LISTA DE SIGLAS, SIMBOLOS E ABREVIATURAS
6. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES 217 1 Processo de Reciclagem
3.1 Cadeia Produtiva do Gesso e da Geração de Resíduos
3.1.3 Resíduos do Beneficiamento de Componentes de Gesso
Os componentes de gesso utilizados na construção civil são peças pré-moldadas destinadas ao revestimento de forro – placas de gesso para forro; à vedação vertical - blocos de gesso; a divisórias internas de edificações - chapas de gesso acartonado; e aos elementos decorativos - sancas, domos, nichos e consoles (CINCOTTO; AGOPYAN; FLORINDO, 1988a; PERES; BENACHOUR; SANTOS, 2001).
O processo produtivo das peças pré-moldadas de gesso (Figura 3.8) – que pode ser manual ou mecanizado, depende do tipo de componente produzido e do porte da empresa - é constituído das etapas de preparação da pasta, conformação e secagem (PERES; BENACHOUR; SANTOS, 2001).
Figura 3.8 – Fluxograma do processo produtivo de componentes de gesso.
A preparação da pasta é realizada por meio da mistura de gesso de fundição e água, podendo conter aditivos e adições necessários ao desempenho do produto desejado; a conformação utiliza fôrmas especiais, que proporcionam ao produto formas e dimensões específicas, e a secagem pode ser realizada ao ar livre, em ambientes protegidos ou em estufas especiais (PERES; BENACHOUR; SANTOS, 2001).
No Brasil, o setor de pré-moldados de gesso consome 61% do gesso produzido (RIBEIRO, 2006), sendo 14,3% destinados à produção de chapas acartonadas (MARCONDES,
2007) e 46,7%, ao setor de componentes, como placas, blocos e elementos decorativos, formado, em sua maioria, por pequenas empresas (BRASIL, 2009).
A origem e o volume de resíduos gerados durante a produção dos componentes dependem do processo de fabricação utilizado: artesanal, semiartesanal ou automatizado. Podem ocorrer, no processo produtivo quebras acidentais nas etapas de desforma e transportes (AGUIAR, 2007).
Inexistem dados oficiais que estimem os volumes gerados na fabricação de componentes. Entretanto, a geração do resíduo existe, conforme comentado e ilustrado nos diferentes processos de fabricação adotados no Pólo Gesseiro do Araripe, apresentados a seguir.
a) Resíduos da Produção de Placas e Blocos
A produção de placas de gesso para forro e de blocos de gesso para vedação vertical pode utilizar processos artesanais, semiartesanais ou automatizados. No contexto mundial os processos de fabricação utilizados são automatizados (Figura 3.9) (PERES; BENACHOUR; SANTOS, 2001).
Figura 3.9 – Processo automatizado de fabricação de placas de gesso para forro.
Nesse processo automatizado de produção de placas de gesso para forro, é baixíssima a utilização de mão-de-obra; a produção é completamente limpa, e a geração de resíduos, quase inexistente, devido ao controle de qualidade do processo (GPM - GYPSUM PANELS MACHINERY, 2009). A geração ocasional de resíduos é devida às peças que não foram aprovadas no controle de qualidade ou foram danificadas durante a etapa de acondicionamento e expedição.
No Brasil, na região do Pólo Gesseiro do Araripe, o porte das empresas, a maturidade gerencial e os aspectos sócioeconômicos levam à formação de agrupamentos de pequenas e médias empresas que, sem acesso à tecnologia automatizada, utilizam o processo de fabricação artesanal1.
Entretanto, as fábricas de componentes associadas às usinas de calcinação adotam processos semiautomatizados de fabricação para a produção de blocos de gesso (PERES; BENACHOUR; SANTOS, 2001), conforme ilustrado nas Figuras 3.10 a 3.13.
A Figura 3.10 expõe a fase inicial do processo semiautomatizado de fabricação do bloco de gesso, com a etapa de preparação da pasta e conformação do bloco. Inicialmente a pasta é dosada por um misturador automatizado (Figura 3.10a), acoplado ao alimentador que verte a pasta no molde (Figura 3.10b). O operário executa a remoção manual do material acumulado no alimentador e sobre os moldes (Figura 3.11b).
O processo continua com o tempo de espera para o endurecimento da pasta (Figura 3.12a). Em seguida o conjunto de blocos é suspenso por um sistema hidráulico (Figura 3.12b). Após a conformação requerida, os blocos de gesso são içados (Figura 3.12c e 3.12d) e transportados (Figura 3.12 e) para a área de secagem (Figura 3.12f), no interior da própria fábrica.
