3 REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS
3.3 Articulando a teoria da representação social no campo dos direitos
3.3.2 Representações sociais e direitos humanos
A importância de aliar a psicologia – em especial, a psicologia social por meio da teoria das representações sociais – ao tema dos direitos humanos consiste em poder tentar elucidar as raízes do pensamento coletivo que sustentam não apenas o apoio, mas principalmente as violações de direitos humanos no país.
Partindo-se do princípio de que as relações sociais são traduzidas pelas relações de interdependência entre os sujeitos, e essas relações têm como pano de fundo a cultura, havemos de considerar a existência da diversidade de representações sociais sobre o mesmo objeto, seja entre culturas diferentes, seja dentro de uma mesma cultura. Essas relações de interdependência são reguladas pela institucionalização de certos princípios que têm uma função organizadora do convívio em sociedade. Rique e Santos (2004) assim explicitam:
A institucionalização de certos princípios e esquemas que visam regulamentar essas relações de interdependência, partindo de uma tomada de posição quanto ao que se considera uma sociedade mais justa, foi-se fazendo necessária por motivos históricos, econômicos, políticos e religiosos (Doise, 2001). À medida que se institucionalizam esses ‘contratos de interdependência’, institucionalizam-se os direitos de cada uma das partes relacionadas, isto é, os direitos de cada homem envolvido na relação (RIQUE; SANTOS, 2004, p. 118).
Desse modo, os direitos humanos, na condição de direitos das “partes relacionadas”, constituem os direitos comuns a todos os seres humanos, todavia, para fins de subsidiar as questões que serão levantadas sobre a representação social dos direitos humanos por reeducandos do sistema penitenciário, cabe pontuar que existem duas concepções que permeiam o entendimento sobre o surgimento desses direitos. Elas seriam uma concepção naturalista, na qual os direitos humanos seriam inerentes à natureza humana, e outra concepção positivista que defenderia a construção histórica desses direitos.
Para a relação a que nos dedicaremos aqui, entre representações sociais e direitos humanos, precisamos observar que existem três abordagens da teoria das representações sociais que podem servir de aporte teórico-metodológico das pesquisas em representações
sociais.12 Seriam elas, a Abordagem Culturalista, sistematizada por Denise Jodelet (2005), principal responsável pela sistematização da teoria das representações sociais. Tal abordagem considera que as representações sociais consistem em uma forma de se chegar a uma visão mais global dos sujeitos e dos objetos com os quais se relaciona (JODELET, 2005).
Jean-Claude Abric (1994 apud ALMEIDA; SANTOS, 2005) é o precursor da Abordagem Estrutural com a Teoria do Núcleo Central, cuja compreensão versa sobre a afirmativa de que todas as representações sociais são organizadas em torno de um núcleo central que determina sua significação e organização interna. Segundo ele, as representações sociais teriam características estáveis, instáveis e consensuais e seriam compostas por dois sistemas: sistema central (estável) e sistema periférico (flexível).
A Abordagem Societal decorre da Teoria Psicossociológica de Willem Doise (2002b) que iniciou seus estudos em Genebra sobre os processos sociais subjacentes a uma sociedade, sobre a influência social, intergrupal e de desenvolvimento social. De acordo com Doise, o principal objetivo da psicologia societal seria:
articular explicações de ordem individual com explicações de ordem societal; de mostrar como um indivíduo dispõe de processos que lhe permitem funcionar em sociedade e, de maneira complementar, com dinâmicas sociais, puramente interacionais, posicionais ou de valores de crenças gerais, orientam o funcionamento desses processos. (DOISE, 2002b, p. 2).
Segundo Doise (2002a), que vem dedicando-se há décadas aos estudos sobre a representação social dos direitos humanos, os direitos humanos são compreendidos como representações sociais normativas construídas historicamente e trazem características inerentes a uma determinada cultura. Três hipóteses foram formuladas acerca dos direitos humanos e de suas representações sociais com base nos estudos realizados pelo autor. Conforme ele, em primeiro lugar, os sujeitos de um determinado grupo social partilham crenças de forma efetiva em seu contexto social. Desse modo, as pesquisas sobre as representações sociais dos direitos humanos devem verificar os pontos comuns aos sujeitos e ao grupo a que eles pertencem, como também definir pontos que fundamentam a representação, e descrever como esta se organiza (DOISE; CLÉMENCE; SPINI, 1996).
Outra hipótese seria considerar as diferentes tomadas de posição individual mediante o campo das representações sociais, levando as investigações das representações sociais a
12 Adotamos as abordagens Culturalista e Societal para subsidiar a discussão e análise dos dados apresentados ao longo deste trabalho. No capítulo 4, discorreremos sobre a pertinência de tal escolha para o tema a que nos propomos desenvolver.
analisar as dimensões que levam os sujeitos a se posicionarem de modo diferente quanto aos direitos humanos. A terceira hipótese relaciona-se com as ancoragens das representações sociais dos direitos humanos, e um modo eficiente de investigá-las consistiria em nos debruçarmos sobre os vínculos estabelecidos entre as pertenças e posições societais, bem como as modulações nas tomadas de posição diante do objeto direitos humanos. Doise, Clémence e Spini (1996) consideram que tais aspectos influenciam as atitudes individuais.
