IV. AVALIAÇÃO DO PROGRAMA E DISCUSSÃO
4.2. Quanto à receptividade ao Programa
4.2.3. Repercussões do programa no ambiente familiar
Algumas expressões dos pais, na entrevista final, retratavam assuntos que diziam respeito à dinâmica familiar, como a aceitação da deficiência auditiva e as atitudes da família com a criança. Quanto à aceitação do problema, destacam-se dois trechos, um dos quais mostra claramente a reação inicial da mãe ao diagnóstico da surdez e a comparação que faz com suas outras filhas e outro, em que uma avó descreve o processo pelo qual sua filha (mãe da criança deficiente auditiva) passou:
"... se você vê minhas 2 outras meninas.. eu entrei muito em depressão por ela ter esse problema..." (P28) "... ela cresceu também, amadureceu, tá vendo a evolução dele, tá bem mais animada, ela tá mais feliz com ele também ... ele se sentiu muito deprimida.. Ela achava que a culpa era dela... se cobrava muito ... inclusive do Implante... mas ele faz e fala ... se comunica muito bem agora... Ela era muito revoltada.... passou a aceitar. .. ele tá ótimo é o que eu falei a recompensa é muito grande..." (P14) Nesse contexto familiar, identifica-se que as atitudes em torno da criança não se restringem aos pais, mas estendem-se também aos irmãos, primos, tios e avós, que são envolvidos em praticamente todos os casos. Em três situações constatou-se a ajuda a partir da convivência com os irmãos mais velhos ("adora ela, ensinou escrever o nome", "tem os primos dela que mora do lado, entendem ela"), inclusive de duas irmãs que cuidam da criança enquanto a mãe trabalha. Além dos irmãos, outros familiares, tios e avós também foram citados como envolvidos no desenvolvimento do programa, porque os pais haviam solicitado ajuda para responder as questões ou porque participavam da rotina da casa e ajudavam nas atividades propostas.
"É mais velho (o outro filho)... participou todo mundo, meu marido, minha irmã... tá sempre lá em casa, então ela também participou... minha mãe... participa até hoje ainda com tudo... a gente fez o quadro.. " (P11) Mas nem sempre a atitude dos pais em relação ao contato com familiares ou a percepção deles em relação às atitudes para com a criança foi favorável, inclusive podendo ser limitadora da convivência, conforme relatado em dois casos: que os avós tinham dificuldade em entender a criança, perdiam a paciência, ou em outro caso em que o casal e o filho único tinham pouco contato com o restante da família.
No que se refere às condutas e atitudes estimuladoras da comunicação dos pais em relação à criança, os relatos mostraram que o programa ofereceu algum auxílio, uma vez que indicou a eles o que podem fazer, ou reforçou as orientações dadas pelo fonoterapeuta, no caso das crianças que faziam fonoterapia. Alguns exemplos dessas atitudes, trazidos pelos pais, foram relacionadas à exploração dos objetos em casa, nomeando e pedindo para a criança repetir e ao álbum de fotos da família, que proporcionou que a criança nomeasse as pessoas e situações.
Ainda em relação à comunicação, em dois casos as mães foram taxativas em se manifestar contrárias ao uso de gestos, dando preferência ao oralismo, embora uma delas estivesse com problemas, pois a criança freqüentava escola especial que privilegiava Libras. Ainda assim, essa mãe usava as estratégias que a fonoaudióloga passava, para incentivar a criança a falar.
Ao lidar com a criança, os pais também mantinham ou alteravam o comportamento dela, conforme as atitudes adotadas, o que se percebe nos seguintes trechos:
"Eu não gosto de birra... criança assim barulhenta ...que chega na casa dos outros e vai mexendo em tudo eu não gosto... então eu procuro ensinar isso pra ela." (P28) "Eu deixo ele fazer, não dou confiança....ele chegou pisou no meu pé, eu falei eu também sei te pisar, não machuquei né... E não pisou mais.... e não ri não ...fala e sai de perto ... e deixo ele ... aí ele volta e me abraça.." (P14) Nas respostas dos entrevistados, quando se referiram à escola, foi possível aprofundar a análise com base nas avaliações críticas que eles faziam, reconhecendo quando o funcionamento da escola e o envolvimento do professor eram facilitadores ou não para a criança. Dentre as impressões positivas dos pais quanto à conduta da professora e à escola, foram encontrados relatos dos contatos, das conversas que ocorriam com freqüência, do esforço da professora em aprender e buscar recursos para lidar com o aluno DA e da aceitação da professora à opinião da fonoterapeuta:
"... ele tava custoso na sala... a fono falou às vezes é porque... ele vai mostra a tarefa e a professora não dá atenção... porque são muitas criança'.. a professora falou 'eu acho que é isso mesmo'.. Aí ele parou..." (P18) Mas a avaliação dos pais também pode ser negativa, por problemas pontuais com professores: "ela falou 'ai eu não sei lidar com a sua menina'..", "ela não dá conta e quando ele começa a gritar ela me chama ".
Já em relação ao funcionamento da escola, foram encontradas atitudes reflexivas ou críticas, que mostram que os pais estavam fazendo o acompanhamento da criança e conseguiam avaliar o sistema que era oferecido, a linguagem (oral x gestual) adotada, o receio de fechar a classe especial, ou ainda:
"É inclusão, tá novo ainda pra uma 2ª série mas fazer o que?...a classe quase 30, problema de
audição tem uns 8 e tem um intérprete dentro da sala. Diz que ele dá conta normal... 7 ano né ainda que ele tem o problema ... Agora que deveria tá na 1ª..." (P08)
Essa percepção dos pais é importante para fundamentar as decisões a tomar quanto à escolarização da criança e para a avaliação dos esforços conjuntos que devem fazer, em função das expectativas a respeito do futuro profissional dela. Em uma resposta, a mãe mostrou que estava atenta ao desenvolvimento da criança, pensando em colocá-la na escola regular quando atingisse a primeira série, pois tinha preferência pela fala e na escola especial era usada a Língua de Sinais . Em função dessa avaliação que os pais podem fazer do filho deficiente auditivo, é possível que eles elaborem uma atitude realista quanto ao futuro da criança, sem privilegiar pela deficiência mas reconhecendo sua capacidade: "eu acho que ela tem um pouco de possibilidade, sim, eu acho que tenho que continuar esforçando cada dia mais pra ajudar ela..."