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CAPÍTULO I – FUNDAMENTOS TEÓRICOS

1.6 Representação, memória e acontecimento:

psicologia cognitiva

Contar é tão dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares [...].

Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

As noções de “representação”, “memória” e “acontecimento” são tratadas de forma interligada nesta investigação, uma vez que a maneira como o sujeito (se) representa (n)o mundo advém de uma memória que este possui e dos acontecimentos que marcam sua existência. E esses acontecimentos se constituem como rastros, que são as marcas paradoxais, que evocam ao mesmo tempo a ausência e a presença de algo.

A noção de “representação” adotada nesta pesquisa transcende as noções ancoradas nos estudos sócio-culturais que abordam questões de identidade. Tais estudos tomam as representações como “categorias de pensamento que expressam a realidade, explicam-na, justificando-a ou questionando-a” (MINAYO, 1994, p. 89). A perspectiva deste estudo filia-se à noção de “representação” ancorada na psicanálise, na qual as representações constituem o imaginário do sujeito, sempre em “relação a”, e de natureza inconsciente. Como foi visto antes,15 temos a definição de sujeito como cindido,

heterogêneo, polifônico, atravessado pelo inconsciente e dependente dos outros; assim, a identidade é entendida como algo em construção, em movimento e modificação constantes.

A fim de estabelecer uma interface entre a representação e a (des)construção das identidades de professores, este estudo baseia-se em alguns conceitos das teorias do discurso, da psicanálise freudiana e lacaniana e da filosofia da diferença de Jacques Derrida, entre outros conceitos.

Para Freud (1977), a representação está implicada com a memória, por meio de um jogo associativo. Nessa perspectiva, pode-se dizer que representar implica dois elementos: representar alguma coisa (1) para outra coisa (2) (ver ANDRADE, 2008). Isso nos remete à concepção de sujeito de Lacan, pela qual um significante representa um sujeito para outro significante, ele “repudia a categoria de eterno, singularmente, ele é por si mesmo” (2008, p. 46). Assim, a representação está ligada à falta, a uma não-presença de um significante que vai sempre se remeter a outro e que se apresenta sempre em cadeia, no constante rearranjo discursivo.

A noção de “memória” também é cara para este estudo, pois transcende a visão da abordagem histórica, que trata das formas como o sujeito recorda fatos passados e da abordagem psicológica, que trata da maneira como os sujeitos percebem, aprendem e pensam (visão cognitivista de memória).16 No caso dos

professores envolvidos neste estudo, essa memória se apresenta como um conjunto de fragmentos desordenados, descontínuos, recalcados, diluídos, “esquecidos” no inconsciente, que, num determinado momento, um “eu”17 se põe a

lembrar e a organizar na linguagem, através de uma narrativa, dando um sentido para os pedaços que afloram no discurso, construindo, enfim, uma história de si e sobre si. Nesse sentido, Coracini (2011c) afirma que a memória pode ser vista a

16 Para se compreender a memória humana, têm sido adotadas diferentes perspectivas. As mais

frequentes são as perspectivas estrutural e a processual. Segundo a perspectiva estrutural, a memória seria constituída por vários sistemas responsáveis pelo armazenamento e pela retenção da informação, quer em curto prazo, quer em longo prazo. Conforme a perspectiva processual, a informação daria entrada na memória (aquisição), permaneceria lá durante certo tempo (retenção) e, por fim, seria usada ou recordada (recordação) (PINTO, 2001, p. 2). Para os estudos sob a perspectiva cognitivista, a visão de memória abarca somente o que se refere à consciência humana, ou seja, um processo cognitivo que inclui, consolida e recupera toda a informação que o ser humano apreende. Segundo Flôres (2009), há na psicolinguística e na neurociência autores que admitem a necessidade de se abordar o inconsciente ao tratar dos processos de aquisição da linguagem, mas temem a obscuridade e falta de controle que o tema evoca e acabam falando somente da consciência, dando a falsa impressão de que o inconsciente não existe.

