2.2 Imagem da IHC
2.2.1 Representação da imagem da IHC
A relação dos usuários com as imagens que olham não é abstrata, “pura”, separada de toda realidade concreta. Ao contrário, a visão efetiva das imagens realiza-se em um contexto multiplamente determinado, sendo um fator que regula a relação dos usuários com a imagem da IHC do OPAC. As representações dos itens nada mais são que mensagens. No entanto, o processo é mais complexo do que aparenta.
Quando são considerados os principais aspectos da relação entre uma imagem da IHC e seus usuários, torna-se possível levar em conta o funcionamento próprio da imagem. Que relação ela estabelece com o mundo real – ou seja: como ela o representa? Quais são as formas e os meios
dessa representação, como ela trata a concepção da realidade? E também, como a imagem inscreve significações? Enfim, não é possível falar da imagem sem fazer referências às imagens efetivamente existentes, por exemplo, no processo de comunicação dos usuários com imagem da IHC na recuperação da informação dentro da biblioteca.
A Ciência da informação está relacionada com pesquisas que envolvem a representação da informação, tanto, em sistemas naturais como, artificiais, no uso de códigos para transmissão eficiente de mensagens, e no estudo de dispositivos e técnicas para o processamento da informação, tais como os computadores e os sistemas de informação (Borko, 1968).
Anteriormente, a informação visual era estática no sentido da imagem, apesar de ser editada e incorporada junto com outras imagens em uma montagem. Uma vez transferida à linguagem digital no computador, cada elemento da imagem pode ser modificado. A imagem transformá-se em “informação”, no computador, e toda a informação pode ser manipulada (Rush, 1999). Neste tipo de imagem destaca-se, dominantemente, a relação signo-significado, ou seja, ela mostra-se em função daquilo que convencionalmente representa, isto é, a tarefa. Neste caso, a figura do usuário torna-se determinante na construção dos significados a serem produzidos através da imagem da IHC.
O mundo das imagens se divide em dois domínios (Santaella e Nöth, 1999), que não existem separados, pois estão inextricavelmente ligados já na sua gênese:
1. o domínio das imagens como representações visuais: desenhos, pinturas, gravuras, fotografias e imagens cinematográficas, televisivas, holo e infográficas. Imagens, nesse sentido, são objetos, matérias e signos que representam o nosso meio ambiente visual; e
2. o domínio imaterial das imagens na nossa mente: no qual as imagens aparecem como visões, fantasias, imaginações, esquemas, modelos ou, em geral, representações mentais.
Esta pesquisa tem por objetivo geral, o aumento da usabilidade da imagem da IHC do OPAC de uma biblioteca (relativo ao primeiro domínio descrito acima), tendo como ponto de partida o modelo mental que os usuários têm da tarefa (relativo ao segundo domínio descrito acima).
Na conduta humana não é difícil detectar uma propensão à informação visual. O apoio visual de nosso conhecimento é procurado por muitas razões, mas, sobretudo, pelo caráter direto da informação e sua proximidade à experiência real (Dondis, 1976). Portanto, o processo de composição da imagem da IHC precisa muito mais do que apenas colocar informações e adicionar gráficos atrativos, pois a imagem da interface deve ser desenvolvida com o intuito de satisfazer as necessidades dos usuários, que a buscam com um objetivo bem definido (Pinto, 1997; Grandjean, 1998).
A imagem da IHC, como representação e meio perceptivo, inventa e inaugura configurações que relacionam a visão, a ação, a percepção e o conhecimento. De acordo com a Escola Gestalt* (escola de psicologia experimental alemã), na arte, a formação de imagens, os fatores de equilíbrio, clareza e harmonia visual constituem para o ser humano uma necessidade e, por isso, considerados indispensáveis – seja uma obra de arte, numa peça gráfica ou em qualquer outro tipo de manifestação visual.
A apreensão do objeto pelos sentidos é o problema número um do conhecimento humano. As aquisições científica, filosófica e estética estão reunidas de início no nosso poder de perceber as coisas pelos sentidos. Do ápice das grandes realizações, a humanidade tende a esquecer a célula, a
base humilde de todas as conquistas e maravilhas, a percepção (Pedrosa, 1996).
