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2 CAMPO INTELECTUAL: OS INTELECTUAIS E SUAS FUNÇÕES

2.2 Representatividade intelectual: dilemas e prospectivas

Foi a partir desse questionamento e buscando entender o que é, qual sua função, quais representações incidem sobre a prática do sujeito intelectual, que Edward W. Said teceu reflexões durante as Conferências Reith de 1993, acerca do papel dos intelectuais na sociedade. O autor defende que a postura do intelectual deve ser universal, “cujo desempenho público não pode ser previsto nem forçado a enquadrar-se num slogan, numa linha partidária ortodoxa ou num dogma rígido” (SAID, 2005, p.12).

Conforme argumenta o autor, essa postura deve ser inerente ao sujeito intelectual independente da sua vinculação social e das suas origens. Esse indivíduo deve se opor ao

status quo, dirigir-se a maior público possível, “questionar o nacionalismo patriótico, o

pensamento corporativo e um sentido de privilégio de classe, raça ou sexo” (SAID, 2005, p.13). O autor defende que o intelectual se torna impotente, por vezes, diante do exercício de poder dos governos, dos meios de comunicação ou corporações, de modo que isso dificulta a possibilidade de exercer mudanças, restando ao simples papel de testemunha e não de um agente transformador (SAID, 2005).

Nessa direção, Said (2005, p.16, grifo do autor) expõe o que o leva a definir suas representações da consciência do intelectual: “mais um espírito de oposição do que de acomodação, porque o ideal romântico, o interesse e o desafio da vida intelectual devem ser encontrados na dissensão contra o status quo” e que deve prevalecer na prática desse sujeito cativação do público, vencer na troca de acusações, nos debates, optar pela “autoironia à chuva de confetes”. Essa postura confrontante, segundo o autor, não renderá ao intelectual grandes redes de amizade, nem tão pouco altos cargos, salários ou grande honras. “É uma condição solitária, sim, mas é sempre melhor do que uma tolerância gregária para com o estado das coisas” (SAID, 2005, p. 17).

Na representação de intelectual apontada pelo autor, os sujeitos praticam suas ações com base em princípios universais, de liberdade e de justiça:

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A questão central para mim, penso, é o fato de o intelectual ser um indivíduo dotado de uma vocação para representar, dar corpo e articular uma mensagem, um ponto de vista, uma atitude, filosofia ou opinião para (e também por) um público. E esse papel encerra uma certa agudeza, pois não pode ser desempenhado sem a consciência de se ser alguém cuja função é levantar publicamente questões embaraçosas, confrontar ortodoxias e dogmas (mais do que produzi-los); isto é, alguém que não pode ser facilmente cooptado por governos ou corporações, e cuja raison d'être é representar todas as pessoas e todos os problemas que são sistematicamente esquecidos ou varridos para debaixo do tapete (SAID, 2005, p.26, grifo do autor).

Em suas colocações, Said (2005) expõe que importa mais o que o intelectual representa ao expor suas ideais e convicções, do que propriamente o modo como as articula ao público. Essa representação, por sua vez, está intrínseca a dois universos, o privado e o público, porque, por um lado, está permeada por origens, valores próprios, experiências particulares e, por outro lado, no modo como com as pessoas assimilam, discutem, se posicionam acerca do que é posto. Essa relação pode gerar complicações, segundo o autor.

Assim, Said (2005, p. 26) defende que “não existe algo como o intelectual privado, pois a partir do momento que suas palavras são escritas e publicadas, ingressamos no mundo público. Tampouco existe somente um intelectual público”. O autor sugere que o intelectual não deve atuar para que o público goste e o aprove, é preciso, ao contrário, “causar embaraço, ser do contra e até mesmo desagradável” (SAID, 2005, p.27).

Nessa visão, o intelectual deve expor com clareza suas convicções, representar um ponto de vista e articular representações ao público. Isso pode ocorrer por meio de livros, palestras, em salas de aula ou nos meios de comunicação. Said (2005) aponta que é na vida pública moderna que se pode compreender essa representatividade dos intelectuais, seja de pequeno ou grande movimento social, mas também no estilo de vida que carrega e desempenha socialmente. O autor discorre sobre a importância de uma representação independente do intelectual:

As representações do intelectual, suas articulações por uma causa ou idéia diante da sociedade, não têm como intenção básica fortalecer o ego ou exaltar uma posição social. Tampouco têm como principal objetivo servir a burocracias poderosas e patrões generosos. As representações intelectuais são a atividade em si, dependentes de um estado de consciência que é cética, comprometida e incansavelmente devotada à investigação racional e ao juízo moral; e isso expõe o indivíduo e coloca-o em risco. Saber como usar bem a

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língua e saber quando intervir por meio dela são duas características essenciais da ação intelectual (sic) (SAID, 2005, p. 33).

Nessa direção, sob a ótica do pensamento de Novaes (2006, p.12) o intelectual pode se desdobrar em outras atividades e funções, que não necessariamente deve ser “um homem de letras, o artista, o político, o historiador, o filósofo, o escultor, o sábio etc.., ou seja, sabe-se que nem todo homem de letras, nem todo artista, nem todo político etc. é intelectual”. O autor ressalta que isso não significa que estes não possam vir a ser um intelectual.

Nessa visão do autor, não existe o sujeito intelectual que atua em tempo integral como tal nem que seja totalmente intelectual. Para transformar-se em intelectual o ser deve possuir outras atividades acumuladas, “deixar de lado os saberes particulares para se dedicar ao trabalho da crítica e à luta pelos ideais universalizantes: razão, justiça, liberdade e verdade. Daí o intelectual se caracteriza pelo desvio de todo determinismo” (NOVAES, 2006, p. 13). Esta figura passa então a lidar com questões indeterminadas, segundo o autor.

Noutro aspecto, Chauí (2006, p.29) aponta um caminho que diferencia um intelectual de um ideólogo:

Com a noção de engajamento como tomada de posição no interior da luta de classes, como negação interna das formas de exploração e dominação vigentes em nome da emancipação ou da autonomia em todas as esferas da vida econômica, social, política e cultural, podemos diferenciar o intelectual e o ideólogo. Este inserido no mercado, fala a favor da ordem vigente, justificando-a e legitimando-a. Aquele fala contra.

Na linha de raciocínio apresentada por Bobbio (1997), os meios de comunicação não são vistos como ameaça ao trabalho dos intelectuais. O autor não acredita que possa desaparecer a categoria de intelectuais, como sustentam outros pensadores. Também não deixam de ser intelectuais porque passam de um universo para outro. Ao contrário, argumenta que “o principal meio do poder ideológico é a palavra, ou melhor, a expressão de ideais por meio da palavra, e com a palavra, agora e sempre mais, a imagem” (BOBBIO, 1997, p.12). Isso se deve à característica de uma sociedade pluralista, onde aumentaram os meios de manifestar e expandir ideias, de difundir as produções intelectuais.

Para o pensador, não se pode incorrer ao risco de generalizar quando se fala sobre os intelectuais. “Seja qual for o modo em que venham a ser definidas a natureza e a função do intelectual [...] não é possível alcançar uma definição restritiva o suficiente para tornar plausível um juízo de absolvição ou de condenação global” (BOBBIO, 1997, p.9). Para o

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autor, os intelectuais são transformistas. Bobbio (1997) expõe o que ele considera ser assertivas definitivas ao que é comumente dito sobre os intelectuais:

Os intelectuais dever ser desaprovados porque são sempre „contra‟. Mas isso é dito pelos poderosos do dia. Não, os intelectuais dever ser execrados porque são conformistas. Mas isso é dito pelos que pretendem se tornar os poderosos do futuro. Falam demais, são grilos falantes, prontos a responder a todas as perguntas de modo a fazer aparecer seu nome nos jornais ou, pior, a serem chamados para participar de um debate televisivo. Não, dizem os que não querem se comprometer demais com as questões difíceis [...] São os „cães de guarda‟ do poder constituído (BOBBIO, 1997, p.10).

Para Bobbio (1997) essas assertivas são juízos atribuídos à natureza do intelectual e sua função na sociedade. Antes, porém, o autor sugere que sejam observadas as situações do momento ou casos particulares. Para o autor, em alguns estudos sobre o declínio dos intelectuais existe um distanciamento histórico, incorre em erros de origem histórica e acabam por generalizar sobre o que se diz do fim dos intelectuais. De acordo com essa visão, os intelectuais sempre existiram nas sociedades, porque ao lado do poder econômico e do poder político, existia o poder ideológico “sobre as mentes pela produção e transmissão de ideias, de símbolos, de visões de mundo, de ensinamentos práticos, mediante o uso da palavra” (BOBBIO, 1997, p. 11).

Nesse sentido, semelhante à Bobbio (1997), Said (2005) também reflete sobre a atuação desse sujeito intelectual no mundo massificado, influenciado pelos meios de comunicação e chama a atenção para a difícil tarefa de não alinhar às corporações. O autor pondera nesse aspecto, ao afirma que “os intelectuais pertencem ao seu tempo” e que está sujeito a ser “arrebanhado” pela mídia. Nesse cenário, torna-se difícil exercer sua tarefa ao se ver em situação de oposição entre a grande massa e o indivíduo. Ainda assim, o intelectual deve primar pelo senso crítico, recusar receitas fáceis e ideias prontas que vão de encontro aos dominantes. Deve movimentar-se para contestar não apenas de “modo passivo”, mas em público (SAID, 2005, p.34-36).

Said (2005) não ignora que sujeitos ou grupos intelectuais possam atuar de forma alinhada com instituições, grupos de comunicação, governo ou corporações e deste modo adquirem poder, status, autoridade. Ao que foi posto em discussão acima, de que o sujeito se anula na medida em que aceita as condições dessas instituições para legitimar as práticas, Said (2005) chama a atenção para o cuidado em não generalizar. O autor não coloca a função do

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intelectual em situações opostas: ou é intelectual puro ou contaminado. Ao contrário, assim sustenta:

Acusar todos os intelectuais de vendidos só porque ganham a vida trabalhando numa universidade ou num jornal é uma acusação grosseira e, afinal, sem sentido. Seria indiscriminadamente cínico afirmar que o mundo é tão corrupto que, em última análise, todos sucumbem ao dinheiro. Por outro lado, não é muito menos sério considerar a pessoa do intelectual um modelo perfeito, uma espécie de cavaleiro reluzente tão puro e tão nobre a ponto de desviar qualquer suspeita de interesse material (SAID, 2005, p.74).

Assim também, Said (2005) afirma que a ameaça ao trabalho do intelectual não está no universo acadêmico, nas práticas jornalísticas, nas editoras, canais de TV ou outras instituições. Está, porém, no que ele chamou de profissionalismo do trabalho intelectual, algo que se faz para ganhar a vida, com horário para entrar e sair, preso ao relógio e ao “que é considerado um comportamento apropriado, profissional – não entornar o caldo, não sair dos paradigmas ou limites aceitos, tornando-se, assim, comercializável e, acima de tudo, apresentável e, portanto, não controverso, apolítico e „objetivo‟” (SAID, 2005, p. 78).

O autor expõe que há pressões que desafiam a força de vontade do sujeito intelectual, como a especialização, tendo em vista que “mata os prazeres do arrebatamento e da descoberta, ambos irredutivelmente presentes na índole do intelectual” (SAID, 2005, p.81). Essa condição, segundo o autor, deixa o público habituado a aceitar tudo que os especialistas dizem. A outra pressão a qual o trabalho do intelectual está sujeito é a expertise. “Para ser um especialista, você tem de ser credenciado pelas autoridades competentes; elas ensinam a falar a linguagem correta, a citar as autoridades certas, a sujeitar-se ao território correto” (SAID, 2005, p.82). A terceira pressão apontada pelo autor se refere à “tendência inevitável para o poder e a autoridade entre seus adeptos, para as exigências e prerrogativas do poder e para se tornar diretamente empregado por ele” (SAID, 2005, p.83).

