Irmandades, confrarias, devoções e outras associações religiosas
REPRESENTANTES DE INSTITUIÇÕES CIVIS E MILITARES
Outros recorrentes participantes activos no evento são os representantes de instituições civis
e militares. A Câmara Municipal da Póvoa do Varzim apresenta-se como co-responsável, actualmente,
pela organização de algumas procissões (a procissão de S. Pedro, que criou, e a de Nossa Senhora da Assunção, que ajudou a preservar), em articulação com o se estatuto de comissão fabriqueira da igreja Matriz, que lhe foi atribuído em meados do século XVIII, época em que “o povo” da vila decidiu mandar construir uma nova igreja de grandes dimensões, tendo em conta a amplitude populacional. A igreja é construída ao lado do edifício da Câmara Municipal, criando um pólo nuclear cívico e religioso, reafirmando a qualidade da vila como individualidade própria. Aliás, e como já referimos, o “senado da Câmara” tinha, desde 1610, direito de se instalar num cadeiral na antiga matriz.:
“O senado da camara d'esta villa tem ao pe do arco cruzeiro d'esta igreja, como padroeiro, por fabriqueiro d'ella um assento d'espaldas que se pôz no anno de 1610 - sendo juiz ordinario e da igreja Affonso Fernandes Medella, e sendo-lho prohibido por um capitulo de visitação se lhe mandou conservar por despacho do arcebispo D. João de Sousa datado de 3 de outubro de 1699.
O juiz ordinario d'ella é juiz da igreja, e procedendo o parocho Antonio Francisco Seixas á eleição de juiz da igreja, separado, recorreu o senado, como cabeça do povo, ao arcebispo, e em Relação se accordou que sem embargo de quaesquer capitulos, ou ordens se observasse o antigo costume de ser juiz da igreja o ordinario da villa, e o mesmo succedeu sobre o capitulo que deixou o visitador Manoel da Cunha Lira, e lhe foi derogado por accordão da Relação primaz de - 4 d'abril de 1726.”237
Em 1742 a obra de pedraria da nova igreja é arrematada por Manuel Fernandes da Silva “mestre de pedraria” de Braga e, em 1743, é lançada a 1.ª pedra. Em 6 de Janeiro de 1757 é sagrada solenemente. Por essa altura, em 1758, a Póvoa contava com 545 fogos (1543 pessoas).
Quando a igreja foi inaugurada, em 1757, realizou-se “uma soleníssima procissão”, em que participam todas as autoridades e forças vivas da terra. Para a construção da nova igreja Matriz tinham-se congregado todos os esforços, desde o trabalhador que pagava mais uma “finta”, até ao rei que abdicava de parte dos seus impostos. Ao lado do edifício dos Paços do Concelho, a nova igreja patenteia o orgulho do seu Povo e a marca da sua vontade de “ser grande”. Quanto à colaboração e apoio da Câmara civil, esse facto nunca será esquecido, seja pelo facto relevante de o Juiz da igreja ser o Juiz da Câmara (ou seja o seu Presidente), direito que “por ser costume antigo” será respeitado por ordem do arcebispo, contra todas as Leis da diocese. Assim, o facto de a edilidade possuir cadeiral
237 Cf. LEAL, Francisco Felix Henriques da Veiga - Noticia da Villa da Povoa de Varzim, feita a 24 de Mayo de 1758. Resposta ao Inquérito dirigido pelo P.e Luís Cardoso, em 1758; [in BARBOSA, Fernando (publicou e prefaciou) - O Concelho da Póvoa de Varzim no século XVIII - As Memórias Paroquiais de 1736 e 1758, in «PÓVOA DE VARZIM. Boletim Cultural», vol. I, P. Varzim, 1958, p. 315.]
próprio na Matriz e participar activamente nas festividades religiosas torna-se, de igual modo, incontestável.
É consabido o facto de a organização de procissões como as do Corpo de Deus serem ancestralmente da responsabilidade das Câmaras Municipais do país, prática que se mantém até ao advento da República. Na Procissão do Corpo de Deus participava, por tradição - e obrigação! – todo o executivo camarário, assim como os seus funcionários e todas as corporações do concelho.
