Capítulo III: O CONTROLE DIFUSO DE CONSTITUCIONALIDADE NO
1.1 Origem na Constituição Federal de 1891
2.1.2 Supremo Tribunal Federal
2.1.2.3 Requisitos específicos de admissibilidade
obsta a sua concessão pelo STF.
700Se a parte for pessoa jurídica, o benefício da supracitada
lei fica condicionado à comprovação da impossibilidade econômica para litigar em juízo.
701702
O preparo é igualmente dispensado nos pedidos e recursos formulados ou interpostos
pelo Procurador-Geral da República e em ações penais públicas, mas não em ações penais
privadas. Pode ser ou não dispensado, a depender do que dispuserem os tratados ratificados
pelo Brasil, nas causas em que forem partes os Estados estrangeiros e os organismos
internacionais.
7032.1.2.3 Requisitos específicos de admissibilidade
2.1.2.3.1 Esgotamento das vias recursais ordinárias
A fim de que seja cabível o recurso extraordinário exige-se o esgotamento das
instâncias inferiores antes que se alcance o STF, ou seja, é pressuposto para a admissibilidade
que seja incabível qualquer recurso ordinário da decisão recorrida,
704com exceção do próprio
recurso extraordinário, dos embargos de declaração e do recurso especial.
705Portanto, se
cabíveis, por exemplo, embargos infringentes da decisão recorrida é preciso atentar para a sua
interposição.
2.1.2.3.2 Prequestionamento
O prequestionamento é a exigência de que a decisão recorrida tenha efetivamente
decidido a questão constitucional a fim de que se contemple a caracterização de uma das
hipóteses de cabimento do art. 102, III, da Constituição Federal.
Nesse sentido, apenas se considera observada a exigência de prequestionamento
700 Cf. BRASIL. STF. Embargos de Declaração no Recurso Extraordinário nº 231.705/Rio Grande do Norte.
Segunda Turma. Julgado em 29.09.2009, pág. 737.
701 Cf. BRASIL. STF. Embargos de Declaração no Agravo de Instrumento nº 716.294-7/Minas Gerais. Segunda
Turma. Julgado em 31.03.2009, pág. 1304.
702 Veja-se sobre o tema os artigos 61, § 1º, I e 62 do RISTF. 703 Cf. RISTF, artigos 61, § 1º, I e II e § 2º.
704 Teor da Súmula nº 281 do STF.
705 Cf. BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao Código de Processo Civil. Vol. V. 15ª ed. Rio de
quando houver pronunciamento explícito sobre as questões objeto do recurso,
706isto é,
quando tiver lugar decisão sobre a questão constitucional,
707 708ainda que a decisão recorrida
não mencione expressamente o dispositivo constitucional.
709Se, apesar de provocado, o órgão a quo não enfrentar a matéria constitucional, o STF
entende que basta para a caracterização do prequestionamento a interposição de embargos de
declaração sobre a questão constitucional.
710Nesse caso os embargos devem indicar
expressamente os dispositivos da Constituição Federal tidos por violados.
711Essa compreensão de que são suficientes os embargos declaratórios surgiu diante do
fato de que a exigência de violação direta à Constituição mostrou-se uma demasia e
discrepante da ordem jurídica, uma vez que, mesmo indireta, violação ocorre. Assim, como
forma de amenizar esse obstáculo drástico de acesso ao STF, passou-se a admitir como
prequestionada a matéria mesmo nas hipóteses em que o órgão de origem não tenha emitido
entendimento a respeito, não a tenha enfrentado.
712Portanto, nessa hipótese, ainda que o
órgão a quo recuse-se a decidir o tema, tem-se por atendida a exigência.
713Ao inverso, se não
forem opostos os embargos sobre o ponto omisso, torna-se inadmissível o recurso
extraordinário.
7142.1.2.3.3 Repercussão geral
Deve-se iniciar o exame salientando que “... o instituto da repercussão geral tem por
único propósito restringir o cabimento do extraordinário”.
715Ele está voltado à perspectiva de
reduzir o número excessivo de processos sujeitos a julgamento pelo STF, o que se agravou
706 Cf. BRASIL. STF. Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 519.954-8/ São Paulo. Segunda Turma.
Julgado em 20.09.2005, pág. 1764.
707 Cf. ASSIS, Araken de. Manual dos recursos. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008, pág. 702-703. 708 A SJP nº 282 do STF parecia exigir apenas que fosse ventilada a questão constitucional. O STF tem, além
dessa exigência, compreendido que a questão deve ser decidida expressamente. Ademais, o STF tem como incabível o pricípio iura novit curia no recurso extraordinário, ver BRASIL. STF. Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 506.323-1/ Paraná. Segunda Turma. Julgado em 02.06.2009, pág. 1098-1100.
709 Cf. BRASIL. STF. Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 507.825-8/ Santa Catarina. Segunda
Turma. Julgado em 14.10.2008, pág. 1374.
710 Pode-se inferir isso de BRASIL. STF. Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 735.676-3/ Distrito
Federal. Primeira Turma. Julgado em 15.09.2009, pág. 2211.
711 Cf. BRASIL. STF. Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 434.628-3/ Santa Catarina. Primeira
Turma. Julgado em 07.04.2009, pág. 627.
712 Cf. BRASIL. STF. Recurso Extraordinário nº 486.748-6/Piauí. Primeira Turma. Julgado em: 17.02.2009, pág.
1501-1502.
713 Cf. BRASIL. STF. Recurso Extraordinário nº 191.454-8/São Paulo. Primeira Turma. Julgado em 08.06.1999,
pág. 830-831.
714 Teor da Súmula nº 356 do STF.
particularmente após a Constituição Federal de 1988, mesmo diante da criação do STJ,
tribunal de superposição para julgar as questões federais, que, indiretamente, teria por função
possibilitar a limitação do STF ao julgamento das questões constitucionais.
