2 A A RBITRAGEM NO D IREITO B RASILEIRO
3.3 Requisitos Essenciais
Por ser o ponto culminante do procedimento adotado, a lei arbitral exige que sejam cumpridas algumas formalidades na elaboração da sentença arbitral, sob pena de ser considerada nula, ou inexistente, se tal não ocorrer.
Vale destacar que o legislador procurou aproximar tanto quanto possível a estrutura da sentença arbitral à da sentença estatal, seguindo, quase que por completo, o modelo do art. 458 do Código de Processo Civil.
Observando o disposto no art. 26 da Lei 9.307/96, a sentença arbitral divide-se em três partes bastante definidas, as quais figuram como requisitos de fundo obrigatórios a sua existência e validade: o relatório, a fundamentação e a disposição.
A ausência de qualquer um deles viciará a decisão.
No relatório, o árbitro fará um resumo das alegações das partes e das questões que haverão de ser dirimidas na fundamentação. Neste documento as partes têm que estar identificadas, assim como seus estados civis e suas profissões.
Após estes dados de identificação, deverá vir uma síntese da controvérsia posta em juízo, das argumentações das partes e dos atos que ocorreram durante a tramitação do procedimento.
Para Carmona:
Cumpre o relatório dupla função: tecnicamente, serve para identificar o litígio que está sendo dirimido, estabelecendo os parâmetros e as balizas da sentença; psicologicamente, mostra aos contendores que suas razões foram levadas em conta e devidamente analisadas para chegar-se a uma decisão. 27
A exigência de que a sentença contenha um relatório do processo está ligada à necessidade de que o árbitro ou tribunal arbitral, ao sentenciar, conheça bem o processo que estará sendo decidido.
O segundo requisito obrigatório da decisão arbitral diz respeito à fundamentação. Esta é a parte da sentença em que o juiz apresentará suas razões de decidir, os motivos que o levaram a proferir decisão do teor da que está sendo prolatada. Daí ser também chamada de motivação.
Na fundamentação, o árbitro exporá as questões de fato e de direito sobre que irá recair o julgamento, justificando assim as circunstâncias que o levaram a tomar esta ou aquela decisão.
Analisando as questões postas pelas partes, o juiz arbitral escolherá uma tese e registrará se o julgamento será com base na lei, nos usos ou costumes considerados aplicados, nas regras internacionais de comércio, ou se fundada na equidade, circunstância esta que exigirá a menção expressa do árbitro ou colegiado ao redigir a decisão final.
27 CARMONA, Carlos Alberto, op. cit. p.294.
Será também na fundamentação que o árbitro avaliará o procedimento das partes e analisará livremente as provas produzidas durante toda a instrução - assim como se dá na jurisdição estatal - atendendo aos fatos e circunstâncias constantes dos autos, ainda que não alegados pelas partes; mas deverá indicar os motivos lhe formaram o convencimento. 28
A fundamentação da sentença arbitral, além de permitir às partes de verem apreciadas pelo julgador as razões por elas expendidas, permitir ao próprio órgão julgador e ao vencido o controle crítico da sentença, revelando eventuais falhas, lapsos ou enganos.
O terceiro requisito estrutural da sentença arbitral diz respeito ao dispositivo, onde os árbitros resolverão as questões que lhe foram submetidas e estabelecerão o prazo para cumprimento da decisão, se for o caso. 29
O dispositivo é assim a parte da sentença em que se encontra o conteúdo decisório arbitral de mérito, juntamente com o acolhimento ou rejeição do pedido, onde o árbitro apresentará a sua conclusão sobre a lide posta em julgamento.
Vale destacar que a parte dispositiva da sentença deverá está condizente com a pretensão deduzida em juízo privado, de modo que a sentença arbitral não poderá outorgar aos litigantes mais do que foi pedido, e muito menos coisa diversa da que foi pleiteada, devendo sempre o julgador analisar se o pleito formulado está incluído entre as matérias de que pode tratar.
28 Art. 131, do Código de Processo Civil.
29 Art. 26, III, da Lei 9.307/96.
O quarto e último requisito, tido como obrigatório pela lei arbitral, que integra a estrutura da sentença, diz respeito à data e ao lugar em que a mesma foi proferida.
Do mesmo modo que faz parte dos elementos obrigatórios do compromisso arbitral 30, o lugar onde está sendo proferida a sentença compõe sua estrutura, tendo em vista que este requisito foi adotado pelo legislador para aferir se o laudo arbitral é nacional ou estrangeiro (art. 34, parágrafo único da Lei).
Se proferida em território brasileiro, a sentença arbitral será nacional; se fora dele, ela será estrangeira, necessitando, pois, para ter eficácia no Brasil, de homologação do perante o Supremo Tribunal Federal.
Na hipótese de omissão deste último requisito, a sentença poderá, a qualquer tempo, ser corrigida e complementada, haja vista o caráter eminentemente material do mesmo.
Além desses requisitos, cumpre observar outros que são elencados na própria Lei arbitral, sendo os mesmos de fundamental importância para se aferir a validade da sentença arbitral.
Dessa forma, será nula a sentença proferida oralmente, tendo em vista que o art. 24 da Lei exige que a decisão do árbitro ou dos árbitros seja expressa em documento escrito.
Tal exigência é bastante razoável, pois poderá ocorrer a necessidade de execução da sentença arbitral pelo Poder Judiciário, o que dificultaria, senão impossibilitaria, seu trabalho, se os laudos arbitrais fossem proferidos oralmente.
30 Art. 10, IV, da lei 9.307/96.
A sentença deverá também estar subscrita pelo árbitro ou árbitros que a prolataram. Quanto a esta exigência 31, sendo o árbitro investido da condição de Juiz sob todos os aspectos do cargo, ainda que sem a plenitude do exercício da jurisdição pela forma clássica, mas tendo poder decisório, este sim em toda sua acepção, ele não pode se furtar a seu dever-poder de julgar, porquanto o exercício da incumbência o assemelha a um agente público com todas as obrigações destes, mutatis mutandis.
Dessa forma, o árbitro, negando-se a firmar a sentença arbitral estaria prevaricando e a certificação de que fala a Lei de Arbitragem, a ser feita pelo Presidente do Tribunal, tal qual exige a parte final do dispositivo citado, seja ela a quem quer que o legislador estivesse pretendendo indicar como destinatário, certamente não poderá excluir o Ministério Público desse rol de informados, para a adoção das medidas que o descumprimento de uma obrigação "funcional" assumida voluntariamente com todos os seus encargos possa trazer ao infrator, que em última análise está negando a prestação jurisdicional.32
Espera-se, por fim, que a sentença seja clara e precisa, não se admitindo decisões arbitrais ininteligível, ambígua, incerta ou dúbia.