1 Informações obtidas do representante do SINDUSGESSO, em visita da autora ao Pólo Gesseiro do Araripe, em
Figura 3.10 – Processo semiautomatizado de fabricação para produção de blocos de gesso no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) misturador automático; (b) alimentador de pasta.
Fonte: Visita à região em 2007.
Figura 3.11 – Processo semiautomatizado de fabricação para produção de blocos de gesso no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) remoção de pasta do alimentador e (b) remoção do excesso de pasta
dos moldes.
Figura 3.12 – Processo semiautomatizado de fabricação para produção de blocos de gesso no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) endurecimento da pasta; (b) extração dos blocos; (c), (d) e (e) transporte dos blocos para a área de secagem (f) secagem dos blocos ao ar, no interior da fábrica.
No processo semiautomatizado de fabricação dos blocos de gesso, segundo informações dos produtores2, a geração de resíduos é constituída por eventuais não conformidades das peças e por quebras durante o transporte. O excesso de pasta gerado no processo (Figura 3.11b), é utilizado para a produção de tijolos de gesso consumidos no mercado local (Figura 3.13).
Figura 3.13 – Processo semiautomatizado de fabricação para produção de blocos de gesso no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) geração de resíduos; (b) reciclagem – tijolos de gesso.
Fonte: Visita à região em 2007.
A Figura 3.13a mostra a geração de excesso de pasta durante a produção dos componentes por meio do processo semiautomatizado de fabricação. Essa pasta é aproveitada para a fabricação dos tijolos de gesso (Figura 3.13b), gerando um componente sem controle de qualidade, que é aplicado em habitações populares na região. Entretanto, ainda podem ser observados resíduos no piso da fábrica; não há estimativa do seu volume e sua destinação é incerta. Todavia, a utilização do processo semiautomatizado de fabricação no Pólo Gesseiro do Araripe é restrito a poucas empresas3.
A grande maioria das empresas, estimada em 300 unidades de produção (BRASIL, 2009), utiliza o processo de fabricação artesanal constituído pelas três etapas do processo produtivo de componentes (PERES; BENACHOUR; SANTOS, 2001), acrescidas da estocagem e da expedição, comentado e ilustrado nas Figuras 3.14 a 3.18.
2 Informações obtidas dos produtores de blocos de gesso que utilizam o processo semiautomatizado, durante visita da
autora ao Pólo Gesseiro do Araripe, em 2007.
3 Em visita ao Pólo Gesseiro, em 2007, só foi possível identificar duas fábricas utilizando o processo
Os materiais, gesso e água, são armazenados em baias, bags e tanques, localizados próximos às misturadoras (Figuras 3.14 e 3.15).
Figura 3.14 – Processo de fabricação artesanal para produção de placas e blocos de gesso no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) gesso armazenado em baias; (b) gesso armazenado em bags.
Fonte: Visita à região em 2007.
Figura 3.15 – Processo de fabricação artesanal, para produção de placas e blocos de gesso no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) materiais de mistura; (b) misturadora de pasta.
Fonte: Visita à região em 2007.
A dosagem do material é medida em volume, e o equipamento (Figura 3.15) destinado à produção da pasta é constituído por uma pá giratória e uma cuba de borracha, onde a pasta adquire a consistência necessária à moldagem dos componentes.
A área destinada à conformação dos componentes é formada por um conjunto de bancadas sobre as quais são dispostos os moldes (Figura 3.16a). A pasta preparada na etapa
anterior é vertida sobre a parte inferior do molde (Figura 3.16b) e confinada pela fixação da parte superior deste (Figura 3.16c). Ao atingir o estado de endurecimento, o componente, tendo adquirindo a conformidade desejada é retirado dos moldes (Figura 3.16d).
Figura 3.16 – Processo de fabricação artesanal de placas e blocos de gesso no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) disposição dos moldes; (b) recebimento da pasta; (c) colocação do molde superior;
(d) peça após a retirada parcial do molde.
Fonte: Visita à região em 2007.
Após a conformação das peças, os componentes são submetidos à secagem, em pátio aberto, com proteção superior (Figura 4.17a). A seguir, são encaminhados à estocagem (Figura 3.17b), ou enviados diretamente para a expedição (Figura 3.18).
Figura 3.17 – Processo de fabricação artesanal para produção de placas e blocos de gesso no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) secagem; (b) estocagem.
Fonte: Visita à região em 2007.
Durante a etapa de expedição, pode-se observar a ausência de embalagens específicas para os componentes, tanto no transporte das peças (Figura 3.18a) como no carregamento (Figura 3.18b).
Figura 3.18 – Processo de fabricação artesanal para produção de placas e blocos de gesso no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) transporte; (b) carregamento.
Fonte: Visita à região em 2007.
