• Nenhum resultado encontrado

Representação relativa e a busca pelo passado

1. A Grammatica portugueza ao longo do tempo

1.2 Os modos de historicização da Grammatica portugueza

1.2.3 A Grammatica portugueza em estudos

1.2.3.3 Representação relativa e a busca pelo passado

Os estudos que analisamos na sequência deste capítulo foram redigidos com o objetivo, entre outros, de relativizar as representações de que a Grammatica

portugueza é uma espécie de pioneira, que revoluciona a gramaticografia no Brasil.

Conscientemente, seus autores buscam traços de saberes passados ainda presentes na obra de Júlio Ribeiro. No primeiro deles, O período de estudos linguísticos

brasileiros ditos científicos e a questão da colocação pronominal, de Gurgel (2008), a

autora relativiza diretamente a ideia de revolução, inspirada nas periodizações de Elia (1969) e de Cavaliere (2001). Ela questiona a liderança intelectual de Ribeiro ao analisar a influência do autor em outras gramáticas para a elaboração das regras de colocação pronominal. De acordo com a autora:

Apesar de Júlio Ribeiro ser considerado o “líder intelectual” daquela geração por ter difundido os ideais evolucionistas da “nova corrente” aos estudos da linguagem, não encontramos menção alguma ao seu trabalho nos textos que trataram da Questão. Entendemos, assim, que o seu nome não foi percebido como o de uma autoridade no assunto para ser utilizado como referência para validar uma determinada descrição linguística ao problema da colocação pronominal (GURGEL, 2008, p. 73).

A conclusão de Gurgel (2008) é semelhante à de Aquino (2017), quando afirma que a Grammatica portugueza exerceu contraditória influência sobre os gramáticos que publicaram gramáticas após a sua. Aquino (2017), em Júlio Ribeiro no Horizonte

de retrospecção da gramatização brasileira, questiona a representação de que

Ribeiro é um influente gramático autor da gramaticografia brasileira:

O lugar contraditório de Júlio Ribeiro no horizonte de retrospecção da gramatização brasileira, entre o apagamento de sua obra como referência para a realização de análises gramaticais e linguísticas e a posição de marco

nos discursos sobre a história dos estudos do português no Brasil, nos revela como são controversos os discursos de fundação, como são problemáticas e inevidentes as atribuições de paternidade de um campo do conhecimento (AQUINO, 2017, p. 176-177).

Gurgel (2008) e Aquino (2017), portanto, criam uma representação relativizada que coloca em xeque o lugar de pioneira ocupada pela Grammatica portugueza. Além disso, Gurgel (2008) acrescenta o fato de haver, na obra de Júlio Ribeiro, preocupação pedagógica e resquícios da teoria racionalista. Para a autora:

[...] constatamos a presença da preocupação pedagógica, da tradição ‘filosófica’ e da tradição ‘científica’ nos tratamentos à Questão, o que demonstra que o nosso intento em queremos retratar [sic] o período dito científico nesse problema gramatical acabou revelando, na mesma medida, a não presença desse período. Isto posto, não chamaríamos a gramática realizada com a Questão de ‘científica’, dado o seu caráter eclético e divergente (GURGEL, 2008, p.119).

Para Gurgel (2008), a “não presença” significa que, na obra de Júlio Ribeiro, há influências teóricas heterogêneas que não permitem considerá-la científica, conforme sua interpretação de “científica”, extraída das periodizações mobilizadas em seu estudo. Podemos entender, dessa forma, que, para Gurgel (2008), existem aspectos que não só relativizam a representação de que Ribeiro exerce uma liderança intelectual, conclusão idêntica à de Aquino (2017), mas também relativizam a

representação de que a Grammatica portugueza é pioneira de uma revolução na

gramaticografia brasileira.

