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APÊNDICE I – Descrição do sistema de transitividade do texto de sentença de

CAPÍTULO 2 – REPRESENTAÇÃO E LINGUAGEM

2.1 Representações sociais: um conceito multifacetado

A teoria sobre representações sociais foi impulsionada, na França, por Serge

Moscovici, seguidor da concepção inaugurada por Durkheim, e aprofundada por

Denise Jodelet, que a levou a vários países, inclusive ao Brasil, na década de 1980.

Essa teoria toca em domínios e assuntos diversos, dentre os quais se destacam:

científico, cultural, social e institucional, produtivo, ambiental, biológico e médico,

psicológico, educacional, estudo de papéis e atores sociais e relações intergrupais

(JODELET, 2001).

De acordo com Jodelet (2001), criamos representações para nos ajustar ao

mundo, para sabermos como nos comportar, como dominá-lo física e

intelectualmente, para identificarmos e resolvermos os problemas que se

apresentam. Nas palavras da autora,

Frente a esse mundo de objetos, pessoas, acontecimentos ou idéias, não

somos (apenas) automatismos, nem estamos isolados num vazio social:

partilhamos esse mundo com os outros, que nos servem de apoio, às

vezes de forma convergente, outras pelo conflito, para compreendê-lo,

administrá-o ou enfrentá-lo. Elas nos guiam no modo de nomear e definir

conjuntamente os diferentes aspectos da realidade diária, no modo de

interpretar esses aspectos, tomar decisões e, eventualmente,

posicionar-se frente a eles de forma defensiva (JODELET, 2001, p. 18)

[Grifo nosso].

Para representar e representar-se, é preciso reportar-se a um objeto, que

pode ser uma pessoa, uma coisa, um acontecimento material, psíquico ou social, um

fenômeno natural, uma idéia, uma teoria, etc. O objeto pode ser tanto real quanto

imaginário ou mítico. No contexto do PP, é possível verificar como objetos sendo

representados: os sujeitos processuais (pessoas investidas de um papel no

processo penal – profissionais do direito e ré), a conduta delituosa (ações que

causaram a morte da vítima), os fatores atenuantes (estado emocional da ré antes e

durante o crime, sua condição social, etc.), a classificação do tipo de crime (com

intenção, sem intenção, sob estado puerperal ou não, etc.).

A representação como uma visão, que é um guia para as ações e trocas

cotidianas, pode entrar em conflito com a visão de outros grupos. No contexto

jurídico, a representação que guia o pensamento e as atitudes de profissionais do

direito perante determinada situação pode ser bastante distinta, às vezes até

contraditória, sob o ponto de vista de alguém que não compartilha as

representações construídas no “mundo virtual”. Conforme já salientou Bhatia (2007),

os profissionais que compartilham a representação desse mundo conseguem

interagir com relativa facilidade45. Mas para a maioria das pessoas do mundo real, o

mundo jurídico é extremamente complexo, de difícil acesso e interação. Constrói-se,

assim, uma representação de duas vias: ao mesmo tempo em que é representada

como aquela que pratica a justiça em benefício dos cidadãos, a instituição jurídica,

em função dos mecanismos de institucionalização que promovem certo

distanciamento dos demais grupos sociais, também pode ser representada como

fator de desigualdade e da sensação de impotência diante das injustiças,

principalmente quando a vontade da maioria da sociedade não se verifica em

sentenças proferidas para uma lide judicial.

Nesse sentido, conforme Jodelet (2001), partilhar uma idéia ou uma

linguagem significa afirmar um vínculo social e uma identidade. Isso se verifica com

muita clareza no contexto jurídico, em que o uso da linguagem técnica é um dos

mecanismos utilizados pelos profissionais para evidenciar sua pertença ao grupo

dos operadores do direito. A partilha não só de uma linguagem específica (termos

técnicos, alta densidade lexical, estruturas sintáticas complexas, etc.) e de

tipificações genéricas (conhecimento prévio sobre o funcionamento e a forma dos

gêneros jurídicos), como também do conhecimento das leis que regulamentam tanto

os procedimentos processuais (que atos devem ser realizados, quem pode ou deve

realizá-los, os prazos para sua realização, etc.), quanto as classificações dos crimes

e suas penalidades (penas mínima e máxima para cada tipo de crime, circunstâncias

atenuantes, regimes de cumprimento da pena, etc.) serve à afirmação simbólica de

uma unidade e de uma pertença.

