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Representações sociais acerca dos imigrantes

CAPÍTULO II: RETRATOS SOCIAIS

2.3. Representações sociais acerca dos imigrantes

Na última década, a temática das representações sociais tem emergido em alguma literatura nacional, sobretudo com a elaboração de estudos cujo objetivo primordial consiste em dar a conhecer, ou até aprofundar, a realidade inerente às mais diversas comunidades imigrantes residentes no nosso país. No quadro de uma sociedade cada vez mais globalizada e diversificada tanto cultural como socialmente, onde se supõe a existência de um contexto de interação entre nativos e imigrantes e vice-versa, importa compreender que imagens, opiniões, representações são construídas. Neste ponto, serão apenas abordadas as representações dos nativos face aos imigrantes, com foco para a comunidade dos «Imigrantes de Leste» e, em particular, como objeto de estudo da dissertação, a comunidade ucraniana.

Em território nacional, e entre os nativos, existe a ideia geral de que os imigrantes que aqui trabalham não veem valorizado o seu papel económico no país de destino (Mendes, 2010). Além deste aspeto, existem mais alguns apontamentos que não poderão deixar de ser mencionados. O primeiro prende-se com o facto de “os estrangeiros serem por vezes acusados de todos os males, nomeadamente por parte de partidos e sectores sociais xenófobos, o que é mais evidente nos períodos de crise económica em que se difunde a ideia de que o estrangeiro é um concorrente direto do

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autóctone” (Mendes, 2010: 114). Segundo esta autora, os imigrantes são, assim, também percecionados como uma ameaça, o que está relacionado não só com a atual crise económica, mas também com a conjuntura difícil existente no mercado de trabalho português. Já o segundo apontamento prende-se com a tendência de aos imigrantes serem associados frequentemente aspetos negativos, o que se irá traduzir numa imagem igualmente negativa na ótica dos cidadãos nativos. Na sua dissertação de doutoramento, Mendes (2010: 113) conclui que, face a diferentes comunidades imigrantes e não-lusas, existem atitudes distintas: “[…] paternalista face aos imigrantes negros, de benevolência (e de caridade) face aos que provêm da Europa de Leste e de repúdio manifesto (por vezes, de forma aberta e radical) relativamente aos ciganos”. Acrescentando, segundo a mesma (2010: 326), “[…] em torno dos principais grupos imigrantes com presença entre nós, se constroem imagens estereotipadas, redutoras e depreciativas”.

Interagir com o outro, aparentemente percecionado como diferente, pode ser uma experiência enriquecedora, na medida em que irá contribuir, por um lado, para desmitificar preconceitos e outra informação veiculada e filtrada não raras vezes pelos media, como também poderá ser o “motor” para a construção de uma sociedade mais diversa, mas também mais justa e igualitária nas oportunidades que tem para oferecer.

Em 2002, um estudo publicado pela Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas 24, realizado pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica Portuguesa25 e da autoria de Lages e Policarpo (2002), visava dar conhecer as opiniões e atitudes da população portuguesa acerca dos imigrantes (no geral, os legais e ilegais, e relativamente a três grupos em particular: os africanos, brasileiros e do Leste Europeu) que na altura residiam no país. Neste estudo, é referido que a maioria dos respondentes considerava que não deviam entrar mais imigrantes em território nacional, sendo os africanos o grupo menos aceite no país (74,4% da amostra referiu que discordava da sua vinda). Pelo contrário, e entre a minoria que concordava com a vinda de mais imigrantes, e sabendo também que existia uma diferença mínima relativamente à proveniência dos imigrantes, o grupo mais aceite eram os imigrantes brasileiros (28,3% referiu que concordava com a sua vinda). Este estudo pôde concluir ainda que mais de 90% dos inquiridos (mais concretamente, 97,2%) concordavam que os

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Referente ao Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas, daqui em diante designado como ACIME.

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Referente ao Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica Portuguesa, CESO- UCP.

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imigrantes legais possam usufruir dos mesmos direitos que os autóctones. No que respeita à possibilidade de poderem trazer a sua família para Portugal, 93% considerou que os imigrantes legais devem poder fazê-lo. Relativamente à naturalização dos imigrantes, 84% dos inquiridos demonstrou concordância perante a facilitação deste processo. Tais resultados relativamente aos diversos indicadores demonstram uma atitude pró-integração por parte dos nativos. É ainda referido que, em relação aos imigrantes ilegais, aproximadamente 80% dos inquiridos considerou que lhes devia ser facilitada a legalização e, quando confrontados com a afirmação de que os imigrantes ilegais devem ser protegidos contra a exploração dos patrões, mais de 92% dos inquiridos concordou.

Já relativamente ao mercado de trabalho, e concretamente à hipótese de os imigrantes trabalharem mais do que os portugueses, os autores (2002) referem que “a maioria dos inquiridos respondeu negativamente”. No entanto, registam-se diferenças importantes entre os diferentes grupos de imigrantes. Enquanto para os vindos de Leste, uma grande percentagem de pessoas considerou que eles trabalham mais do que os portugueses (44,6%), essa percentagem diminuiu relativamente aos africanos (27,6%) e mais ainda relativamente aos brasileiros (15%), sendo estas percentagens possivelmente influenciadas por alguns estereótipos disseminados na sociedade portuguesa acerca destes grupos. Por seu turno, quando os inquiridos foram questionados acerca da hipótese de os imigrantes terem elevadas habilitações comparativamente aos trabalhos que efetuam, aproximadamente 68% demonstrou concordância relativamente aos imigrantes de Leste, para 16% em relação aos brasileiros e 12% para os africanos.