Essa conclusão de Gurgel (2008), ao analisar a questão pronominal, é aprimorada no texto em Contribución a la historia de la gramática brasileña del siglo

XIX, de Parreira (2011). Em sua tese de doutoramento, a autora é a primeira a

perceber que as periodizações que analisa – Nascentes (1939), Elia (1969), Guimarães (1994) e Cavaliere (2001) – apresentam critérios diferentes para fragmentar a gramaticografia no Brasil, fator determinante no modo como as gramáticas são separadas em científicas e racionais:

la excesiva simplificación y superficialidad de los análisis historiográficos reseñados, junto a la mezcla indiscriminada de criterios de periodización, frecuentemente ajenos a la propia disciplina, son algunos factores que explican las habituales clasificaciones de las gramáticas brasileñas decimonónicas en «racionalistas», de un lado, y «científicas», del otro (PARREIRA, 2011, p. 34).

A autora reconhece existir, nas periodizações, falta de uniformidade de critérios usados entre seus autores para estabelecer os períodos. Por isso, esclarece que “al contrario de lo que las propuestas de periodización indican, la tradición brasileña no sufre cambios bruscos de doctrina gramatical, sino que experimenta un desarrollo continuo caracterizado por la superposición de diferentes corrientes teóricas” (PARREIRA, 2011, p. 34). A consequência dessa visão sobre a Grammatica

portugueza, segundo Parreira (2011), é que a obra apresenta certo hibridismo. Assim

podemos observar:

Obviamente, el intento de conformar las leyes de la gramática general y las de la gramática histórica tuvo como consecuencia choques de pensamiento y contradicciones en muchos momentos. Tales desajustes se manifiestan principalmente en las definiciones y notas del gramático. Las primeras siguen la tradición anterior, mientras que las anotaciones tratan de adecuarse a las nuevas corrientes filológicas (PARREIRA, 2011, p. 2010).

Parreira (2011) entende que a Grammatica portugueza não pode ser

representada como pioneira em promover uma revolução, pois ela tenta conformar

tanto a teoria racionalista quanto a teoria histórico-comparatista. O fato mais relevante do trabalho de Parreira (2011), sobretudo, é a autora demonstrar ter consciência da das diferentes representações a respeito da Grammatica, mas que necessitam ser desconstruídas para que se possa observar a verdadeira dinâmica teórica que ocorre dentro na obra.

Essa ideia de que a teoria racionalista convive com a teoria histórico- comparatista na Grammatica portugueza também pode ser observada em

Considerações sobre o impacto da Grammaire Générale et Raisonnée de Port-royal (1660) no tratamento da sintaxe de gramáticas brasileiras do português do século XIX. Nesse artigo, Polachini (2012) comenta as representações construídas pelas

periodizações de Nascentes (1939), Elia, (1965) e Cavaliere (2000), que consideram a década de 1880 como um marco na gramatografia no Brasil, e a Grammatica

portugueza, como marco para o que chama de “período científico”, relacionado à

teoria histórico-comparatista.

Polachini (2012) relativiza essa compreensão ao apontar que uma ruptura substancial no tratamento da sintaxe ocorre apenas em 1890 com Maciel (1894). Para autora, a Grammatica portugueza representa apenas uma forte ‘retórica

revolucionária’, sem, de fato, efetuar o abandono pleno do modelo proposto pela

Grammaire Générale et Raisonnée de Port-royal. Para Polachini (2012):

Neste trabalho pudemos observar que o impacto da GGR-PR no tratamento da sintaxe, mais especificamente na concepção de sentença, das gramáticas brasileiras do português foi, gradualmente, diminuído após a década de 1880, como, de certa forma, já demonstravam as periodizações citadas ao longo deste artigo. É, porém, importante observar que uma ruptura substancial parece ter se dado apenas na década de 1890, com a segunda edição da gramática de Maciel (1894). A forte ‘retórica revolucionária’ de Julio Ribeiro, exemplificada no prefácio da segunda edição de sua gramática, de 1884, é um indício de insatisfação com o modelo da GGR-PR, sem, no entanto, corresponder a um abandono pleno desse modelo, ao menos no que se refere ao tratamento da sintaxe (POLACHINI, 2012, p. 312).

