As tecnologias do conhecimento, produzidas pelos seres humanos na tentativa de fa- vorecer a compreensão do mundo, provocaram impactos sobre os saberes, e, conseqüen- temente, promoveram novas interpretações da realidade. O entendimento das metáforas relacionadas ao conhecimento e às formas de sua apreensão nos mostram que a referên- cia clássica para dizer das estruturas dos saberes e das ciências é a imagem da árvore (KENSKI, 1997).
6.4 Representação do Conhecimento: Modelo Arborescente 91 É curioso como a árvore dominou a realidade ocidental e todo o pensamento ocidental, da botânica à biologia, a anatomia, mas também a gnosiologia, a teolo- gia, a ontologia, toda a losoa...: o fundamento-raiz, Ground, roots and foundati- ons.(DELEUZE; GUATARRI, 1995, pg. 28)
Na organização do saber, é possível observar que quase todas as disciplinas se utilizam de modelo arborescentes: informática, biologia, história, lingüística, etc. O que pode parecer uma simples metáfora pode aprisionar o nosso pensamento vinculando aos esquemas poder e hierarquia. Os sistemas de informática conservam este conceito de árvore, tendo um tronco principal. Nas palavras de Deleuze e Guattari, em Mil Platôs, isso ca claro nos problemas atuais de informática e das máquinas eletrônicas, que conservam ainda o mais velho pensamento, na medida em que confere o poder a uma memória ou a um órgão central.(DELEUZE; GUATARRI, 1995, pg. 26)
É importante sempre termos em mente que a árvore não corresponde, na verdade, à estrutura de pensamento e do conhecimento; consiste, apenas, em uma representação para classicá-lo e organizá-lo. Como armou Deleuze e Guatarri (1995), Muitas pessoas têm uma árvore plantada na cabeça, mas o próprio cérebro é muito mais uma erva do que uma árvore.
Na Grécia antiga inicia-se o pensamento arborescente com os trabalhos de Platão (428-347 a.C.). Platão foi o mais importante continuador da obra de Sócrates e é quem dá a Filosoa a sua primeira grande sistematização. Para este lósofo, a Filosoa seria uma busca pela verdade e pelas essências das coisas (as idéias) que somente poderiam ser alcançadas por um raciocínio dialético. O método dedutivo adotado por Platão, teria como fundamento o princípio da de- composição dos elementos que se daria por oposição e dualidade, e que conduziria as pessoas da mera opinião (doxa, mundo sensível) ao mundo das idéias. Ao mesmo tempo, segundo Platão, as idéias remetiam às unidades das coisas e as multiciplidades eram rejeitadas como meros acidentes e imperfeições das coisas em relação a sua idéia5 (FERREIRA, 2008).
Segundo Burke (2003), a metáfora-chave na Idade Média para visualizar o sistema de conheci- mento era de uma árvore e seus galhos. Como exemplo este autor cita as árvores do conhecimento como a Arbor scientiae de Raimundo Lúlio (conforme é possível observar na Figura 38). Este livro foi escrito por volta do ano de 1300, mas foi reeditado diversas vezes. Entre outras arvores
5Segundo Platão, nosso mundo é uma cópia imperfeita e transitória de um outro mundo, transcendente,
onde estão as idéias - formas incorpóreas, invisíveis, eternas e imutáveis. Os nossos sentidos somente seriam capazes de captar a cópia. Ao original, só a razão teria acesso. Nosso mundo seria a doxa, da mera opinião. Para ver o que se esconde por trás, necessita-se da ciência, a episteme (ABRÃO,
2004). Para exemplicar a visão de Platão, considere um conjunto de cavalos. Apesar deles não serem exatamente iguais, existe algo que é comum a todos os cavalos; algo que garante que nós jamais iremos ter problemas para reconhecer um cavalo. Naturalmente, um exemplar isolado do cavalo, este sim ui, passa. Ele envelhece e ca manco, depois adoece e morre. Mas a verdadeira forma do cavalo é eterna e imutável.
6.4 Representação do Conhecimento: Modelo Arborescente 92 Burke cita a árvore judiciária, árvore da gramática, árvore dos jesuítas e a árvore do patrimônio e repartições francesas (na verdade um organograma do governo francês).
Figura 38: Árvore do Conhecimento - Página de rosto de Arbor scientiae de Raimundo Lú- lio.Fonte:(BURKE, 2003).
Monteiro (2006) arma que a organização clássica do conhecimento utiliza o esquema da Árvore de Porfírio6. Esta arvore que integra a obra Introductio in Praedicamenta (também
conhecida como Isagoge, nome da tradução latina feita por Boécio), que tem como modelo e denição as dicotomias sucessivas, ordenando as idéias segundo sua compreensão crescente e extensão decrescente, relacionando de forma indistinta a realidade espiritual e a realidade natural. Segundo Porfírio, os conceitos se subordinam, partindo dos mais gerais até chegar aos menos extensos. A Arbor porphyriana deu início ao Nominalismo7, que animou a Filosoa medieval
por vários séculos e é uma espécie de antecessora das modernas classicações taxonômicas. Na Figura 39 pode-se observar esta árvore.
Ao raciocinar em termos de árvore usa-se subjacentemente a idéia de uma estrutura de poder, de hierarquia. Cria-se, assim, uma distinção entre dominantes e subordinados partindo
6Porfírio (c.232- c.304), foi um lósofo neoplatônico e um dos mais importantes discípulos de Plotino. 7Na chamada disputa dos universais durante a Idade Média, o Nominalismo consistiu grosso modo
em armar o seguinte: as espécies e os gêneros e, em geral, os universais não são realidades anteriores às coisas, segundo sustentava o realismo ou platonismo (FERRATER MORA, 1969).
6.4 Representação do Conhecimento: Modelo Arborescente 93
Figura 39: Árvore de Porfírio - Fonte: (FERRATER MORA, 1969)
das raízes, troncos, galhos, ores e frutos. Burke faz uma crítica a estrutura arborescente: A imagem da árvore ilustra um fenômeno central em história cultural, a naturalização do convencional, ou a apresentação da cultura como se fosse natureza, da invenção como se fosse descoberta. Isso equivale a negar que os grupos sociais sejam responsáveis pela classicação, assim sustentando a reprodução cultural e resistindo a tentativas de inova- ção.(BURKE, 2003, pg. 82)
Posteriormente o termo árvore foi substituído pelo termo mais abstrato sistema, durante o século XVII para designar a organização do conhecimento. Este termo tem sua origem associada aos antigos lósofos estóicos e era aplicado tanto a disciplinas especícas quanto ao conhecimento como um todo (BURKE, 2003).