A concepção de direitos humanos, de acordo com os postulados de Doise (2002a), estaria fundamentada em representações simbólicas, produtos das interações sociais, e estes regulamentados por contratos sociais tal como a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Contrariando a concepção naturalista de direitos humanos, Doise (2002a, p. 21) afirma:
Estamos longe de uma simples afirmação da existência de direitos que respeitariam de algum modo o estado natural, pré-estatal de um indivíduo. Se os princípios organizadores das primeiras declarações visavam, sobretudo, a afirmar os direitos do indivíduo com relação aos governantes, as declarações e pactos mais recentes introduziram efetivamente direitos a uma solidariedade acordada pelo Estado às vítimas de toda sorte de injustiça, mas também às vezes a indivíduos simplesmente desfavorecidos pela sorte, notadamente porque eles sofreram doenças ou outras privações. A Declaração Universal de 1948 proclama assim um direito aos cuidados (art. 25) ou um direito a um nível de vida suficiente (art. 22 e 25).
A perspectiva histórica dos direitos humanos evidencia que a Declaração Universal dos Direitos Humanos promulgou princípios que dizem genuinamente da necessidade de se organizar as relações sociais, em que caberia ao Estado promover a igualdade social pelos direitos nela descritos. São esses princípios que fomentam nas diversas culturas o enfrentamento pelos movimentos sociais das mais distintas violações aos direitos humanos. Exemplos evidentes da interdependência nas relações entre os sujeitos e dos direitos humanos como um dos princípios organizadores comuns aos movimentos sociais que atuam em defesa dos direitos humanos (DOISE, 2002a; RIQUE; SANTOS, 2004).
Segundo Doise (2002a), os princípios que constam na Declaração Universal dos Direitos Humanos se apresentam em defesa de uma universalidade de direitos que, na verdade, dizem de uma proposta de universalizar princípios morais e políticos. O autor afirma que tais princípios consistiriam, na verdade, em “ideias-forças”, representações sociais normativas institucionalizadas.
Os direitos do homem são os tais princípios de representações sociais normativas, que pelo menos ao nível da intenção, deveriam permitir aos seres humanos avaliar e organizar as suas relações e interações. Por razões históricas relacionadas com finalidades econômicas, políticas, militares, religiosas, as sociedades ocidentais
quiseram organizar estas relações não apenas no interior dos grupos nacionais e culturais que as compõem, mas também nas relações com outros grupos (DOISE, 2002a, p. 16).
Podemos compreender pelo prisma de representações sociais normativas que a Declaração Universal dos Direitos Humanos se propõe, então, a conduzir as relações sociais entre os sujeitos de forma que elas sejam reguladas universalmente pelos princípios do respeito à integridade física, à liberdade e à dignidade, de forma que todos acessem bens que proporcionem uma vida digna e justa (DOISE, 2002a; RIQUE; SANTOS, 2004). Tal entendimento é fundamental para o estudo das representações sociais dos direitos humanos, pois possibilita verificar em que medida distintas representações sociais variam mediante esses princípios, bem como entre grupos distintos, e quem sabe, assim, encontrar alternativas que apontem formas de intervir e colaborar com a efetivação desses direitos.
Tomemos brevemente dois exemplos de representações sociais cujos objetos foram direitos do ser humano e atos violentos, respectivamente, como uma forma de verificar a variação das representações sociais e cujos resultados colaboram efetivamente com nossas reflexões. O Grupo de Genebra, coordenado por Doise desenvolveu uma pesquisa sobre as representações sociais dos direitos humanos em cinco países (Suíça, França, Costa Rica, Itália e Romênia) com estudantes entre 13 e 20 anos de idade.
Os resultados desta pesquisa apontaram, entre outras questões, que há uma relativização na forma como os direitos do homem são compreendidos, assim como sua violação. Quando convocados a responder se uma determinada situação poderia ser caracterizada como violação de direitos humanos, ou não, as respostas demonstraram que a maior aceitação da restrição ou expansão desses direitos está diretamente relacionada com a prerrogativa de que o funcionamento das instituições deve ser preservado (RIQUE; SANTOS, 2004).
Outra questão importante apontada por Doise (2002a apud RIQUE; SANTOS, 2004) consiste na evidência de uma disparidade
entre a adesão aos princípios gerais dos direitos humanos e a aplicação desses princípios em situações concretas. Assim, alguém pode ser capaz de defender o direito à integridade física e, ao mesmo tempo, considerar ‘correto’ e ‘natural’ a violência física contra um infrator, sobretudo se o próprio sujeito foi a vítima da infração. (RIQUE; SANTOS, 2004, p. 128).