Assim se compreende que, na Póvoa, quatro dias depois do acolhimento entusiasta da República, em 6 de Outubro de 1910238, se pergunte se não há “inconveniente” em permitir a
realização da festividade de N.ª S.ª do Rosário no domingo seguinte239. Aparentemente, não terá
havido grandes problemas com a realização dos cortejos religiosos no decurso da 1ª República, pois que, se não se realizou a festividade de N.ª S.ª da Assunção em 1912, foi devido á falta de verbas da Irmandade, tendo-se, todavia realizado em 15 de Agosto de 1911 com todo o esplendor, sendo publicada a fotografia do carro alegórico do “Triunfo da Igreja”.240
Apesar de tudo, só em 1947, na reunião de Câmara de 4 de Junho, foi decidido que seria autorizado que “da sacada dos Paços do Concelho fosse lançada ao público a bênção do Santíssimo
Sacramento e Incorporar-se na procissão do Corpo de Deus, no dia 5 do corrente”246
Além do Corpo de Deus, em que a participação da edilidade era um dado adquirido, sabemos que era, também, costume as autoridades da Póvoa de Varzim, por solicitação directa da Real Irmandade de N.ª S.ª da Assunção, participarem na maior procissão da povoação, que era assumida como festa do concelho, existindo disso provas documentais nos Livros de Actas das Sessões da
Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, primeiro solicitando a participação e depois agradecendo.
Outro cortejo que, pela sua importância e solenidade contava, e conta, com a participação do executivo camarário, autoridades militares e representantes de Associações, é a procissão do Enterro do Senhor. Curiosamente, as outras cerimónias da Páscoa não apresentam este acompanhamento, caracterizando-se por um protocolo menos rígido e uma maior simplicidade. Mas o que também não podemos esquecer - e aqui sentimos verdadeiramente a marca do peso da história e da tradição – é que as duas procissões referidas, do Corpo de Deus e do Enterro do Senhor, são as mais antigas de que temos notícia de se realizarem na vila, além de serem também as mais importantes do ponto de vista litúrgico. A par destas, só a de N.ª S.ª da Assunção, pelo facto de funcionar como procissão da
238 Ver: Doc. n.º 100, Quadro de registos documentais, volume 3 – Apêndices. 239 Ver: Doc. n.º 102 e103, Quadro de registos documentais, volume 3 – Apêndices.
240 Cf. LANDOLT, João Agostinho (direct.)- Uma Procissão que não sae. A Senhora d' Assumpção, in Revista «A "Povoa de Varzim"», 1.º ano, n.º 21, Póvoa de Varzim, Dir. propr. e edit. - João Agostinho Landolt, 1912, (p. 1 - rosto e seguintes).
patrona da terra. Embora não seja o orago da mesma é ela também “amparo dos homens do mar”, aspecto de suma importância numa terra de marítimos.
Na procissão de S. Pedro, cuja implementação partiu dos serviços do Turismo da Câmara Municipal a partir de 1962, decretando-se para essa data um feriado concelhio, e realizando-se as festividades em geral com o apoio da Câmara, era natural que esta participasse no evento. Também costumam estar presentes representantes das cidades geminadas e outras entidades oficiais que nela são convidados a participar.
Outras procissões, embora de menor importância, pelo valor simbólico e identitário de que se revestem para as comunidades locais, motivam a participação de autoridades civis, nelas comparecendo normalmente representantes da Câmara Municipal, da Junta e das forças militares. Destacam-se, pelo seu valor popular, a quase rural procissão de N.ª S.ª de Belém, a caminho de Beiriz (que justifica até a participação da Junta de Freguesia de Beiriz) e a de N.ª S.ª do Desterro, na zona Norte, cujo profundo bairrismo motiva a que o próprio Presidente da Câmara e alguns vereadores que aí habitam nunca deixem de participar.
Figura 40 – Presidente da Câmara, Dr. Macedo Vieira, ao centro, ao seu lado esquerdo o vice-presidente, Eng.º Aires Henrique do Couto Pereira. Do lado de fora, à direita, o vereador da cultura, Dr. Diamantino Baptista e à esquerda do Vice-presidente, o presidente da Junta da Póvoa de Varzim Atrás segue o responsável máximo no concelho da Guarda Fiscal e outros elementos da Junta e associações civis e culturais da zona. Seguem todos no final na procissão (ou seja, no lugar de honra), depois do pálio e dos membros da confraria de N.ª S.ª
Nas freguesias, e nas principais procissões, também é de regra convidar membros do poder político, Presidente da Câmara, vereadores, membros das Juntas de Freguesia e associações locais, a participam nas procissões.
