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A estereoscopia e o design

Capítulo 03 – Sistemas de Interpretação

9. Representação, imagem projetada e imagem introjetada

Imagens estereoscópicas são assim como a pintura, o cinema, e as artes em geral, uma representação da realidade, cada um com suas características de representação. Ernst H. Gombrich em seu artigo “Meditações sobre um cavalinho de pau”, aborda esta questão (GOMBRICH, 1999).

O texto refere-se àquele brinquedo para crianças feito de um cabo de pau e uma “cabeça de cavalo”. Para Gombrich, certamente a forma exterior do cavalo não é imitada no cavalinho de pau, ou seja, não é uma “imitação exterior”, ele considera mais apropriada a palavra ‘representação’. Representar, no sentido de “invocar mediante descrição ou retrato ou imaginação, figurar, simular na mente ou pelos sentidos, servir de ou ser tido por aparência de, estar para, ser espécime de, ocupar o lugar de, ser substituto de.” O retrato de um cavalo? Certamente que não. O substituto para um cavalo? Sim, é isso. Talvez aja nessa fórmula mais do que o olho pode ver (GOMBRICH,1999, p.1).

Gombrich acredita que nós reagimos de modo diferente quando somos estimulados pela expectativa, pelo hábito cultural. Para isso, basta lembrar do fato de que somos mais imediatamente ‘fisgados’ por uma música que já conhecemos e gostamos do que uma música que também gostamos e ouvimos pela primeira vez. A familiaridade com a coisa nos torna mais receptiva a ela, em um primeiro momento. Ou seja, nossa história de vida (experiências), tem influência na nossa percepção de mundo, portanto, na forma como qualquer representação possa nos atingir / sensibilizar.

Certamente os primeiros cavalinhos de pau não eram de modo algum uma imagem. Eram apenas uma vara que foi qualificada de cavalinho por sua função, pois podia ser montada. O fator comum era a função, não a forma. Ou, mais precisamente, aquele aspecto formal que atendia a exigência mínima para o desempenho da função, pois todo objeto “cavalgável” representa ou serve de cavalo. Assim, em vários exemplos, o autor mostra que o denominador comum entre o símbolo e a coisa simbolizada não é a “forma exterior” mas a função. Contudo, esse

conceito psicológico de simbolização, parece afastar-se muito do sentido mais preciso que a palavra “representação” adquiriu nas artes figurativas.

“Eram necessárias duas condições para transformar uma vara em nosso cavalinho de pau: a primeira, a de que sua forma tornasse possível cavalgá-lo; a segunda - e talvez decisiva - é que esse cavalgar fosse importante” (GOMBRICH, 1999, p.7). Pois é importante entender como o contexto da ação cria condições de ilusão, pois quando o cavalinho está encostado no canto, ele é apenas um cabo de vassoura, é preciso montar nele para que se torne o foco da imaginação da criança e se transforme num cavalo.

Gombrich tentou mostrar no texto “Meditações sobre um cavalinho de pau”, que mesmo um processo artístico aparentemente racional, como a representação visual, pode ter suas raízes na “transferência” de atitudes, de objetos de desejo para substitutos adequados. O cavalinho de pau é o equivalente do cavalo “real” porque ele pode, metaforicamente, ser cavalgado.

Esta visão de representação é útil, para que não se esqueça de que toda represetação não é necessariamente uma imitação do objeto real, mas pode ser um substituto, uma simulação, uma invocação, entre outras coisas, de um objeto que já tivemos contato algum dia. Toda representação está no lugar de algo em si, e para se fazer esta ligação, deve-se ter a bagagem cultural adequada para que se possa remeter à origem do objeto representado. Senão a obra não seria representação de coisa alguma, seria algo novo por si só, sem fazer alusão ou representação de nada. Seria, o objeto em si, e não a representação do objeto, concreto ou abstrato.

Nesta reflexão, podemos levantar também a diferença entre a imagem projetada e a imagem introjetada. A imagem projetada seria a imagem representada, mas sem a presença (interpretação/intervenção) de um espectador, pois no momento que há um espectador observando qualquer imagem, tem-se então a imagem projetada e a imagem introjetada ao mesmo tempo. O observador nunca consegue ver apenas a imagem projetada, ele quando vê, vê as duas, e a imagem introjetada o impede de ver a imagem projetada sem nenhuma dissimulação. A imagem introjetada se constitui quando o espectador observa uma imagem representada, e a assimila, dando a ela significado e sentido, sendo que estes estão intrinsecamente ligados à sua constituição enquanto pessoa, e suas experiências de vida.

Estas questões poderiam nos levar para a Semiótica contemporânea e a resgatar a semiótica de C. S. Peirce, mas não é este o nosso propósito. (ECO, 1997).

A imagem projetada se refere a qualquer imagem que podemos criar, seja ela para exibição em qualquer mídia (Internet, cinema, televisão, impresso, etc). Ou seja, por “imagem projetada” não devemos entender apenas a acepção daquelas imagens exibidas por um equipamento de projeção, mas sim, por qualquer imagem construída a fim de passar uma mensagem, seja ela qual for, sendo representativa de qualquer objeto, ação ou sentimento.

A imagem introjetada por outro lado, se constitui das interpretações pessoais que o espectador de uma imagem projetada faz, pois estas interpretações não são as mesmas de um espectador para o outro. Portanto, a mesma imagem projetada, pode ter diferentes representações, ou imagens introjetadas.

No caso da estereoscopia, ela é uma forma de representação do espaço tridimensional, porém a forma com que cada indivíduo interpreta estas imagens, depende de seu repertório. Assim como em qualquer outra forma de representação, a imagem introjetada possui um adendo a mais, ou a menos que é a capacidade fisiológica de interpretação de um sinal estereoscópico (que não é uma capacidade existente em todas as pessoas).

Além de todas estas características, uma imagem estereoscópica permite um processo de imersão, pois dá a sensação de que o espectador está interagindo com a imagem que observa, como se estivesse incorporando o ambiente representado e fazendo parte dele. É uma experiência na qual parece possível tocar os objetos visualizados, ou sentir-se no mesmo ambiente da imagem projetada.

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