Por sua vez, o jornal O Público na edição de 16 de março de 2005, fez referência em notícia a um estudo realizado ao nível da União Europeia, intitulado “Atitudes das maiorias perante as minorias” e que teve como base dois inquéritos distintos26. Foi possível concluir que metade dos europeus, especialmente os que possuem mais baixos graus de instrução e empregos precários, se opunham à entrada de mais estrangeiros, apesar de terem demonstrado aceitar conviver com outras etnias. Os responsáveis por este estudo concluíram ainda que existia abertura face a uma sociedade multicultural, pelo que também cada vez mais cidadãos europeus (2 em cada 3 pessoas) destacaram a necessidade de existir conformidade dos comportamentos dos migrantes relativamente

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Os inquéritos foram realizados pelo Eurobarómetro e, em média, a mil pessoas de cada um dos Estados-membros, no período compreendido entre 1997 e 2003. Relativamente ao Inquérito Social Europeu, fizeram-se entre 1500 a 2500 entrevistas na maior parte dos países, em 2002 e 2003.

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às leis nacionais. Este estudo afirmou ainda que eram as pessoas mais jovens que manifestavam uma maior abertura relativamente à diversidade, verificando-se que os indivíduos que possuíam um maior contacto com os migrantes e as minorias, ou seja, as populações urbanas, eram mais defensores e abertos a uma sociedade multicultural do que quem vivia em áreas rurais. Note-se que alguns resultados podem revelar-se preocupantes, nomeadamente se se tiver em linha de conta que, por exemplo, 50% dos europeus inquiridos do estudo estavam contra a entrada de mais estrangeiros.

Tal poderá ser explicado pela possível permanência de ideologias preconceituosas e xenófobas entre uma parte significativa da população.

Em relação aos «imigrantes de leste», Mendes (2010) estuda qual a imagem deste grupo perante a sociedade maioritária. A autora afirma que a atitude destes aparenta ser avaliada de maneira negativa mas, ainda assim, e devido à sua presença ser aliada ao facto de estarem inseridos profissionalmente na sociedade de acolhimento, existe a imagem de que estes imigrantes respeitam os valores da nossa sociedade, do nosso país. Para a autora, em relação a estes imigrantes, há ainda a destacar aspetos como a facilidade de integração e a mobilidade geográfica, tal como se constata: “Em 2000 e 2001, os media faziam «eco» da posição dominante na opinião pública, realçando que os «imigrantes de Leste», aparentemente, têm uma maior facilidade de «integração» entre nós, pois aprendem com mais facilidade a língua portuguesa, têm uma maior mobilidade geográfica […]” (Mendes, 2010: 115). Neto (2001), citado pela mesma autora (2010: 115) destaca ainda outras características, tais como “«despertam facilmente solidariedades informais», «não arranjam problemas», «são mais educados», «estão a animar as aldeias», «têm outra preparação», […] «mais fácil lidar com eles»”.

Apesar de as características salientadas anteriormente serem positivas, atualmente a opinião pública aparenta já não ser tão positiva, quando comparada com os anos da transição do século, podendo eventualmente ter despontado “alguns atritos entre os próprios nacionais dos países de Leste ou entre estes e a população nacional” (Mendes, 2010: 116). A este facto, segundo a mesma autora, acrescenta-se a criação de mitos relacionados com os «imigrantes de Leste», que os ligam às máfias e à criminalidade violenta e organizada, tráfico de mão-de-obra, de uma forma geral, e à prostituição e atividade de alterne, no que à imigração feminina diz respeito. Os imigrantes entrevistados por Mendes (2010) frisam que as notícias veiculadas pelos media, de uma forma genérica, também os associam ao tipo de fenómenos negativos anteriormente

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apontado. Outro dos aspetos a que a autora faz referência é que, ao existir criminalidade, os protagonistas são geralmente assumidos como provenientes da Europa de Leste e, desta forma, quando existem referências noticiosas a estes imigrantes, os meios de comunicação social associam-nos frequentemente aos atores dos crimes. Complementando a ideia anterior, Mendes (2010: 328) argumenta que “[…] Para a comunicação social e seus profissionais, a verdadeira nacionalidade do agressor é algo de irrelevante. A partir do momento em que o indivíduo é identificado como originário de uma região da Europa ainda pouco conhecida entre nós, é natural que se depreenda de forma errónea que o indivíduo só poderá ser ucraniano, até porque os ucranianos são o grupo estrangeiro provindo desta parte da Europa mais numeroso em contexto nacional”. Ou seja, a ideia subjacente é de que, pelo indivíduo ser proveniente desta região em particular, associa-se a que seja ucraniano, visto que os ucranianos são a maior comunidade imigrante em território nacional, proveniente desta região da Europa.