17 A expressão “eu-outro” da teoria psicanalítica, em português, seria mais apropriada como

“mim-outro”, entretanto, gera problemas gramaticais de acordo com a escrita formal. Vale lembrar que, no francês, há dois termos para o eu que seria o Je e o Moi. Conforme explica a teoria psicanalítica, ao sujeito caberia a perspectiva do Moi, denotativa do insconsciente, bastante diferente daquela trazida pelo Je, ou Eu, primeira pessoa, que expressa a dimensão do ego, consciente, e, portanto, mínima no ser humano.

partir de cinco abordagens: as abordagens, psicológica (já mencionada), discursiva, histórica, psicanalítica e desconstrutivista.

Na abordagem discursiva, a noção de memória é constituída pelos esquecimentos e pela multiplicidade de gestos de interpretação resultante das práticas discursivas. Nessa perspectiva, “o sujeito, ao produzir seu discurso, o realiza sob o regime da repetibilidade, mas o faz afetado pelo esquecimento, na crença de ser origem daquele saber” (INDURSKY, 2011, p. 70-71). Considerando as reflexões acerca da noção de memória e dos deslizamentos de sentidos, Freda Indursky (2011, p. 71) afirma que:

se há repetição é porque há retomada/regularização de sentidos que vão constituir uma memória que é social, mesmo que esta se apresente ao sujeito do discurso revestida da ordem do não-sabido. São os discursos em circulação, urdidos em linguagem e tramados pelo tecido sócio-histórico, que são retomados, repetidos, regularizados.

Assim, “o sentido é sempre construído na historicidade, que marca a relação do homem com a linguagem” (CORACINI, 2011c, p. 33). Segundo Pêcheux ([1988] 2009), a memória é constituída pelo interdiscurso, os pré-construídos, os já ditos que remetem a outros dizeres, “esquecidos”.

E, na psicanálise, Freud ([1901] 1996) apresenta a memória como um conjunto de fragmentos desordenados, descontínuos, recalcados, diluídos, “esquecidos” no inconsciente. Ao tratar dos sentidos das “lembranças da infância e lembranças encobridoras”, o autor diz que a memória humana apresenta um caráter de ilusão, no qual se apresentam falhas ao recordar. Nas palavras de Freud, “o que a memória reproduz não é o que deveria ser corretamente reproduzido, mas algo diverso que serve de substituto” (FREUD [1901] 1996, p. 60). Desse modo, o verdadeiro fica recalcado e, ao submeter essas lembranças “à investigação analítica, é fácil determinar que nada garante sua exatidão. Algumas das imagens mnêmicas certamente são falsificadas, incompletas ou deslocadas no tempo e no espaço” (p. 62). Nesse sentido, ao tentar lembrar um fato ocorrido, a memória faz uma elaboração posterior dele, sob a influência de forças psíquicas posteriores. Isso é o que Freud ([1901] 1996) nomeou de

“lembranças encobridoras”, um vínculo associativo entre o conteúdo das lembranças e o outro que está recalcado.

Já, conforme a abordagem desconstrutivista, a memória é vista como a narrativa e a escritura; dito de outra forma, é vista como traços, que se manifestam por meio do jogo da presença-ausência. Assim, Derrida ([1972c] 2001) utiliza o termo “rastro” para pensar a estrutura de significação em função do jogo das diferenças que remetem a uma relação entre presente, passado e futuro.

As abordagens discursiva, psicanalítica e desconstrutivista se atravessam no que tange à noção de memória, pois as três abordagens compreendem a memória como um processo inconsciente, no qual ficção e realidade, pensamento e recordação se mesclam. E as relações humanas são constituídas pelo mal-entendido.