Ao mesmo tempo, o grupo se representa naquilo que tem de distinto, de

próprio, que o diferencia dos demais grupos sociais. A linguagem jurídica é,

portanto, um dos mecanismos mais eficientes para marcar essa distinção.

Conforme explica Jodelet (2001), quando ocorre a naturalização das noções,

estas recebem valor de realidade concreta, utilizáveis na ação sobre o mundo e os

outros. A representação se torna guia de leitura e teoria de referência para

compreender a realidade. Desse modo, as situações coletivas fazem parte do

pensamento cotidiano ou do pensamento especializado, como o jurídico. Moscovici

45

(2001), considerando o ponto de vista de Weber (1974) e, principalmente, o conceito

de Durkheim (1978), aponta a separação entre as representações coletivas e as

individuais: estas “têm por substrato a consciência de cada um”, ao passo que

aquelas, “a sociedade em sua totalidade” (p. 47). Moscovici (2001) compreende que

as representações coletivas são a origem das representações individuais,

correspondendo à maneira como determinada sociedade pensa as coisas de sua

própria experiência. Além de preservar vínculo entre os membros de um grupo, da

mesma forma que partilham um língua, a representação prepara-os para pensar e

agir de modo uniforme (“pensando como advogado”, por exemplo). Ademais, ela

“perdura pelas gerações e exerce uma coerção sobre os indivíduos, traço comum a

todos os fatos sociais” (MOSCOVICI, 2001, p. 47). Por isso, a representação coletiva

é mais estável que a individual. Do ponto de vista individual, as representações não

são necessariamente conscientes; elas traduzem a maneira como “o grupo se pensa

nas suas relações com os objetos que o afetam” (DURKHEIM, 1978, p. 79).

Em suma, as representações coletivas referem-se a “categorias de

pensamento através das quais determinada sociedade elabora e expressa sua

realidade” (MINAYO, 1995, p. 90). Essa noção recobre, de certa forma, a idéia de

“contexto de cultura” para Malinowski (ver Capítulo 1).

Contudo, é pertinente a observação de Minayo (1995, p. 110): é importante

não tomar as representações como “verdades científicas, reduzindo a realidade à

concepção que os homens fazem dela”.

Schutz (1982), citado por Minayo (1995), distingue “experiência” e

“conhecimento”46. O termo “experiência” remete a algo que é comum a um grande

número de pessoas ao mesmo tempo, ao passo que o “conhecimento” refere-se à

elaboração interior, subjetiva e intersubjetiva da experiência vivida pelo indivíduo,

então chamado ator social. Dependendo da sua história de vida, cada ator social

atribui certa relevância a determinados temas, aspectos ou situações, constituindo o

conhecimento de suas experiências. Essa idéia vai ao encontro do pensamento

fenomenológico de Thomas (1970), segundo o qual o ator social responde tanto aos

aspectos físicos de uma situação, quanto ao sentido que atribui a essa situação.

46

Conforme veremos na seção 2.2, Halliday & Matthiessen (1999) utilizam a noção de “experiência”

ao apresentarem sua abordagem complementar baseada na linguagem. Para eles, a linguagem,

como sistema semântico, tem papel central (e não apenas de acúmulo e troca de experiências) na

construção das experiências de mundo do ser humano.

Assim, se ele define determinada situação como real, ela é real em suas

conseqüências (MINAYO, 1995).

O interesse das Ciências Sociais pelo estudo das representações se deve ao

fato de que todo o saber gerado e comunicado torna-se parte da vida coletiva e, por

isso, nos afeta em maior ou menor grau. Assim, ao lado da Antropologia, da

Psicologia Cognitiva, da Psicanálise, a Lingüística tem muito a contribuir para a

reflexão sobre os fenômenos representativos. Afinal, como destaca Minayo (1995, p.

108),

as Representações Sociais se manifestam em palavras, sentimentos e

condutas e se institucionalizam; portanto, podem e devem ser analisadas a

partir da compreensão das estruturas e dos comportamentos sociais. Sua

mediação privilegiada é a linguagem, tomada como forma de conhecimento

e de interação social [grifos da autora].