Em todas as etapas do processo de fabricação artesanal ocorre a geração de resíduos, inclusive pela produção de peças não conformes ou por quebras durante as diferentes etapas. A identificação de alguns desses resíduos é comentada e ilustrada nas Figuras 3.19 e 3.20.
O processo utilizado durante a preparação da pasta ocasiona próximo às misturadoras a perda do material na forma de grumos e na forma de pó, gerando os resíduos (Figura 3.19).
Figura 3.19 – Geração de resíduos no processo de fabricação artesanal de placas e blocos de gesso, no Pólo Gesseiro do Araripe, durante a etapa de preparação da pasta.
Fonte: Visita à região em 2007.
Na conformação das peças, o excesso de material é lançado sobre as paredes de alvenaria (Figura 3.20a) e se acumula na estrutura das bancadas (Figura 3.20b), gerando um resíduo composto por pasta de gesso hidratado. Também, é possível identificar volumes significativos de resíduos de gesso hidratado acumulado no interior da fábrica (Figuras 3.20c e 3.20d). Além disso, no pátio de secagem, um resíduo pulverulento (Figura 3.20e), provavelmente originado da varrição da fábrica e volumes considerados de resíduos de gesso hidratado distribuídos ao longo de toda a área (Figura 3.20f) foram observados durante a visita.
Segundo informações dos produtores locais 4,- “parte do resíduo gerado é destinada aos bota-foras e outra parte é destinada à produção de tijolos de gesso”. Não há estimativa do volume de resíduos gerados.
4 Informações obtidas dos produtores de placas e blocos de gesso, que utilizam o processo artesanal, durante visita da
Figura 3.20 – Geração de resíduos no processo de fabricação artesanal de placas e blocos de gesso, no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) e (b) área de conformação; (c) e (d) área interna da
fábrica e (e) e (f) área de secagem externa da fábrica.
Aguiar (2007) verificou que parte desses resíduos é depositada em áreas impróprias e ilegais (Figura 3.21b), o que também foi observado pela autora em visita à região em 2007 (Figura 3.21a). Isso mostra a necessidade urgente de estudos que viabilizem a reutilização e reciclagem desse material na própria região, visto que os impactos ambientais, como contaminação do solo e nível do lençol freático, são evidentes (AGUIAR, 2007).
Figura 3.21 – Resíduos de gesso depositados em áreas ilegais no Pólo Gesseiro do Araripe: (a) ao longo de estradas e (b) em encostas de mananciais de água.
Fonte: (a) Visita à região em 2007 e (b) Aguiar (2007).
b) Resíduos da Produção de Chapas de Gesso Acartonado
As placas de gesso acartonadas são componentes pré-moldados de gesso utilizadas como divisórias nas edificações e constituídos de uma mistura de gesso, água e aditivos, envolvida por duas lâminas de papel-cartão (PERES; BENACHOUR; SANTOS, 2001).
No Brasil, as chapas de gesso acartonado são produzidas por três empresas internacionais. A primeira fábrica foi instalada em 1972 na cidade de Petrolina-PE, distante 260 quilômetros do Pólo Gesseiro do Araripe (FARIA, 2008; MARCONDES, 2007).
Com o processo produtivo automatizado para a fabricação das chapas - etapas de preparo da mistura, conformação, secagem, acondicionamento e expedição (Figura 3.22), as fábricas apresentam grande capacidade de produção, com obtenção de produtos que atendem a padronização internacional (MARCONDES, 2007; PERES; BENACHOUR; SANTOS, 2001).
Figura 3.22 – Fluxograma do processo de fabricação de chapas de gesso acartonado.
Fonte: MARCONDES (2007).
A preparação da mistura da pasta de gesso é feita pela dosagem de gesso, água e aditivos, que são homogeneizados no misturador, e o resultado é lançado sobre uma lâmina de papel cartão. A seguir, é aplicada, na parte superior, outra lâmina de papel igual, e o componente é submetido a um sistema de calandras que dão a conformidade necessária à peça. As placas são cortadas e conduzidas ao compartimento de secagem, sendo acondicionadas e enviadas para a expedição (MARCONDES, 2007).
Os resíduos de gesso gerados no processo de fabricação das chapas são constituídos por gesso hidratado e papelão, que são reinseridos no processo produtivo, visto que as unidades de produção de chapas de gesso acartonado possuem, junto à planta de produção, um setor de calcinação da matéria-prima (JOHN; CINCOTTO, 2003).
O volume de resíduos gerado durante o processo de fabricação varia em função do local considerado. Nos Estados Unidos, o valor é da ordem de 3% a 5% (CAMPBELL, 2003). No Brasil, o volume estimado alcança o valor de 2,5% (MARCONDES, 2007).