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5. A conta: saldo do movimento

5.5. Representatividade da gastronomia nos tempos atuais

Em torno do crescimento e evoluções da gastronomia em Pernambuco estiveram presentes diversas instituições que colaboraram e incentivaram as transformações acontecidas no Estado. Ações isoladas no início do movimento neo-regional passaram a ser articuladaslxxvii com o desenvolvimento do setor de alimentação fora do lar e a consolidação de um pólo gastronômico em andamento nas duas últimas décadas: “(...) acho que está todo mundo trabalhando junto. Instituição, associações, a ABRASEL está ai, o SEBRAE movimentando isso, e as universidades que dão força nisso também” [J2].

O trabalho desempenhado por associações como ABRASEL e Restaurantes da Boa Lembrança foram marcados pela idéia de associativismo. O empresariado local não possuía essa mentalidade e hoje já dá sinais de mudança quanto a esse comportamento: “hoje há uma união muito maior do que existia dez anos atrás (...)”[RI2]. No entanto, se por um lado, houve um maior entendimento das vantagens do fortalecimento de associações no setor e um maior engajamento por parte dos restaurantes, por outro lado, isso também possibilitou o desenvolvimento de visões críticas dos profissionais atuantes na área: “Eu acho que (...) a ABRASEL (...) ainda não está realmente atuando como eu gostaria, porque ela atua em cima de políticos e os políticos são muito devagar [CH3]” e “(...) Então, é uma coisa altamente distorcida, a Boa Lembrança, ela é muito política (...)” [R1]. A visão política aqui toma conotações negativas, burocráticas e de atraso, fato que levanta outra proposta para as entidades: voltadas possivelmente, a uma orientação em defesa de interesses alheios ao que se propôs à coletividade. Se o próprio associado critica essa orientação da entidade, é sinal de que há divergências entre os interesses defendidos na prática e nos discursos.

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RI2: o setor hoje está muito mais unido. (...) Isso traz crescimento econômico do setor, visibilidade, chama atenção da mídia (...).

Partindo para uma articulação ainda maior, agora interinstitucional e abrangendo o setor de turismo, percebemos o avanço dado pelo Estado de Pernambuco em direção à construção de um cenário forte e projetado nacionalmente como um importante pólo de gastronomia:

(...) O presidente da Associação dos Pratos da Boa Lembrança, César Santos, é pernambucano. O presidente do Conselho Nacional da ABRASEL - Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Bobby Fong, pernambucano. O diretor da ABS franquias, Leonardo Lamartine, pernambucano do Grupo Bonaparte. Presidente da EMBRATUR, Janine Pires, morou muito tempo em Pernambuco e o marido dela tem negócios em Pernambuco. Então, tudo de turismo, que envolve turismo, envolve gastronomia, Pernambuco está no meio. Não tem jeito daqui não ser diferente. Tudo leva a Pernambuco ser um pólo de concentração. [J4]

As representações institucionais do turismo brasileiro foram assumidas, em sua maioria, por defensores dos interesses pernambucanos, propiciando assim, um cenário favorável para o contínuo crescimento da gastronomia local. No entanto, para que isso aconteça é preciso que dois problemas apontados como os maiores empecilhos ao desenvolvimento local sejam superados.

O primeiro grande obstáculo é uma questão social e consiste no descontrole da violência urbana, problema típico das grandes metrópoles brasileiras: “(...) o desafio para o nosso mercado hoje no Estado é a violência urbana, porque as pessoas ficam receosas em sair à noite, em sair para consumir fora de casa” [RI2]. Aliado à falta de segurança pública está a necessidade em aumentar os índices de visitação turística à Pernambuco: “(...) o que falta realmente, o que melhoraria mais ainda essa situação seria o turismo, que nós não temos tanto mais “ [CH6].

O turismo como ponto fraco no Estado confirma a idéia de que a sustentação de pólo gastronômico é dada pelo público interno, o pernambucano, e não há mais como expandi-lo. Por isso, é tão urgente e importante fazê-lo pela via do turismo. A partir dessa constatação, as estratégias de atração do turista para o Estado e capital tiveram de ser revistas:

Durante muito tempo foi trabalhado Recife e Pernambuco como um destino turístico meramente sol e mar. (...) Só que hoje é sabido que nós temos muito mais do que isso. Na realidade, sempre soube. (...) Só que hoje é reconhecido no mundo inteiro, estudado e confirmado por especialistas da área, que o turista cultural deixa muito mais recursos no destino do que, por exemplo, um turista sol e mar. Porque ele realmente vivencia o dia-a-dia da cidade, visita vários atrativos da cidade, consome os atrativos da cidade. Como? O nosso patrimônio material, que é onde está a nossa gastronomia, que é o nosso modo de fazer, que é único no mundo todo. [RI5]

A gastronomia passou a ser reconhecida como atrativo turístico131 e a ter destaque nas ações do governo: “todo trabalho que é realizado pela Secretaria de Turismo de Recife reflete também no turismo do Estado. A Secretaria vê a gastronomia como algo muito importante (...)” [RI5]. Deste modo, houve uma mudança de perspectiva de venda do destino Pernambuco para o turista. Agora a ênfase é dada à questão do multiculturalismo, presente nas expressões culturais de forma geral, como na música, dança e também na gastronomia132. Essa decisão envolve não apenas um redirecionamento nas ações de marketing turístico, mas também uma readaptação do comportamento recluso do pernambucano. Deve ser mais uma construção coletiva viabilizada por meio da gastronomia:

Além dessa valorização, fala-se muito que o pernambucano e o recifense são bairristas. Ele se apega muito. Ele é o pioneiro, tem a primeira sinagoga, é o primeiro isso, o primeiro aquilo, primeira ponte das Américas, maior shopping. Nós temos isso, mas temos que trabalhar para mostrar isso, não só ficar para a gente. E hoje o trabalho é diferente. [RI5]