Harré (2001, p. 106) também salienta que uma das características dos

trabalhos de Moscovici, desde que inaugurou os estudos em representação social a

partir da concepção de Durkheim, foi a de enfatizar “os vínculos entre atividade

lingüística e manifestação das representações sociais”.

Dentre as diversas formas como os conhecimentos (do senso comum, das

técnicas ou das ciências) podem manifestar-se, as manifestações discursivas são o

enfoque dos estudos sobre representação e linguagem. Grize (2001, p. 123) formula

uma questão pertinente para o encaminhamento de pesquisas nessa área: “como o

que alguém diz ou escreve pode informar ao observador sobre as representações

que ele tem ou se faz das coisas e dos fenômenos de que trata?”. Para o autor, toda

representação é um conceito semiótico: não se trata de questionar a realidade, mas

de analisar como ela é representada pelos signos.

Nesse sentido, embora não sejam necessariamente conscientes, as

representações sociais correspondem, por um lado, a situações reais de vida,

através das quais os atores sociais se movem, constroem e explicam sua vida ou,

no caso jurídico em estudo, suas atividades no interior de um sistema

institucionalizado. Por outro lado, não se trata apenas do fenômeno da “dizibilidade”

(em que a língua é um “dizer potencial”, e o discurso é o “dizer efetuado”). Conforme

salienta Jacques (1987, p. 189), traduzido por Martins (2002, p. 47), “vemos como

falamos, e não propriamente falamos como vemos”. Em outras palavras, representar

consiste em dar a ver organizado em termos de linguagem.

Com essa breve exposição sobre o tema, é possível perceber o quanto o

conceito de representação social é multifacetado. Conforme Wagner (1995), pelo

menos duas concepções fundamentais se verificam: por um lado, como um

processo social ao longo do qual significados e objetos sociais são elaborados,

envolvendo comunicação e discurso; por outro, como estruturas individuais de

conhecimento, símbolos e valores distribuídos entre os membros de um grupo social

ou sociedade. Para o mesmo autor, isso dá versatilidade ao conceito e possibilita

que seja usado, combinado e incorporado por outros referenciais.

Nos estudos sobre representação social, é comum uma representação ser

considerada causa para determinado comportamento social, o que faz sentido desde

que o comportamento do indivíduo seja visto no contexto dos limites impostos pelas

condições sociais. Esse aspecto pode ser identificado nos termos de declaração da

acusada no PP. A representação que ela manifesta acerca do próprio pai –

“bastante bravo” (fl. 31 do PP), “é uma pessoa difícil” (fl. 72 do PP) – e a reação da

família – “temia contar e ser expulsa de casa” (fl. 32 do PP) – foi tomada como

motivo para atos incomuns, como esconder a gravidez, não chamar os familiares no

momento do parto e esconder o corpo do recém-nascido num guarda-roupa. A sua

condição de jovem submetida a uma educação rígida, especialmente por parte do

pai, é tomada como causa para o seu comportamento.

Sob uma lógica semelhante, nas alegações finais da defesa, o advogado

utiliza essa mesma representação construída pela acusada para justificar a ausência

de dolo (intenção) no ato de cortar o cordão umbilical e ferir fatalmente a criança. As

palavras do advogado – “só age assim [esconder o recém-nascido morto dentro de

um roupeiro em seu quarto] quem está emocionalmente abalada pela dor, pelo

sofrimento acumulado durante meses” (fls. 104-105 do PP) – representam a

acusada como uma pessoa alterada emocionalmente em decorrência dos

acontecimentos ao longo dos meses em que vivenciou a gravidez às escondidas.

Como essas e outras representações podem ser analisadas no nível

léxico-gramatical é a preocupação central deste trabalho. Assim como Harré (2001),

depreendemos que as representações sociais existem nas estruturas sintáticas e na

organização semântica dos léxicos das línguas (faladas ou escritas). Afinal, as

palavras são usadas como instrumentos para alcançar determinados propósitos nas

atividades humanas. A escolha de uma palavra no lugar de outra pode construir

diferentes significações e, por conseguinte, diferentes representações de um objeto.