6.2 ANÁLISE DOS DADOS
6.2.2 Requisitos de qualidade da ABCIC
Para a análise dos dados descritos nesse tópico são utilizadas como base as normas do Selo de Excelência cedido pela Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto (ABCIC), tratando-se o mesmo de um programa de qualidade específico para as indústrias de pré-fabricados de concreto, sendo válido também para plantas instaladas em canteiros de obra. Tais documentos possuem como referência as normas de qualidade internacionais e as normas técnicas da ABNT, assim como o programa de certificação do PCI (Instituto do Concreto Pré-
fabricado/Protendido). Em resumo, o programa avalia a gestão de qualidade e o efetivo atendimento da ABNT NBR 9062:2006.
As normas do programa de qualidade da ABCIC se dividem em: critérios de avaliação para plantas de produção (N.01), requisitos para avaliação de plantas de produção (N.02) e critérios para emissão do atestado e uso do selo (N.03). Nesse trabalho é empregada a segunda norma, responsável por definir os critérios padronizados para avaliação de plantas de produção na obtenção do Selo Excelência ABCIC.
O programa de qualidade da ABCIC apresenta três níveis de cerificação e oito requisitos específicos, os quais são apresentados na Tabela 23. Como é possível constatar, os requisitos 7 e 8 não são exigidos pelo Nível I de certificação, enquanto que o requisito 8 faz parte apenas do Nível III. Nesse caso, tais critérios não serão abordados para esta parte do panorama construído neste trabalho, uma vez que consistem em itens de alto desempenho, tais como pesquisa de satisfação, assistência técnica, identificação e controle de impactos ambientais e treinamento em gestão ambiental.
Tabela 23 - Requisitos de qualidade: Selo de Excelência ABCIC
Requisitos Nível I Nível II Nível III
1. Materiais × × × 2. Produção × × × 3. Estoque e montagem × × × 4. Especificações e projetos × × × 5. Gestão e apoio × × × 6. Segurança e saúde × × × 7. Atendimento ao cliente × × 8. Gestão ambiental × Fonte: Autor, 2017.
Neste trabalho, os requisitos de 1 a 6 são discutidos de maneira geral, sem a atribuição de pontuações para as indústrias visitadas, uma vez que a totalidade dos critérios pertencentes ao Nível I é praticamente ignorada pela maioria dos fabricantes nacionais de lajes alveolares. Atualmente, no Brasil, existem 33 empresas de pré- fabricados que possuem o Selo de Excelência da ABCIC. No estado do Paraná, há três empresas que possuem o selo, sendo que destas, apenas duas produzem lajes
alveolares protendidas, estando as mesmas localizadas na Região Metropolitana de Curitiba (CERTIFICAÇÃO, 2017).
6.2.2.1 Materiais
Em suma, os materiais recebidos nas plantas de produção das Indústrias A, B, C e D, são verificados em relação ao seu aspecto geral, quantidade, validade e demais características, garantindo que os mesmos atendam às especificações de compra estabelecidas. Por sua vez, o cimento recebido na planta de produção pelas indústrias visitadas é rastreado somente pela Indústria B, de modo a garantir a correlação entre o lote recebido e o concreto produzido (ABCIC, 2017, p. 2).
O aço de armadura ativa atende às exigências das normas ABNT NBR 7482:2008 e ABNT NBR 7483:2004 em todas as indústrias, sendo mantidos os relatórios dos fornecedores. Obedecendo ao Selo, o estoque do aço é realizado em local afastado do solo e de demais fontes de umidade, de forma a garantir a não ocorrência de oxidações excessivas ou materiais aderidos (ABCIC, 2017, p. 2).
Quanto aos aditivos recebidos pelas empresas A, B, C e D, os únicos laudos de laboratório e registros documentados mantidos são os inerentes aos catálogos dos fabricantes. Por se tratarem de materiais envasados, tais produtos deveriam ser mantidos em lugar fechado e sem a possibilidade de vazamento, o que não é observado na Indústria C.
