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RESENHAS CR~TICAS

No documento Vista do v. 2 n. 1 (1989) (páginas 153-159)

Ferreira, ,Jose Ribeiro e Carlos Guimaraes, F i l o c t e t e s e m S o f o c l e s e e m H e i n e r M u l l e r . Coimbra, Faculdade de Letras, 1987,77p.

Embora o mito de Filoctetes, heroi grego do ciclo troiano, nao tenha sido muito di- fundido no passado, neste nosso s6culo parece estar ganhando cada vez mais espaco nos debates intelectuais e artlsticos.

Sendo o Filoctetes de S6focles o unico texto IiterArio que esta inteiro, (perde- ram-se os interessantes tratamentos que Esquilo e Eurfpides teriam dado ao mito), 6 sobre esse texto que algus dramaturgos vao debrucar-se e compor novas fabulae.

AndrB Gide (1869-1951) fez uma adaptacao teatral e Heiner Muller retomou vigorosa- mente o texto de Sofocles.

Por ocasiao da apresentacao da obra de Heiner Muller na Universidade de Coim- bra em 1987, organizou-se uma "sessao cultural em que Jos6 Ribeiro Ferreira, um dos tradutores do Filoctetes em Portugal e o professor Dr. Carlos Guimaraes do Instituto de Estudos Alemaes conferenciaram sobre os dois textos. O Conselho Diretivo da Fa- culdade de Letras da Universidade de Coimbra, dando continuidade a uma sBrie de pu- b l i c a ~ & ? ~ , publicou as duas conferencias no seu quarto numero da "Colecao de Estu- dos".

O texto "O Filoctetes de Sofocles" de Jose Ribeiro Ferreira primeiramente apresenta um resumo do mito de Filoctetes, dando uma minuciosa notfcia da iconogra- fia sobre o tema em ceramicas gregas. Seu passo seguinte 6 de, atraves dos comen- tadores antigos e parcos fragmentos, resumir os argumentos possfveis das pecas de Esquilo e de Eurfpides.

Ap6s esses elementos introdutorios passa 3 sua analise do texto de Sofocles, ressaltando a vantagem que S6focles tira por modificar alguns elementos presentes em ambos os textos antecedentes. Uma das modificacoes principais 6 a alteracao do coro de habitantes de Lemnos para um coro de marinheiros que acompanharam Ulisses e Neoptolemo na missao de resgatar, primeiro o arco e depois o homem Filoctetes. A in- tervencao de um deus ex rnachina no final teria a funcao de mostrar um Filoctetes que, apesar de maldizer os deuses por seus males, "desejava ardentemente acreditar que os deuses haviam determinado a sua partida para Troia" (p. 35). Mas o que Sofo- cles consegue com as modificacbes repousa "no contraste entre tres figuras, duas que se o p b m frontalmente, Filoctetes e Ulisses, e uma terceira, Neoptolemo, que A atrafda ora para a esfera de um, ora para esfera de outro. Da correlacao de forcas entre estas trt3s personagens nasce e se desenvolve a acao" (p. 16).

Em sua analise das personagens do drama, apresenta o Filoctetes como sendo uma figura heroica que se recusa a voltar ao combate; Ulisses, o opositor frontal "para quem tudo 6 relativo" (p. 19). trabalha para o interesse da c:oIoUvidade, embora use pa- ra isso a forca, a violhcia flslca e moral, e estA relacionado com figuras presentes nas Nuvens de Aristofanes, no G6rgias e na Republica de Platao. e nas Fenlcias de Eurlpides, e com personagens hlst6ricas citadas por Tucfdedes na Guerra d o Pelo-

poneso. Neoptblemo A o jovem que quer a gl6ria guerreira, mas A "inexperiente e in- fluenciavel" e nao distingue com clareza o bem do mal" (p. 24). Mas ao contatar Filocte tes percebe que a realidade A outra. Ao voltar abas, revelando a trama por Ulisses, re- jeita a sophia de Ulisses, transformandese no 'modelo isento de hybris, de respeito pelos outros, de verdade e fdelidade h palavra dada" (p. 28). Para o autor, NeoptGlemo A um "heroi mais condizente do que Filoctetes com o que se pensava ser o governante ideal da democracia' (p. 29).

Para o professor Jose Ribeiro Ferreira o texto de Sofocles apresenta uma "Criti- ca mais direta e contundente da guerra" (p. 31). A vinda de HAracles, como deus ex machina, determina a busca na mudanca de atitude de Filoctetes. "So uma voz acima de toda a suspeita - de cuja amizade, alias, Filoctetes falara jB por mais de uma vez (cf. vv. 801 -803, 1 131 -1 132, 1406)

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podia dissolver a descrenca e neutralizar a re- sistencia" (p,. 37). Conclui que "a tragAdia de Sbfocles, representada em 409, equacio- na problemas morais, sociais, educativos e veicula ideias cuja discussao estaria em voga na altura" (p. 38). O texto seria tambem um apelo h harmonia,

A

uniao e ao respei- to nas relacoes humanas, nos fins da Guerra do Peloponeso (p. 39).

