoveu uma grande

mudança na abordagem jornalística da realidade social. Silva (2002, p. 25) afirma que a linguagem do Pasquim contribuiu para um incremento desse tipo de discurso humorístico-satírico dos quadrinhos underground nas revistas e nos jornais e influenciou os quadrinistas dos anos 1980, na perspectiva de criticar as tradições e os costumes da sociedade.

Foi assim que o Pasquim e as revistas em quadrinhos underground dos anos 1960 e 1970 foram a gênese de um estilo de fazer arte em que a liberdade criativa e o senso crítico proporcionaram a pluralização e politização discursivas sobre o real e a ampliação dos temas abordados, conforme explicita Magalhães:

Os quadrinhos perderam a ingenuidade e amadureceram com o choque provocado pelos autores underground, ou “marginais”. Nos Estados Unidos, na França, no Brasil, novas linguagens foram adicionadas ao universo fantástico dos quadrinhos. As questões sociais, políticas, sexuais, racistas, as drogas, a religião, a hipocrisia, nada seria mais tabu ou sujeito a qualquer impositivo legal ou código de ética (MAGALHÃES, 2009, p.10).

O movimento alternativo dos quadrinhos dos anos 1980 – liderado pelos cartunistas Angeli, Glauco, Laerte e outros artistas da editora Circo – emergiu a partir das transformações sociais e culturais empreendidas pelas contestações realizadas nos anos 1960 e 1970. A geração oitentista dos quadrinhos se construiu, inicialmente, nas propostas underground dos quadrinhos no período ditatorial e contracultural.

CAPÍTULO III: A FORMAÇÃO DO CARTUNISTA ANGELI E A EMERGÊNCIA DO