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Requisito subjetivo

No documento A Execução Penal à Luz do Método APAC (páginas 142-149)

Dos Deveres e dos Direitos

4.1 Faltas disciplinares

5.1.2 Requisito subjetivo

O requisito subjetivo se traduz no mérito, que é um dos elementos fun-damentais do Método APAC, representando

o conjunto de todas as tarefas exercidas pelo recuperando, bem como as advertências, elogios, saídas, etc., constantes de sua pasta prontuário. Referencial da vida prisional. Será sempre pelo méri-to que ele irá prosperar. A sociedade e ele próprio estarão prote-gidos (OTTOBONI, 2001),

e é sempre avaliado minuciosamente, com base em dados e informações concre-tas, nos incidentes de progressão, nunca se contentando a avaliação com um mero atestado carcerário.

Nesse ponto, uma digressão deve ser feita, para se registrar uma respei-tosa crítica ao “Mutirão Carcerário”, promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no ano de 2010, pois sua proposta não foi correcional, com o encaminhamentos das questões para solução perante os diversos juízos naturais;

tratou-se, isso sim, de um movimento para, indiscriminadamente, conceder aos condenados todos os benefícios abstratamente previstos na legislação.

Exemplificando com um caso concreto de Itaúna: em sede de mutirão carcerário, foi concedido livramento condicional a um condenado que cumpria pena por crime de roubo circunstanciado; ao retornarem os autos para a Co-marca, o Juízo da Execução, acatando a pedido do Ministério Público, estes sim órgãos da execução penal - art. 61, incisos II e III, da LEP (BRASIL, 1984) -, revogou a decisão e restabeleceu o regime semiaberto, sob o fundamento de que, havendo no curso da execução incidente de regressão recente, não tendo o condenado gozado de saída temporária e não estando ele exercendo trabalho externo, não se encontrava apto a ingressar no regime de meio livre.

A Defesa do condenado aviou habeas corpus, obtendo a concessão da ordem, de modo que ele retornou para o regime de meio livre, no qual per-maneceu somente duas semanas, ao final das quais foi preso em flagrante delito - pelo cometimento de novo crime de roubo circunstanciado - e, posterior-mente, condenado.

Conclusão: a sociedade foi novamente agredida com o comportamento criminoso, e o prejuízo do condenado foi enorme, pois, com a segunda conde-nação, passou ele a ser reincidente, e o livramento condicional foi revogado, o que exigirá, no futuro, o cumprimento integral da pena anterior e de mais meta-de da segunda conmeta-denação.

Bem por isso que o art. 5º do diploma legal mencionado estabelece o princípio da individualização da pena, norma constitucional do Direito brasileiro - art. 5º, inciso XLVI, 1ª parte da Constituição Federal (BRASIL, 1988) -, pois, mediante prudente observação, chegou-se à conclusão de que a execução penal não pode ser igual para todos os presos e, por isso, não deveria admitir movi-mentos coletivos (“mutirões”).

No Centro de Reintegração Social de Itaúna, é de praxe na execução que os pedidos de progressão sejam feitos trinta dias antes do cumprimento do re-quisito objetivo, justamente para que, quando a fração se verificar, o incidente já tenha sido processado.

Além disso, dentro da doutrina APAC, que tem como um de seus ele-mentos fundamentais o mérito, imprescindível, na avaliação do requisito

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10É imperiosa a necessidade de uma Comissão Técnica de Classificação composta de profissionais ligados à metodologia, seja para classificar o recuperando quanto à necessidade de receber tratamento individualiza-do, seja para recomendar, quando possível e necessário, os exames exigidos para a progressão de regimes e, inclusive, cessação de periculosidade e insanidade mental (FRATERNIDADE, 2007).

tivo, o pronunciamento da Comissão Técnica de Classificação (CTC)10, para sub-sidiar a decisão do incidente de progressão com elementos de ordem jurídica, psicológica e social.

Na Comarca de Itaúna, o pronunciamento da CTC sempre foi conside-rado elemento de convicção indispensável para o juízo de convicção nos pedi-dos de progressão, com a particularidade de que, já havendo nos autos tal ma-nifestação e em se tratando de execução retilínea (sem registros de faltas), tal for-malidade, nas progressões seguintes, passaria a ser prescindível.

5.2 Regressão

Conforme já dito, a regressão, concomitantemente com a progressão, constitui a coluna vertebral da execução penal, como em uma via de duas mãos:

ao mesmo tempo em que se assegura ao condenado a esperança da progressão, sentimento inerente a todo ser humano e vital para sobrevivência no cárcere, por outro a disciplina imposta exige do condenado sua sujeição à pena, sob sanção de regressão do regime prisional, que ocorrerá quando houver a prática de fato definido como crime doloso durante a execução (art. 118, inciso I), quando for reconhecida qualquer das faltas graves catalogadas pelo art. 50 (art. 118, inciso I), em incidente próprio (art. 118, § 2º), quando sobrevier na execução conde-nação por crime anterior, cujo somatório das penas venha a tornar incabível o atual regime (art. 118, inciso II), e, finalmente, especificamente no regime aber-to, quando o condenado frustrar os fins da execução ou não, podendo pagar a multa (art. 118, § 1º).