Independentemente do gosto e até da devoção particular das figuras públicas e das autoridades civis, a sua comparência nestes cortejos solenes, em que quase toda a população participa, ou assiste, revestem-se de uma importância política evidente. Assim como a comparência dos políticos nos enterros das pessoas “gradas” das terras demonstram a sua consideração pela localidade e suas gentes, também a sua presença nas festas que as caracterizam e são motivo de orgulho, se apresenta como momentos de contacto privilegiado com as populações, estabelecendo empatias entre quem festeja em comum, um “estar com os outros247” que todos aproxima, apesar das diferenças de
estatutos ou, mesmo, de ideologias.
A mais curiosa participação, até pelo reduzido alcance político do evento, é a do vereador do Pelouro da Cultura na Procissão de N.ª S.ª de Fátima dos Infantários. São as crianças acompanhadas pelas Educadoras de Infância, as quais solicitam audiência e vão convidar “oficialmente”, ao edifício da Câmara Municipal, o Vereador da Cultura. O pequeno cortejo que se organiza na Praça do Almada, num dia de semana, é logo envolvido por sorrisos de carinho e a atenção dos poucos transeuntes que andam pelo espaço entre a Praça e a igreja Matriz. Rapidamente quem se encontra em casa coloca colchas de renda branca nas varandas e é com toda a solenidade que o vereador acompanha o arcipreste e alguns párocos, no final do cortejo, a que, apesar de faltar o pálio e a santa relíquia248, não
deixa de ter a cruz paroquial e lanternas, orgulhosamente transportadas por alguns membros da Confraria do Santíssimo Sacramento.
247 DIAS, Geraldo José Amadeu Coelho – O Mar e os Portos como catalizadores de religiosidade. Actas: O Litoral em Perspectiva Histórica. Sécs. XVI a XVIII, Porto, Instituto de História Moderna da Universidade do Porto, 2005, p. 278.
248 Não deveríamos chamar a este cortejo de crianças do Infantário de Procissão, visto que lhe falta a presença do turíbulo com o incenso a fumegar e de um objecto sagrado, como uma relíquia ou a custódia com o Santíssimo, protegidos pelo obrigatório pálio. O clero que participa não segue paramentado no cortejo e a cerimónia só ganha um “verdadeiro” valor litúrgico a partir do momento em que entra na igreja matriz. Trata-se mais de um “exercício espiritual”, quase diríamos, de um jogo, do que uma verdadeira procissão. Mas quem vê passar uma “Nossa Senhora de Fátima” usando sapatilhas e calças de ganga sob a túnica branca, mas com as mãos postas e numa atitude de perfeita concentração e alegria, percebe que aquele não é um acontecimento secundário, mas um momento de intensa sacralidade.
Figura 41 - Procissão de N.ª Senhora de Fátima dos Infantários. 2005.05.14. Seguem no fim do cortejo (lugar de honra): o vereador da Juventude e o vereador do Pelouro da Cultura da Câmara Mun., o Mons. Manuel Amorim (de Beiriz) e, à frente, o Prior da Matriz, o
Arcipreste Pe. Domingos Araújo e o pároco da Aguçadoura.
A presença de representantes militares é também reconhecida, hoje, como anteriormente, associando-se, afinal, à presença das restantes autoridades do concelho, a política e a religiosa. Essa participação está documentada pelo menos desde 1758, data em que Francisco Felix Henriques da Veiga Leal, capitão da Fortaleza e familiar do Santo Ofício, colaborou com o pároco na redacção da “Notícia” desta Vila, descrevendo-a tal como era nesse período e relatando a sua história. Nota-se, pela descrição da procissão da inauguração da matriz e noutras actividades, que colabora activamente com as cerimónias religiosas da localidade, disponibilizando a sua pessoa, a fortaleza, também com a invocação de N.ª S.ª da Conceição e respectivos militares para serviços e manifestações de índole socio-religiosa.