6.2.2.2 Produção
Todas as indústrias visitadas possuem central de concreto e os traços utilizados são formalmente definidos, estabelecendo informações tais como volume ou peso de agregados graúdo e miúdo, identificação genérica de granulometria, peso de cimento e sua especificação e quantidade de água e aditivos. Entretanto, a umidade da areia, conforme exigido pelo Nível I do Selo de Excelência (ABCIC, 2017, p. 4), não é verificada duas vezes ao dia por meio de ensaio conforme método de Chapman.
Os aditivos empregados no concreto são próprios para a fabricação de estruturas pré-fabricadas protendidas, não havendo, portanto, cloretos de cálcio ou quaisquer outros halogenetos em sua composição (ABNT NBR 9062, 2006, p. 30). Na
totalidade das indústrias visitadas, o transporte do concreto, após a produção, é realizado diretamente da central de concreto para as fôrmas, por meio de caçambas e carrinhos que não permitem segregação (ABCIC, 2017, p. 5).
Apesar de nenhuma das indústrias visitadas apresentar tanque de cura ou câmara úmida, apenas a Indústria D não realiza ensaio de resistência à compressão para todo concreto produzido na planta, sendo este um requisito obrigatório para a qualidade da mesma, uma vez que comprova as especificações do projeto para o produto final, especialmente no que diz respeito à desprotensão. A liberação da protensão nunca ocorre antes de o concreto atingir 21 MPa de resistência à compressão, no entanto, para a Indústria D, esta aferição só é realizada a cada três meses.
Os ensaios de tronco de cone, para a verificação da consistência (NBR NM 67:1998), e de espalhamento, para concreto auto-adensável (NBR 15823:2012), são realizados somente pela Indústria B. Em contrapartida, não ocorre antes de todo lançamento, conforme exigido pelo Nível I do Selo de Excelência (ABCIC, 2017, p. 5). De acordo com a ABCIC (2017, p. 6), as fôrmas para concreto protendido devem ser estáveis e conferir aos elementos pré-fabricados uma superfície uniforme. Tal requisito foi observado em todas as indústrias, uma vez que as fôrmas estavam lisas e isentas de obstáculos, saliências, reentrâncias ou ondulações acentuadas.
6.2.2.3 Estoque e montagem
Todas as indústrias nas quais foram realizadas visitas utilizam tenazes (gatos) para o transporte das lajes alveolares, sendo que o armazenamento das mesmas ocorre em lugar aberto e sem o tamponamento dos alvéolos, isto é, possibilitando com que a água da chuva fique armazenada no interior dos mesmos. Somente as indústrias A e D fazem uso de calços entre as peças. No entanto, o desalinhamento e inclinação das pilhas são recorrentes não só nelas como também na armazenagem das demais empresas observadas (ABNT NBR 14861, 2011, p. 34).
De acordo com a ABCIC (2017, p. 9), dependendo do uso do elemento este pode necessitar de um acabamento final para regularização de sua superfície aparente, caso esta apresente pequenas imperfeições que não comprometam a resistência e durabilidade da peça, como fissuras acentuadas ou falhas de grandes dimensões. No caso das lajes alveolares protendidas fabricadas pelas Indústrias A,
B, C e D, a superfície inferior (aparente) apresenta um bom acabamento, dispensando inclusive o uso de revestimentos após a montagem.
6.2.2.4 Especificações e projeto
As empresas visitadas apresentam especificações gerais para a produção e montagem, entretanto, os projetos para lajes alveolares protendidas raramente são analisados visando melhorias, uma vez que, com a exceção da Indústria D, as demais empresas tiveram suas curvas de utilização e ábacos de pré-dimensionamento elaborados por profissionais externos, não estando seus técnicos a par da concepção inicial.
6.2.2.5 Gestão e apoio
Quanto aos registros regulamentares, todas as indústrias apresentam registro dos funcionários da planta de produção e da obra, assim como o registro do técnico responsável no CREA e alvará de funcionamento. O incentivo a metas estratégicas e operacionais, tal como a ações de melhorias são requisitos que não foram observados durante as visitas, mas que não são comuns em empresas do porte das mesmas. Treinamentos são práticas recorrentes naquelas empresas dotadas de equipe de segurança (Indústrias B e D), mas os mesmos não incluem treinamento em processos produtivos.