O texto "O Philoktet de Heiner Muller" apresentado pelo prof. Dr. Carlos Gui- maraes, comeca por acentuar as diferencas basicas entre o texto de Heiner Muller e o de Sofocles: o final de Sofocles "reestabelecimento do equillbno" resulta na cura e na gloria dos guerreiros (p. 43); no texto de Heiner Muller, escrito entre 1958 e 1964, Filoc- tetes surpreendentemente 6 morto por Neoptblemo acentuando ainda mais o carater ardiloso e pragmatico de Ulisses.

Entretanto, mais que diferencas, o autor esta preocupado em apresentar "a a d e quacao" do "rico material mitologico e literario disponlvel

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foi no Filoctetes de Sbfe cles que Heiner MuNer encontrou o pr&texto (o hipotexto) do seu drama" (p. 44). Devi- do ao grande interesse de Heiner Muller em trabalhar com temas da antiguidade classi- ca, o'autor julga diflcil discenir o que A de Sofocles e o que A de Heiner Muller.

Para a sua analise do texto, Carlos Guimaraes afirma estar percorrendo o traba- lho de Manfred Kraus (Heiner Muller und die grieschische Tragodie. "Dargestellt am Beispiel des Philoktef', Poetica, 17. Band, 1985). Resumindo brevemente a peca de Heiner Muller, acentua as semelhancas entre ambas. Chama a atencao para a "a- propriacao por Muller de motivos (astucia) e metaforas da esfera de pesca, como va- riante da esfera da caca sofoclianos" (p. 48) e para o posslvel erro cometido por Heiner Muller que afirma Filoctetes ser originario de Melos e n8o de Malide como afirma a tra- dicao classica. Aponta, para a discussao, o texto de Manfred Kraus que justifica a

"hip6tese de Melos ser deliberadamente utilizada como alusao a uma clnica poliuca de opress~o'simbolizada no "dialogo de Melos" de Tucldides" (p. 49). Mas sustenta que talvez o erro se origine da traducao usada do texto de Sofocles: aquela de que dispbe, A a de Wilhem Kuchenmuller (Stuttgart, 1955), apresenta o erro no verso 725: "ninfas de Melos", no lugar de "ninfas de Malide" (p. 49).

Ressaila ainda outras diferencas: eliminacfio de personagens secundarias. vigia na flgura de mercador, HBracles. a aushcia do coro - consequbhtemente a alteracao

do desfecho e da concepcao da guerra. A aus6ncia tambAm do oraculo e de Heleno.

isenta o texto de Muller de preocupacbes com o sagrado, restando apenas o jogo dos seres humanos. 'Ulisses surge, do inlcio ate o final, como o motor da intriga (no duplo sentido da palavra)" (p. 50). Seu Neoptolemo "surge movido mais do que pela piedade, pela ambicao e pelo odio a Ulisses' (p. 51). Seu Filoctetes nutre um 6dio nao so a Ulis- ses mas extensivo a todos os gregos, "alarga-se a toda humanidade" (p. 51). Desta forma, "a constelacao das personagens em Sofocles, dominada pela figura positiva de Filoctetes e pela figura, por natureza tambAm positiva, de Neoptolemo (so temporaria- mente atraida para a esfera da influencia de Ulisses), cabendo a este papel negativo re- lativamente modesto, A assim radicalmente subvertida" (p. 52). O efeito conseguido com esse modeb triangular esta na esteira de Brecht em "Das Badener Lehrstuck von Einverstandnis" (Gesammelte Werke, Frankfurt am Main, 1967)." Da concentracao no jogo das tres figuras, assim entendido, resuita todo o resto: que o coro seja dispen- sado, que a accao seja dessacralizada; que o final n a o o possa ser senao aquele". (p.

54).

Para explicar a justaposicao de textos, o autor cita o proprio Heiner Muller em seu "Bildeschreiburg" (in Shakespeare Factory 1, Beriin, 1985): "o texto pr6prii e o texto-outro justapdem-se assim numa relacao de contiguidade nem sempre vislvel

a

vista desarmada mas que "a maquina de leitura" deve ser capaz de detectar: o texto A um palimsesto" (p.56).

O que entao seria Philoktet? Um libelo anti-imperialista contra a guerra, um ajuste de contas com "a tragAdia imanente do marxismo-leninismo", com o estalinisno, com a apologia do estalinismo7 Segundo o autor, o texto A uma "parabola sobre a

"prA-historia" da humanidade e sobre os seus vestlgios no tempo e no espaco do so- cialismo" (p. 63).

Como sbrie experimental, o texto Philoktet esta unido a dois outros textos de Heiner Muller: O Horacio (1968) e Mauser (1970), (recentemente reunidos em um es- petaculo ds titulo ERAS encenado em Sao Paulo pelo grupo "Teatro Pequeno da Coo- perativa Paulista de Teatro", no Teatro do SESC-PompAia, segundo semestre de 1988), e segundo o proprio Heiner Muller "sao a formulacao paradigmatica de experien- cias coletivas que podem ser reinterpretadas de um modo sempre novo" (p. 67), sem cair contudo na mera tentativa de at~allZa~a0, mas buscando sempre no texto o que ainda tem vigor para uma posslvel leitura.