716A fim de examinar-se o tema faz-se necessário expor o art. 102, § 3º, da Constituição
Federal, in verbis:
No recurso extraordinário o recorrente deverá demonstrar a repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso, nos termos
da lei, a fim de que o Tribunal examine a admissão do recurso, somente
podendo recusá-lo pela manifestação de dois terços de seus membros (grifo nosso).
A repercussão geral deve ser apresentada em preliminar formal e fundamentada a fim
de que seja cabível o recurso.
717Quanto à admissibilidade, o órgão a quo deve verificar a
existência formal da preliminar, ao passo que somente ao STF incumbe apreciar o fundamento
aduzido para a mesma.
718A exigência constitucional de disciplina legal da matéria foi suprida pela Lei nº
11.418/06, a qual inseriu os arts. 543-A e 543-B no Código de Processo Civil. Diante disso,
decidiu o STF que as normas inseridas no Código de Processo possuem caráter geral. Por
isso, o Tribunal considera as regras aplicáveis a todos os recursos extraordinários, inclusive
em matéria criminal, desde o dia 3 de maio de 2007, data da publicação da Emenda
Regimental nº 21, de 30 de abril de 2007.
719Assim, ao recorrente incumbe argüir questões relevantes sob o ponto de vista
econômico, político, social ou jurídico, que ultrapassem os interesses subjetivos da causa.
720Essa análise admite a participação de terceiros, de ofício ou a requerimento, subscrita por
procurador habilitado.
721A caracterização da repercussão dá-se de forma presumida em face
de decisão que contrariar súmula ou jurisprudência dominante do STF,
722mas, mesmo nessa
716 Cf. e para mais informações ASSIS, Araken de. Manual dos recursos. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2008, pág. 706-715. Para mais ver, ainda, BARBOSA MOREIRA, José Carlos. Comentários ao
Código de Processo Civil. Vol. V. 15ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2009, pág. 616-618.
717 Cf. RISTF, art. 327 e Código de Processo Civil, art. 543-A, § 2º.
718 Cf. BRASIL. STF. Questão de Ordem em Agravo de Instrumento nº 664.567-2/Rio Grande do Sul. Tribunal
Pleno. Julgado em 18.06.2007, pág. 777.
719 Cf. BRASIL. STF. Questão de Ordem em Agravo de Instrumento nº 664.567-2/Rio Grande do Sul. Tribunal
Pleno. Julgado em 18.06.2007, pág. 777-779. Essa concepção é passível de crítica, especialmente em face do fato de que a alteração não ocorreu na Lei 8.038/90 que instituiu regras gerais para o recurso extraordinário. Nesse sentido, como a redação do art. 102, § 3º exige expressamente lei, somente o recurso na matéria processual civil deveria estar sujeito ao requisito de admissibilidade da repercussão geral.
720 Cf. art. 543-A, § 1º do Código de Processo Civil e RISTF, art. 322, parágrafo único. 721 Cf. art. 543-A, § 6º e RISTF, art. 323, § 2º.
hipótese, exige-se a apresentação de preliminar formal e fundamentada.
723O procedimento para a verificação da repercussão está desenvolvido em seus
pormenores no Regimento Interno do STF,
724devendo-se destacar a irrecorribilidade da
decisão sobre sua existência, a qual vale para todos os recursos sobre questão idêntica.
725Entre as atribuições do Presidente e do Relator no STF estão a de julgar inadmissíveis
os recursos pela inexistência de preliminar formal de repercussão geral ou que carecerem de
repercussão geral com base na jurisprudência assentada no Tribunal, exceto se o entendimento
estiver em procedimento de revisão ou se já tiver sido alterado.
726Incumbe-lhes, ainda,
comunicar os tribunais ou turmas de uniformização de jurisprudência sobre questão que possa
se reproduzir em múltiplos feitos, bem como pedir-lhes informações e selecionar um ou mais
recursos representativos, determinando a devolução dos demais à origem.
727A partir disso, nas hipóteses de recursos múltiplos com idêntica questão, se o STF
negar a existência de repercussão geral, todos os recursos serão inadmitidos, ao passo que se
for afirmada a repercussão e julgado o mérito, então os recursos sobrestados serão apreciados
pelos Tribunais, Turmas de Uniformização ou Turmas Recursais que os declararão
prejudicados ou retratar-se-ão com base na orientação firmada pelo STF. Se mesmo assim for
mantida decisão contrária à compreensão do STF, o recurso admitido possibilitará,
liminarmente, sua cassação ou reforma.
728Desse modo, deverá o órgão a quo remeter ao STF
os agravos em que não se retratar.
729Semelhante disciplina recebe o recurso extraordinário oriundo dos Juizados Especiais
Federais, instituídos pela Lei 10.259/01, pois se admite medida liminar para o sobrestamento
dos recursos idênticos na origem, bem como a manifestação de terceiro interessado na
questão. Após, as Turmas Recursais ou de Uniformização poderão exercer juízo de retratação
nos processos, ou, se os recursos sustentarem compreensão contrária à do STF, julgá-los
prejudicados.
730723 Cf. BRASIL. STF. Agravo Regimental no Agravo de Instrumento nº 716.597-5/São Paulo. Segunda Turma.
Julgado em 14.10.2008, pág. 4543.
724 Cf. RISTF, arts. 322 a 329. 725 Cf. RISTF, art. 326.
726 Cf. RISTF, art. 327, caput e § 1º.
727 Cf. RISTF, art. 328, caput e parágrafo único.
728 Cf. artigo 543-B, § 1º a 4º do Código de Processo Civil. 729 Cf. RISTF, art. 328-A, § 2º.