É oportuno, ainda, fazer a articulação das noções de representação e de memória empreendidas neste estudo. Nessa perspectiva, o que já aconteceu será sempre atualizado pela memória narrativa (DERRIDA, [1972c] 2001). Desse modo, a noção de acontecimento é delineada, neste estudo, a partir das considerações da história mais o significado dela para o sujeito. Nesse processo há uma “reprodução subjetiva do passado no presente” (LACAN, 1998, p. 289).

Pêcheux apresenta a noção de “acontecimento, como sendo o que funda o lugar da história, no ponto de encontro de uma atualidade e uma memória” (PÊCHEUX, 2009a, p. 17). Essa se afasta da noção cognitivista de memória, que se refere às lembranças de fatos e relatos conforme acontecidos, literalmente, mas se aproxima das reflexões de Foucault (2009) e Derrida (2001), que enfatizam essa relação de interdependência da memória com o sujeito e o passado-presente- futuro.

Nesse sentido, diz daquilo que é sempre esquecido e que decorre da interpretação de algo que já passou, mas que carrega uma relação com o presente e com o futuro. Para Derrida (2001, p. 11), o termo Arkhê (considerado a raiz de arquivo) designa, ao mesmo tempo, começo (origem histórica, instauração de discursos, “ali onde as coisas começam”) e comando (autoridade exercida pela ordem social e discursiva). Nessa perspectiva, a noção de arquivo constitui-se a

partir de arkhê e também de seu próprio esquecimento, o que torna arquivo, memória e esquecimento noções indissociáveis (DERRIDA, 2001).

Faz parte da tarefa arqueológica de Foucault problematizar a importância de se discernir e explicitar a singularidade dos acontecimentos discursivos. Assim, o filósofo mapeia quatro sentidos do termo “acontecimento”, a saber: ruptura histórica, regularidade histórica, atualidade e trabalho de acontecimentalização.18 Na ruptura histórica, Foucault fala da novidade

histórica, que instaura transformação e descontinuidade das regularidades (seria o acaso agindo sobre as transformações). No trabalho de atualidade, Foucault fala do acontecimento como as forças que estão em jogo na história (táticas e estratégias de luta e liberdade) (FOUCAULT, 2009, p. 148). Nesse ponto, surge o fenômeno da “acontecimentalização”, do qual surge a singularidade, a partir de uma ruptura histórica. Desse modo, o acontecimento se opõe à noção de criação. Foucault afirma a importância de

circunscrever o “lugar” do acontecimento, as margens de sua contingência, as condições de sua aparição. As noções fundamentais que se impõem agora [na descrição arqueológica] não são mais as da consciência e da continuidade (com os problemas que lhes são correlatos, da liberdade e da causalidade), não são também as do signo e da estrutura. São as do acontecimento e da série, com o jogo de noções que lhes são ligadas; regularidade, causalidade, descontinuidade, dependência, transformação [...] (FOUCAULT, 2009, p. 56-57).

Nessa perspectiva, Foucault considera os discursos como compostos de séries regulares, formadas por acontecimentos distintos, os quais englobam o acaso, a descontinuidade e a materialidade (FOUCAULT, 2009). Desse modo, Foucault alerta para que não se dissolva “o acontecimento singular em uma continuidade ideal, tentando mapear o que ele tem de único e agudo, tomando-o como a inversão de uma força, um poder confiscado, uma dominação que se enfraquece” (ALBUQUERQUE-JUNIOR, 2008, p. 106).

18 “Acontecimentalização” é um termo cunhado por Gilles Deleuze. Foucault o utiliza a partir de

O acontecimento não se prende ao tempo, porque perpassa o sujeito, buscando novos encontros. Assim, o tempo da efetuação não é o cronológico, por esse motivo, está fundado em si mesmo, como pensa Gilles Deleuze (2006). Para esse autor, o acontecimento é singular e paradoxal, pois é, ao mesmo tempo, o que está fora (exemplificado pela ferida) e, por sua vez, existindo antes do sujeito; no entanto, para se constituir como acontecimento, precisa ocorrer no/para o sujeito.

1.7 Reflexões sobre a educação na pós-modernidade: