2.2 O reprodutivismo ideológico, das relações sociais e de produção
2.2.2 O reprodutivismo nas escolas como forma de manutenção do poder da classe
O AIE escolar, como já explicitado neste texto, é uma das bases para a sustentação da reprodução do modo de produção capitalista, com suas relações sociais e de produção. Althusser confirma essa afirmação ao escrever:
Acreditamos portanto poder apresentar a Tese seguinte, com todos os riscos que isso comporta. Afirmamos que o aparelho ideológico de Estado que assumiu a posição dominante nas formações capitalistas maduras, após uma violenta luta de classe política e ideológica contra o aparelho ideológico do Estado dominante, é o aparelho ideológico escolar. (ALTHUSSER, 1985, p. 77, grifo no original).
A teoria reprodutivista possui, então, relação direta com o AIE escolar; ela se relaciona com a realidade concreta da classe trabalhadora, sendo possível, então, essa mesma relação com os trabalhadores em Educação. Nesse sentido, os estudantes e os trabalhadores que atuam na escola, como os professores, por exemplo, recebem e transmitem, como algo natural, a ideologia do modo de produção vigente. Contudo, Marx e Engels afirmam:
Até o presente os homens sempre fizeram falsas representações sobre si mesmos, sobre o que são ou deveriam ser. Organizaram suas relações em função de representações que faziam de Deus, do homem normal etc. Os produtos de sua cabeça acabaram por se impor à sua própria cabeça. Eles, os criadores, renderam-se às suas próprias criações. Libertemo-los, pois, das quimeras, das ideias, dos dogmas, dos seres imaginários, sob o jugo dos quais definham. Revoltemo-nos os homens a substituir estas fantasias por pensamentos que correspondam à essência do homem, diz um, a comportar- se criticamente para com elas, diz outro; a expurgá-las do cérebro, diz um terceiro – e a realidade existente cairá por terra. (MARX; ENGELS, 1996, p. 17).
Os teóricos referem-se, então, à ideologia dominante, destacando a possibilidade de derrotá-la por meio da ação do ser humano. O AIE escolar, reforçamos, reprodutor dessa realidade invertida, apresenta as possibilidades de rompimento com o status quo predominante, que é o burguês.
Como se tem ressaltado neste texto, há, na escola, uma reprodução ideológica das relações do modo de produção capitalista. As formações docente e, consequentemente, discente são fundamentadas nesse sistema, garantindo a permanência da ideologia então dominante como verdadeira realidade concreta. Althusser (1985) corrobora essa afirmação, ao comentar que a “escola ensina o know-how, mas sob formas que assegurem a submissão à ideologia dominante ou o domínio de sua prática”. Ainda de acordo com Althusser, a escola
se encarrega das crianças de todas as classes sociais desde o Maternal, e desde o Maternal ela lhes inculca, durante anos, precisamente durante aqueles em que a criança é mais “vulnerável”, espremida entre o aparelho de Estado familiar e o aparelho de Estado escolar, os saberes contidos na ideologia dominante (o francês, o cálculo, a história natural, as ciências, a literatura), ou simplesmente a ideologia dominante em estado puro (moral, educação cívica, filosofia). (ALTHUSSER, 1985, p. 79).
Percebe-se, assim, a ação do Estado na condução da educação, com o objetivo de manter a estrutura vigente, que se constitui, com o modo de produção capitalista, pelo processo de reprodução no AIE escolar. A esse respeito, Franco (1988, p. 55) afirma: "Concretamente a escola desempenha um papel preponderante no sentido de conservação da estrutura social vigente. Ainda que como foi assinalado, seu papel não se restrinja a isso”.
Os professores reproduzem, então, a ideologia dominante a seus alunos, atendendo aos anseios do Estado e, evidentemente, da classe dominante, pois esta está no comando não apenas da infraestrutura, mas também da superestrutura, ambas fundamentais na garantia da reprodução ideológica e de todo o modo de produção. Ainda a esse respeito, é importante
destacar o que Althusser (1999) afirma: que infraestrutura e superestrutura se completam. O autor observa, também:
Pode-se dizer, imediatamente, sem correr qualquer risco de erro, que os patamares da superestrutura não são determinantes em última instância, mas
determinados pela eficácia da base; e se chegam a ser determinantes à sua
maneira (ainda não definida), isso acontece pelo fato de serem determinados
pela base. (ALTHUSSER, 1999, p. 80, grifo no original).
Isso faz com que os alunos, possivelmente, de acordo com a realidade concreta de sua época, sigam determinados, dentro de uma sociedade já determinada – ressalta-se, aqui, que as características sócio-históricas de cada época também interferem na realidade concreta de toda sociedade – pelo modo de produção capitalista e pela ideologia de submissão da classe explorada em relação à classe exploradora. Contudo, essa submissão poderá ser reavaliada e subvertida, também com base na realidade sócio histórica. É importante lembrar, ainda, que, à medida que esse determinismo, consequente das relações sociais e históricas, ocorre, o Estado garante a apropriação da mais-valia por parte dos capitalistas.
Os professores, enquanto alunos, desde sua infância, são submetidos às reproduções ideológica e social realizadas pelos AIE religiosos, familiares, entre outros. Quando chegam, então, à escola, essas reproduções são fortalecidas por seus professores – primeiramente, da educação básica, e, posteriormente, da educação superior. Isso fica claro quando Althusser menciona que:
Nenhum aparelho ideológico do estado dispõe durante tantos anos da audiência obrigatória (e por menos que isso signifique, gratuita...), 5 a 6 dias num total de 7, numa média de 8 horas por dia, da totalidade das crianças da formação social capitalista. (ALTHUSSER, 1985, p. 80).
Os professores são trabalhadores, mesmo sendo improdutivos do ponto de vista capitalista, sem contar que os professores da rede pública, não gerando mais-valia, estão inseridos nas relações de produção como explorados e sujeitos às determinações dos interesses da classe dominante. Ademais, de acordo com o reprodutivismo, os professores pouco podem fazer, concretamente, mesmo com muito boa vontade, para modificar essa realidade (ALTHUSSER, 1985). Assim Althusser se refere aos professores em sua prática docente:
Peço desculpas aos professores que, em condições assustadoras, tentam voltar contra a ideologia, contra o sistema e contra práticas que os aprisionam, as poucas armas que podem encontrar na história e no saber que “ensinam”. São uma espécie de heróis. Mas eles são raros, e muitos (a maioria) não têm nem um princípio de suspeita do “trabalho” que o sistema (que os ultrapassa e esmaga) os obriga a fazer, ou, o que é pior, põem todo seu empenho e engenhosidade em fazê-lo de acordo com a última orientação (os famosos métodos novos). (ALTHUSSER, 1985, p. 80-81).
No modo de produção capitalista, então, ressalta-se, os professores exercem papel fundamental na reprodução das relações de produção, uma vez que, com eles, as condições materiais passam a não ser as únicas que garantem esse processo. Ou seja, a escola, no capitalismo, diferentemente do que ocorre em outros modos de produção, como o escravista e o feudal, por exemplo, garante a reprodução fora da produção (ALTHUSSER, 1999). Isso
poderá influenciar os professores a agirem, com seus alunos, como se estivessem lidando com trabalhadores nas fábricas, que, de acordo com a ideologia dominante, devem ser submissos, obedecendo ao patrão e/ou ao gerente. No caso da escola, o discente deve obediência ao docente e, claro, ao sistema.
Dessa maneira, pode-se notar que a realidade concreta escolar é um reflexo, uma reprodução ideológica, do mundo do trabalho, que o jovem estudante já vivencia ou irá vivenciar em breve, pois a escola básica pública tem, como um de seus focos, construir novos agentes que atenderão aos capitalistas. Sendo assim, os jovens precisam se formar com a visão de que, no mundo do trabalho, é necessário atender aos desejos e mandos do patrão; o AIE escolar está, portanto, a serviço dessa formação. Esclarecendo essa realidade concreta, Althusser afirma que os professores
questionam tão pouco que contribuem, pelo seu devotamento mesmo, para manter e alimentar esta representação ideológica da escola. Que faz da Escola hoje tão “natural” e indispensável, e benfazeja a nossos contemporâneos como a Igreja era “natural”, indispensável e generosa para nossos ancestrais de alguns séculos atrás. (ALTHUSSER, 1985, p. 81). Em resumo, então, as escolas tornam-se um importante AIE, reprodutoras da ideologia dominante e do modo de produção vigente. Essas instituições contribuem, decisivamente, para que a classe dominante continue exercendo seu poder e para que a classe dominada continue em seu lugar, sem se rebelar, garantindo a estrutura organizacional do Estado e de toda a sociedade. O AIE escolar tornou-se, assim, o mais importante reprodutor do sistema capitalista, à medida que reproduz o agente da multiplicação dos bens materiais e o agente da
reprodução da ideologia dominante. Dessa maneira, o fortalecimento do capitalismo torna-se, cada vez mais, uma possibilidade e, sendo assim, uma garantia da manutenção do modelo de sociedade ligado a esse modo de produção.