6 Recompensas

Se, por um lado, no exercício da disciplina, a direção do presídio pode impor sanções (art. 53, incisos I a IV), por outro, pode ela também premiar o condenado de bom comportamento, que manifestou colaboração com a disci-plina e dedicação ao trabalho (art. 55).

Preconizam as regras mínimas da ONU que nos estabelecimentos pri-sionais deverá ser instituído um sistema de privilégios, adaptados aos diferentes

grupos de presos e aos diversos métodos de tratamento, a fim de incentivar a boa conduta, desenvolver o sentido de responsabilidade e promover o interesse e a cooperação do condenado no que se refere ao seu tratamento (nº 71).

Mais uma vez, o mecanismo de prêmios e punições da execução, sempre em busca de manter a disciplina e promover a ressocialização do condenado, emerge com nitidez.

As recompensas estão descritas no art. 56 e são: elogio (inciso I) e con-cessão de regalias (inciso II), como, por exemplo, uma hora a mais de recreação, televisão, um telefone extra por semana. A regulamentação da matéria fica a cargo de legislação local (parágrafo único).

No Estado de Minas Gerais, as recompensas se encontram descritas na LEP Estadual - Lei 11.404 (MINAS GERAIS, 1994), no art. 156, e são: elogio (inciso I) e proposta na concessão de benefício, com a prioridade na escolha de trabalho, recebimento de parte do pecúlio disponível, participação em atividade cultural, esportiva ou recreativa (inciso II).

7 Conclusão

A pioneira iniciativa do Tribunal de Justiça mineiro de oferecer aos ope-radores do direito uma oportunidade de releitura da Lei de Execução Penal, à luz dos elementos da doutrina APAC, sem dúvida alavancará a instalação das APACs nas diversas regiões do Estado, de grande extensão territorial e muitas realidades, processo que se iniciou com o projeto Novos Rumos11 e que sempre contou com apoio do Poder Executivo.

Sem dúvida que o sucesso do projeto depende não só da construção dos centros de reintegração social, mas principalmente da expansão e compreensão da metodologia APAC, pois, conforme registrado na entrada das dependências

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11Após anos à frente de iniciativas próprias - através da divulgação, criação e instalação do Método APAC em Minas Gerais - bem como o Programa de Atenção Integral ao Paciente Judiciário (PAI-PJ) no âmbito da Capital Mineira, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, motivado pela Resolução 96 do CNJ e pela Lei 12.102/2009, que criaram o Projeto Começar de Novo e o Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Siste-ma Carcerário e do SisteSiste-ma de Execução de Medidas Socioeducativas, incorporou todas suas iniciativas para seu novo Projeto “Novos Rumos”. O Projeto Novos Rumos é gerenciador de todas as ações já indicadas e tem como principal objetivo fortalecer a humanização no cumprimento das penas privativas de liberdade e das medidas de internação, buscando a individualização e alcance da finalidade das medidas socioeducativas, penas alternativas e medidas de segurança, com vista à expansão das ações para todo o Estado de Minas Gerais com enfoque especial na reinserção social da pessoa em conflito com a Lei (TRIBUNAL, 2011).

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12Realizado em Itaúna/MG, no período de 15 a 18 de julho de 2004.

do regime fechado do Centro de Reintegração Social de Itaúna: “As coisas só têm significado quando nós as conhecemos (Mario Ottoboni)”.

O maior desafio da execução penal, maior ainda que o da ressocializa-ção, ainda persiste, pois a população prisional, que hoje ultrapassa os quatrocen-tos e cinquenta mil encarcerados, continua crescendo em progressão geométri-ca. O drama é descrito por Carnelutti (1999):

O encarcerado, saído do cárcere, crê não ser mais encarcerado;

mas as pessoas, não. Para as pessoas, ele é sempre encarcerado;

quando muito se diz ex-encarcerado; nesta fórmula está a cruel-dade do engano. A cruelcruel-dade está no pensar que, se foi, deve con-tinuar a ser. A sociedade fixa cada um de nós ao passado. O rei, ainda quando, segundo o direito, não é mais rei, sempre é rei; e o devedor, ainda que tenha pago seu débito, é sempre devedor. Este roubou; condenaram-no por isto; cumpriu sua pena, porém...

Mas não nos esqueçamos: “todo homem é maior que sua culpa” (tema do V Congresso Nacional das APACs12, retratado com a tela de Rembrandt “A volta do filho pródigo”, pintada a mão, num vaso de cerâmica, pelo recuperan-do da APAC de Itaúna, Bruno Campolina).

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* Subsecretário de Administração Prisional - Secretaria de Estado de Defesa Social. Docente - Centro Universitário UNI-BH. Doutorando em Ciências Jurídicas e Sociais - Universidad del Museo Social Argentino. Especialista em Direito Público - UNIGRANRIO/PRAETORIUM. Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - Contagem.

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