6.2.2.6 Segurança e saúde
O Selo de Excelência (ABCIC, 2017, p. 13), exige que todas as atividades inerentes à produção de pré-fabricados possuam como EPI’s permanentes o capacete e o calçado adequado, sendo que, para a execução de fôrma e armação são eventualmente necessários luvas e óculos e, para o uso de serra circular ou policorte, luvas e protetor auditivo. Dentre as empresas visitadas, apenas as indústrias B e D possuem técnico em segurança do trabalho, havendo uso adequado dos EPI’s. A Indústria B, apesar de incentivar o uso de uniforme e capacete, não possui equipe de segurança do trabalho e a Indústria A, por sua vez, vem recebendo consultoria do SESI para a implantação de tal departamento na empresa.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho teve como principal objetivo investigar os critérios de dimensionamento e produção da laje alveolar protendida, avaliando sua disseminação frente às revisões normativas e ao crescente desenvolvimento da pré-fabricação no Brasil, utilizando para tal a elaboração de um roteiro de dimensionamento e de um panorama regional da sua produção. Dessa forma, compreender e realizar o dimensionamento da laje alveolar permitiu uma visão ampla do seu comportamento e de quais são os materiais e parâmetros utilizados no projeto realizado pelas indústrias locais.
O panorama de produção foi possível graças a visitas técnicas, as quais tiveram o importante papel de evidenciar requisitos e parâmetros seguidos por cada indústria reconhecida das regiões Sudoeste e Centro-Sul do Paraná, dependendo dos limites impostos pelas fôrmas ou pelos equipamentos disponíveis, assim como o dimensionamento das mesmas, de acordo com prescrições normativas. Contudo, infelizmente, não foi possível acompanhar o processo de produção em nenhuma das empresas, devido à situação econômica vivida pelo setor da construção civil, atualmente.
O roteiro de dimensionamento elaborado neste trabalho teve como principal objetivo expor os critérios normativos nacionais para o projeto de lajes alveolares protendidas, principalmente aqueles apresentados pela revisão da norma ABNT NBR 14861:2011 e amparados pela ABNT NBR 6118:2014. Entretanto, vale ressaltar que as recomendações da norma de laje alveolar protendida prevalecem sobre aquelas pertencentes ao projeto de estruturas de concreto, como é o caso da verificação das tensões de tração no ato da liberação da protensão. Na situação citada, como comentado durante o roteiro de dimensionamento, os parâmetros estabelecidos pelas normas divergem entre si.
Durante a elaboração dos passos do dimensionamento, foi verificado que as perdas de protensão são extremamente importantes para o projeto das lajes alveolares, uma vez que dependem não somente dos materiais como também das configurações geométricas dos elementos e das pistas de protensão, assim como do processo de cura do concreto. O perímetro em contato com o ar, por exemplo, varia para cada fase de produção/montagem, impactando diretamente sobre os coeficientes de retração e fluência do concreto.
As verificações para força cortante, fendilhamento longitudinal das nervuras, esforço cortante nas chavetas e punção são exclusivas da ABNT NBR 14861:2011, não havendo recomendações semelhantes nas demais normas utilizadas para a elaboração do roteiro, uma vez que as verificações para o esforço cortante trazidas pela ABNT NBR 6118:2014, por exemplo, não trazem parâmetros para o caso de lajes com alvéolos preenchidos. Tais verificações são baseadas nas prescrições da norma europeia EN 1168:2011 e representam uma grande fonte de informação para projetistas brasileiros.
Apesar de encontrar-se massivamente baseado nas normas da ABNT, este trabalho possui uma grande contribuição das obras de Carvalho (2012) e Cholfe (2013), apesar de ambas serem anteriores às atualizações normativas em questão. O equacionamento descrito no roteiro de dimensionamento possui considerações para concretos com classes de resistência inferiores e superiores a C50, apesar de serem apresentados parâmetros adimensionais somente para o primeiro caso (Apêndice C). Isso se deve ao fato de que os valores de altura e largura do diagrama retangular de distribuição das tensões no concreto variam para as classes superiores a C50, devendo o projetista utilizar as equações presentes no tópico 5.1 para o cálculo de área necessária de armadura ativa nesses casos.