Para Polachini (2012), embora haja insatisfação com a teoria racionalista, ela não foi totalmente abandonada na Grammatica portugueza. Entendemos que essa interpretação de Polachini (2012) constituiu, assim, uma relativização das

representações que identificamos até o momento, ainda que, de certa forma, esteja

mais próxima da ideia de que a obra de Júlio Ribeiro seja precursora de mudança na gramaticografia brasileira.

Essa conclusão também é observada no artigo Verbos impessoais e

unipessoais em gramáticas brasileiras oitocentistas do português, no qual Polachini

(2015b) defende que a Grammatica representa o início de uma ruptura – o que compreendemos como precursora de mudanças na gramaticografia brasileira – diferentemente do que se lê nas representações constituídas nas periodizações de Nascentes (1939), Elia (1969), Cavaliere (2000) e Parreira (2011), autores que, segundo Polachini (2015b), representam a obra como responsável por ruptura total. A autora afirma:

Em relação às periodizações apresentadas no início deste artigo, pensamos que, ao menos no que diz respeito às questões aqui tratadas, a ruptura inicial se daria com Ribeiro (1881), e, nesse sentido discordamos de Parreira (2011), que afirma ter sido Freire da Silva ([1871] 1875) o iniciador dessa ruptura epistemológica, como também o fizemos em Polachini (2013). Entretanto, concordamos com a autora no que diz respeito a haver uma segunda ruptura com Maciel ([1887] 1902), visto que seu modo de tratar a sentença e o verbo impessoal são bastante diferentes da maneira que Ribeiro (1881) o faz. (POLACHINI, 2015b, p. 66).

Outro estudo da mesma autora, Uma proposta de periodização “complexa”

precursora. Nele Polachini (2015a) considera as periodizações de Nascentes (1939), Elia (1969), Cavaliere (2000), além de Parreira (2011), para relativizar as divisões que esses trabalhos estabelecem. Para a autora, a Grammatica portugueza não é pioneira de uma revolução, porque existe na obra uma continuidade com a teoria racionalista:

Por outro lado, concordamos com Nascentes (1939), Elia (1975) e Cavaliere (2002), que apresentam Ribeiro (1881) como, pode-se dizer, agente de uma ruptura. Entretanto, não o vemos como totalmente revolucionário, já que acreditamos haver uma segunda ruptura com Maciel (1902[1894]), pensando, assim, como Parreira (2011), que haveria uma ruptura gradual, da qual Maciel consolidaria diversos pontos e eliminaria certas heranças que Ribeiro ainda mantinha da corrente teórica anterior (POLACHINI, 2015a, p. 30).

Essa representação também está presente em Poachini (2018), outro estudo voltado da mesma autora voltado para essa questão. Uma história serial e conceitual

da gramática brasileira oitocentista de língua portuguesa, publicado em 2018,

confirma a relação entre Grammatica portugueza com a teoria racionalista. Nesse texto, a autora identificou 200 gramáticas publicadas no século XIX, período que caracteriza após uma extensa análise das periodizações de Nascentes (1939), Castilho (1962), Elia (1969), Cavaliere (2001) e Azevedo Filho (2002), além da resenha Maciel (1910). A representação da Grammatica é relativizada quanto à sua filiação, quando Polachini (2018) a denomina uma gramática eclética por conter dois conceitos de sentença bastante diferentes, um relacionado a Pierre Burggraff (1803- 1881), autor vinculado às teorias racionalistas, e outro a William Dwight Whitney (1827-1894), autor vinculado às teorias histórico-comparatistas. Segundo a autora:

Finalmente, é possível analisar a gramática de 1881 de Ribeiro como eclética, na medida em que, ao encaixar o conceito de ‘verbo substantivo’ e sua rede, o gramático apresenta, por um lado, ecletismo vertical, por

apresentar dois conceitos de ‘sentença’ bastante diferentes, um baseado em

Burgraff e outro em Whitney [...] (POLACHINI, 2018, p. 269).