A naturalização da violência também foi analisada em uma pesquisa sobre representações que mães têm na violência praticada por elas contra as filhas (MENDONÇA,
2002). Para as mães entrevistadas, o ato violento é compreendido como uma ferramenta disciplinadora necessária para a construção moral das filhas e caracteriza-se como um direito inerente à própria condição de mãe. Outra justificativa apresentada pelas entrevistadas dizia da fatalidade das filhas serem futuramente violentadas por seu companheiro. Essas representações da maternidade e das relações de gênero servem de subsídio não apenas para o desenvolvimento de pesquisas em representações sociais, como um objeto de intervenções capazes de produzir mudanças nos sentidos atribuídos aos objetos das representações em tela (RIQUE; SANTOS, 2004, p. 129).
Um trabalho de pesquisa e intervenção sobre a representação social dos direitos humanos por policiais civis e militares do estado de Pernambuco (RIQUE; SANTOS, 2004) traz algumas questões mais próximas do objeto de investigação de representações sociais proposto nesta dissertação. A intervenção e pesquisa desenvolvida pelas autoras mostraram- se, segundo elas, como “uma das formas encontradas para provocar a mudança social rompendo com um modo de pensar que dificulta a efetivação dos direitos humanos” (RIQUE; SANTOS, 2004, p. 129).
A referida pesquisa teve como mote um curso de direitos humanos oferecido para policiais civis e militares do estado de Pernambuco. Durante o curso, três objetos foram investigados e trabalhados: as expectativas relacionadas com o curso; os direitos humanos; e a identidade profissional. Conforme descrição das autoras:
dos três objetos, os direitos humanos caracterizam-se como objeto de representação social; enquanto as respostas obtidas com relação ao curso e à identidade profissional fornecem subsídios para a compreensão das representações sociais dos direitos humanos e, sobretudo, do posicionamento dos policiais a respeito desses direitos. (RIQUE; SANTOS, 2004, p. 129).
Os entrevistados basearam-se nos direitos contidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos para definir os direitos humanos a exemplo dos direitos à liberdade, igualdade, solidariedade e direito à vida. Todavia, a pesquisa revelou um aspecto relevante para a investigação a que nos propomos neste trabalho: alguns policiais chegaram a definir direitos humanos como direitos das pessoas que infringem as leis. Conforme a concepção desses policiais, haveria um excesso de direitos para os infratores, reforçando, de acordo com as autoras, a categorização feita por eles entre cidadãos e não cidadãos.
O fato de aparecerem significados relativos ao ‘excesso de direito’ dos ‘infratores, pessoas erradas, vadios, bandidos’ parece reforçar a hipótese de que há, para os policiais, as categorias de cidadão e não-cidadão, isto é, as pessoas erradas, os
vadios e os bandidos não seriam sujeitos de direito uma vez que não seriam considerados cidadãos. Cidadão, aqui, parece assumir o sentido do ‘sujeito de deveres’, isto é, aqueles que cumprem seus deveres, obedecem às leis e desempenham os papéis sociais esperados. (RIQUE; SANTOS, 2004, p. 135).
Esse aspecto da pesquisa mostrou que a compreensão dos direitos humanos, bem como sua relativização, podem variar a depender do contexto e da percepção que se apresenta acerca do sujeito do objeto em tela, se seria esse sujeito de direitos ou não, bem como se o sujeito seria dotado de humanidade ou não. Ao que nos interessa mais especificamente, a representação social dos direitos humanos por reeducandos do sistema penitenciário, podemos considerar, pelo que foi apresentado nesta seção, que nossa investigação estará comprometida com a identificação dos aspectos que explicam a representação social dos direitos humanos como “privilégio de bandidos”.
Outro elemento fundamental na utilização da teoria das representações sociais na investigação das representações sobre direitos humanos consiste em poder verificar como a representação social acerca desse objeto vem conduzindo as práticas dos sujeitos que confirmam a visão desses direitos sob a noção de privilégio. A teoria subsidiará, igualmente, nossas investigações acerca da função identitária e justificadora da representação social dos direitos humanos, o que poderá nos levar ao encontro do sentimento de pertença entre os presos, bem como as justificativas que conduzem determinados comportamentos a determinados objetos quanto ao tema em tela.
Nesse sentido, no próximo capítulo, a seção 4.1 dedica-se à apresentação e análise dos dados da pesquisa sobre representações sociais dos direitos humanos realizada entre reeducandos do sistema penitenciário do estado de Pernambuco. Os dados coletados na pesquisa permitirão verificar elementos das representações sociais dos direitos humanos de forma geral, bem como as consonâncias e dissonâncias no discurso dos entrevistados sobre a representação social dos direitos humanos com a noção de privilégio, mais especificamente, no tocante à expressão de que direitos humanos são “privilégio de bandidos”.
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