A imagem, paralelamente à sua função de registrar o imaginário, de significar e dar sentido ao mundo, tem sido usada como meio e registro do conhecimento. No século XV, com a gravura e a imprensa, se estabelecem as condições para a difusão da imagem, que pode também ser mecanizada junto com os textos científicos nos livros ilustrados. Posteriormente, com a fotografia, a reprodução da imagem e o próprio produto são mecanizados, resultando em precisão e riqueza de informações (Plaza, 1999).
A visão ou a percepção visual é uma atividade complexa que não se pode, na verdade, separar das grandes funções psíquicas, como a intelecção, a cognição, a memória e o desejo. Assim, a investigação iniciada “do exterior”, ao seguir a luz penetra no olho, leva logicamente a considerar o sujeito que olha a imagem, aquele para quem ela é feita, o qual é chamado de seu usuário (Aumont, 2001).
Existe uma correspondência entre a ordem que o projetista escolhe distribuir os elementos para a “composição” da imagem da IHC e os padrões de organização desenvolvidos pelo sistema nervoso. A aparência de qualquer elemento depende de seu lugar e de sua função num padrão total. Não se vêem partes isoladas, mas relações. As organizações, originárias da estrutura cerebral são espontâneas, não arbitrárias, e independentes de nossa vontade e de qualquer aprendizado (Gomes Filho, 2000).
Como aumentamos a memória, o pensamento e o raciocínio? Pela invenção de ajudas externas: são estas coisas que nos fazem inteligentes (Norman, 1993). Nota-se, nessa situação, que a força da mente sem ajuda é superestimada. Sem ajuda externa, a memória e o raciocínio estão limitados. A inteligência humana é muito flexível e adaptativa, excelente para inventar procedimentos e objetos para superar seus próprios limites. A verdadeira
força vem do desenvolvimento de ajudas externas que aumentam as habilidades cognitivas.
A multiplicação é uma das atividades que mais utiliza as faculdades mentais. Quando uma pessoa multiplica um par de números mentalmente, por exemplo, 34x72, pode ser observado quanto tempo demora. Esta multiplicação pode ser realizada de novo, utilizando o lápis e o papel, o que reduz o tempo por um fator de cinco (figura 2.2). Demonstração informal que ilustra como o uso visual e de manipulação do mundo externo pode ampliar o desempenho cognitivo (Card, Mackinlay e Shneiderman, 1999, p. 1-2).
FIGURA 2.2 - Uso de ajudas externas pode ampliar o desempenho cognitivo
Paralelamente às dimensões funcionais do uso das ajudas externas, surge um simbolismo para ampliar os dados cognitivos e sensíveis dos sistemas concebidos. Esse simbolismo é observável na tecnologia atual para a criação de imagens de IHC, que desenvolvem novas técnicas imagéticas, visando à simulação da realidade, montagens de representações realistas e de espaços cognitivos do sentir (Venturelli, 2001).
Em consonância com o exposto, a obtenção da imagem da IHC deve levar a uma imagem que satisfaça as necessidades de adequada estrutura formal, obviamente, tendo como ponto de partida o modelo mental que os usuários têm da tarefa.
Para um usuário entender a imagem que lhe é apresentada na IHC do catálogo público de acesso em linha (OPAC) como uma combinação de elementos verbais e visuais, as representações verbais geralmente transmitem seqüencialmente as informações, segundo regras arbitrárias que pouco têm a ver com o que as palavras representam, mas, que têm muito a ver com a estrutura do sistema simbólico para o uso das palavras. Por outro lado, as representações visuais transmitem, simultaneamente, todas as características, em geral, algumas regras para criar ou entender representações visuais pertencem à relação análoga entre representação visual e aquilo que representam (Sternberg, 2000).
A inter-relação entre a representação mental dos usuários e a imagem da IHC para a realização da tarefa, não é um acidente. A informação é um processo que ocorre dentro da mente humana, quando são colocados numa união produtiva um problema e os dados úteis para sua solução (Hoskovsky e Massey, apud Wersig e Neveling, 1975).
Sendo assim, a imagem da IHC é uma ajuda externa, um suporte informacional que aumenta as habilidades cognitivas, portanto, é preciso aumentar a sua usabilidade mediante a sua exploração. À medida que a informação digital se expande, as bibliotecas universitárias devem enfrentar os desafios de prover acesso fácil dos documentos a seus usuários, tendo em conta que eles não estão preocupados com as técnicas de tratamento da informação, mas com o acesso à informação para seu uso imediato e preciso, através da relação ordenada dos diversos livros e documentos da biblioteca (Cunha, 2000).