Esse ecletismo identificado e reiterado nos estudos de Polachini (2012, 2015a, 2015b e 2018) vai ao encontro das ideias defendidas por Cavaliere (2014), em livro intitulado A gramática no Brasil: ideias, percursos e parâmetros. O autor resgata a classificação de gramática científica dada à Grammatica portuguesa, presente em sua periodização de 2001. No entanto, relativiza a homogeneidade das gramáticas que enquadra nesse período e passa a defender a ideia de que existem conflitos nas

gramáticas do final do século XIX em razão de vocações pedagógicas por um lado, e das aspirações científicas e descritivas por outro, os quais ocorrem em virtude dos tipos de leitores para os quais essas gramáticas eram direcionadas e de os gramáticos serem incapazes de seguir suas próprias divisões:

[...] os compêndios gramaticais, que almejavam modernizar-se mediante exposição do funcionamento da língua segundo as teorias contemporâneas, não podiam divorciar-se de sua vocação pedagógica, ou, possivelmente, de seu compromisso pedagógico. Não se tratava, a rigor, de um compromisso filosófico, fruto da concepção de que só se deve pesquisar a língua se o resultado for relevante para o ensino, mas de uma imposição pragmática criada por um mercado editorial cujo escopo era o estudante de língua portuguesa, fossem alunos escolares, fossem cidadãos interessados em questões linguísticas... (CAVALIERE, 2014, p. 14-15).

Cavaliere (2014) vê traços de continuidade teórica na Grammatica portugueza, porque entende que Júlio Ribeiro não podia abandonar completamente a vocação pedagógica da gramática, pois essas características eram uma exigência editorial, isto é, uma exigência pragmática que impunha aos autores de gramáticas, entre eles Ribeiro, a necessidade de fazer obras que pudessem servir aos alunos nas escolas e não somente aos interessados em questões linguísticas. Em virtude desses traços, constatamos que a representação estabelecida por Cavaliere (2014) também simboliza a Grammatica como pioneira de transformações na gramaticografia brasileira, em vez de pioneira de revoluções.

Por fim, é possível observar ainda a existência desse tipo de ecletismo – e, consequentemente, o mesmo tipo de representação – para Cavaliere (2018), em A

noção de conectivo nas gramáticas brasileiras. Nesse estudo, o autor cita uma série

de obras para se referir ao período conhecido como científico da gramaticografia brasileira, ideia que, como mostramos, retoma de sua periodização – Cavaliere (2001) – em consonância com outras periodizações, como a de Nascentes (1939) e Elia (1969). Nesse trabalho, o autor observa, ao analisar a questão dos conectivos, uma certa linha conceitual entre as gramáticas do que denomina período racionalista com as do que denomina período científico, fato que, para ele, indica a existência de certas linhas de continuidade entre gramáticas de períodos diferentes:

Observe-se que, no plano metalinguístico, parece haver uma linha de continuidade que perpassa do período racionalista ao período científico, conforme se observa nos termos gramática geral, leis, língua particular, todos eles presentes nas duas escolas. A questão resolve-se, primeiro, pela

constatação de que, no curso das ideias linguísticas, não há propriamente uma sequência de ruptura paradigmática, senão uma superposição de paradigmas que fluem em linhas de continuidade e descontinuidade, porém sempre presentes no ambiente acadêmico (CAVALIERE, 2018, p. 15).

Percebemos nesse excerto que o autor deixa de falar de ruptura paradigmática para falar na superposição de paradigmas em virtude das análises dos conectivos. Essa mudança significa não existir um total abandono da teoria racionalista para adoção da teoria histórico-comparatista nas gramáticas em que analisa, entre elas a