Também Rouanet (2006, p. 76-77) expõe sobre as mudanças que passam pela atividade do intelectual. O autor argumenta que houve transformações nas condições que sustentavam o prestígio dos intelectuais, na sua relação com a democracia e na crescente profissionalização do seu trabalho. “Estão surgindo profissionais „especialistas do saber teórico‟ (...) demógrafos que nunca ouviram falar em Rousseau, cientistas políticas que nunca leram Proust”. O autor aponta ainda o desenvolvimento rápido da cultura de massa como razão dos dilemas sob a atuação dos intelectuais. A cultura de massa é fechada em si e “julga já possuir todo o saber de que necessita, e não está disposta a ouvir vozes críticas que venham

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perturbar sua boa consciência”. Esse cenário, na visão do autor, tem favorecido a uma crise dos universais e, consequentemente, a um possível silêncio dos intelectuais.

Nesse contexto, Bobbio (1997) argumenta que aumentou o número daqueles que vivem de ideais em razão do surgimento da imprensa e as facilidades de difusão por ela proporcionadas. Diante dessa realidade destacada no universo do sujeito intelectual perante a essas pressões ao exercício de suas funções genuínas, Said (2005, p. 86), por sua vez, vê como sendo este o desafio a ser enfrentado pelo intelectual da atualidade: o dilema para o “intelectual é tentar lidar com as restrições do profissionalismo moderno, como tenho discutido, sem fingir que elas não existem ou negando sua influência, mas representando um conjunto diferente de valores e prerrogativas”.

O autor convida a refletir sobre a quem se dirige a atuação do intelectual, visto que não há como ignorar a autoridade e o poder e a relação entre os mesmos. Esse sujeito se posta como um contestador ou como adulador dos dominantes? Age com criticidade ou a espera de premiações? Esse é um desafio, conforme o indica, ao afirmar que a característica mais difícil de “ser um intelectual é representar o que se professa por meio do trabalho e de intervenções, se se enrijecer numa instituição ou tornar-se uma espécie de autônomo agindo a mando de um sistema ou método” (SAID, 2005, p.120).

Conhecer a si próprio de modo a analisar e criticar seu próprio campo, reconhecer o poder dos intelectuais, suas estruturas, seus mecanismos de reprodução também são papeis atribuídos ao intelectual. E, por esta razão, esses agentes ficam sob o dilema de exercer seu poder crítico e ao mesmo tempo denunciar essa crítica como sendo um poder (WOLFF, 2006). Esse dilema paira sobre a categoria na medida em que o intelectual precisa ser ouvido e por isso busca o espaço público ou o próprio campo midiático e, ao mesmo tempo, é denunciador desse espaço, do cenário midiático, “desse mesmo poder que ele exerce, muito embora afirme atacá-lo. Ele não pode consumir-se em criticar o poder dos intelectuais sem tornar vã sua própria crítica intelectual” (WOLFF, 2006, p. 65).

Rouanet (2006, p. 82) aponta três dimensões diferentes para esses dilemas enfrentados pelos intelectuais:

Sua neurose se explica por sua condição de figura estruturalmente dividida (...): ele é dividido em seu estatuto, porque ao mesmo tempo está inserido na divisão social do trabalho e paira acima dela; dividido em sua própria sociedade, porque é ao mesmo tempo burguês e não-burguês, beneficiário de um sistema social injusto e defensor de uma ordem social que visa à eliminação de todos os privilegiados; e dividido no plano internacional, pois

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tem uma dupla cidadania, a que exerce em seu país de origem e a que exerce participante virtual de uma sociedade civil que ainda não existe – a mundial.

O autor acredita que é preciso que os intelectuais aceitem suas limitações, para então desenvolver um papel importante no caminho de universalização. Estes desafios e dilemas também alcançam as relações que caracterizam a figura do intelectual no Brasil, conforme exposto a seguir.