Por fim, conhecer com exatidão os parâmetros de dimensionamento e avaliar o impacto da produção sobre os mesmos, permitiu com que a construção da segunda parte do trabalho fosse norteada de maneira eficaz. As visitas técnicas foram bem aproveitadas quando da elaboração do roteiro, podendo assim o acadêmico direcionar as perguntas e observar os vieses que a indústria possuía em relação à fabricação da laje alveolar protendida. Entender o dimensionamento significou fomentar o senso crítico e levantar adaptações e melhorias.
Por diversas vezes, neste trabalho, as palavras pré-moldado e pré-fabricado foram utilizadas como sinônimos ao se referir à laje alveolar protendida, visto que a ABNT NBR 14861 (2011, p. 2), apresenta-a como uma peça de concreto produzida industrialmente sob rigorosas condições de controle de qualidade, conforme prescrições estabelecidas pela Seção 11 do documento. No entanto, essas nomenclaturas dependem diretamente das características da planta de produção e do método empregado. Como definido pela ABNT 9062:2006, elementos pré-fabricados são pré-moldados executados de maneira industrial e que atendem a uma série de requisitos mínimos.
Em resumo, um elemento só pode ser considerado pré-fabricado desde que obedeça a rigorosos critérios de qualidade e desempenho, o que não é observado em grande parte das indústrias brasileiras de pré-fabricados. Conforme comentado anteriormente, são poucas as indústrias de pré-fabricados certificadas como de excelência pela ABCIC se comparado ao número de empresas que produzem elementos pré-moldados em concreto em todo o estado do Paraná.
O panorama regional aqui construído, além de desmistificar a ideia de que a laje alveolar protendida trata-se, estritamente, de um elemento pré-fabricado, deixa claro que uma representativa parte das empresas produtoras de painéis alveolares ainda encontra-se desenvolvendo seus métodos de produção e que os requisitos propostos pelas normas da ABNT e amplificados pelo Selo de Excelência da ABCIC encontram-se distantes de serem cumpridos em sua totalidade.
A maioria das obras atendidas pelos fabricantes das regiões Sudoeste e Centro-Sul do Paraná trata-se de barracões e edifícios residenciais com, no máximo, 10 pavimentos. Entretanto, durante os meses reservados às visitas não fora possível acompanhar o processo de produção nessas empresas devido, principalmente, à baixa demanda repassada pelo mercado em decorrência da crise econômica que afeta o setor da construção civil no país nos últimos anos.
Como também constatado por meio da elaboração do roteiro de dimensionamento, o projeto de lajes alveolares protendidas nas regiões Sudoeste e Centro-Sul do Paraná se encontram carentes de conhecimento técnico. Por intermédio das visitas, foi possível entrevistar o engenheiro responsável pela elaboração das tabelas e ábacos de pré-dimensionamento da Indústria A e o mesmo afirmou não ter acesso à norma ABNT NBR 14861:2011, tendo empregando um módulo do software TQS e realizado as verificações por meio de publicações online e bibliografias internacionais. É possível que isso se repita com todos os outros projetistas e que as considerações de projeto possam estar defasadas.
Como sugestões para trabalhos futuros, é possível realizar o aperfeiçoamento do roteiro de dimensionamento para casos de lajes alveolares protendidas utilizadas em balanço ou com continuidade. Da mesma forma, pode ser interessante estudar o impacto do uso de concretos com reduzida resistência à compressão para a execução do capeamento estrutural, visto que o mesmo, na maioria dos casos, é o responsável por resistir às resultantes de compressão devido à posição da linha neutra. Outro estudo relevante que pode ser colocado em prática é aquele envolvendo a análise do
impacto estrutural e econômico da não utilização de armadura superior para combater as tensões de tração excessivas, preferindo-se adotar como solução o aumento da espessura do painel.
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