Femando Brandi30 dos Santos (UWESP-FCL Campus de Araraquara)

WOLFF, F. Socrata Paris, PUF, 1985 (Phibsophies). 128 p.

O Socrate de Francis Wolff retoma e completa um kabalho anterior, publicado em portugues pela Brasiiiense. Acrescenta consideracbes muitlssimo interessantes sobre a doutrina a partir do paradoxo socratico, mergulha na profundidade do problema e procura encontrar o verdadeiro Socrates no emaranhado de tudo o que se escreveu sobre ele.

O livro (que apresenta ainda uma cronologia socratica e orientacbes e referen- cias bibiiograficas alem de um "Album de famflia", que contem indicacbes sobre as figu- ras e as escolas filosoficas relacionadas com Socrates) esta assim constituldo:

1. L'6nigme. L'AthAnien. La mission. L'universel. La mort;

2. EN MARGE DE SOCRATE: LE "SOCRATISME"

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L e "paradoxe socratique";

3. A LA RECHERCHE DU VRAI SOCRATE - Le "probl6me de Socrate".

1. O enigma (L'Anigme) focaliza o filosofo, a lenda, o mito, a discussao socratica, a personagem nos dialogos de Platao e nas obras apologAticas de Xenofonte, o misterio de eplgonos tao dessemelhantes como, por exemplo, Diogenes de Sinope e Aristipo de Cirene, o Socrates em si mesmo tao paradoxal, todo contradicao, tao feio quanto inteli- gente e sabio, nao parecendo mas sendo belo: de fato, encarnando a oposicao entre ser e parecer. Santo? Heroi? Simplesmente sabio? Mestre? Racionalista? "Amlstico"?

Revolucionario e ao mesmo tempo conservador e at6 mesmo reacionario? O Autor analisa cada uma das hipoteses e, ao faze-10, da-nos um retrato do homem.

N'O Ateniense (L'AthAnien), a definicao de Socrates ("cidadao ateniense, nascido em Atenas por volta de 470 a.C., morto em Atenas em 399 a.C.") e as raz6es pelas quais esse ateniense ate a raiz dos cabelos, que Francis Wolff chama o mais ateniense dos atenienses, nao arreda p6 da sua cidade a nao ser para cumprir as suas obrigacdes militares. O Autor focaliza a Atenas do V s6cul0, centro de cuitura aonde chegam e por onde passam todos os grandes pensadores ocidentais, cidade cuja sa- bedoria no entanto se volta essencialmente para a polltica: e explica o que significa pensar como ateniense e o modo pelo qual o faz Socrates. Mostra o quadro contem- plado pelo filosofo num fim de s6culo sacudido pela peste, pela guerra, pelo individua- lismo e pela ambicao e mostra a solucClo socratica: procura de "um fundamento mais estavel que costumes relativos e normas efemeras". Aqui a resposta a uma das inda- gacbes anteriores: filosofo urbano, Socrates A ao mesmo tempo revolucionArio e rea- cionario e "transporta a antiga especulacao ao terreno ateniense da moralidade"; aqui, ainda, as razbes pelas.quais, "profundamente grego e profundamente cidadao atenien- se". nao pode escrever.

A missho (La mission) mostra-nos inicialmente o fil6sofo "no umbigo do mun- do", a pensar que nada sabe, a investigar por que o considerara sabio a PRia, para descobrir "que ninguAm, de fato, sabe nada daquilo que pensa que sabe". O Autor ana- lisa os interiocutores de Socrates. Incompetentes? - Nao. ProRsslonals. sabem agir:

mas nao sabem por que o fazem. Assim, nao sabe o politico 'o que A a justica, o sa- cerdote, o que A a piedade, o general. o que A a coragem, o poeta, o que A a beleza:

e nao tem consciencia de sua ignorancia. Em suma, todos sabem e praticam a Sua pro- fissao mas ignoram o essencial. Francis Wolff o define e acompanha Socrates no ca- minho que o leva do oraculo de Detfos A consciencia de que todos os homens que se creem sabios nlio sabem responder

A

questao primordial. Enfim, mostra como o filosofo inicia a sua missao a partir do conhece-te a t i mesmo, pois o fato A que todo homem sabe o que ele tem mas nao sabe o que ele A e desconhece os verdadeiros valores.

Acompanha os passos da missao socratica - do ensinamento ao mAtodo e A atitude

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e os analisa. Como evitar o moralismo dos moralistas e conservar aos valores e a sua dignidade? Como conduzir sem impor? Como fazer e refletir para levar ao conhecimen- to da verdade sem cair no dogmatismo? Por que interrogar em vez de expor? Como justifica Socrates a sua tAcnica de investigacao, a que Platao chamou maieutica? Por que nao se pode considerar S6crates um psicanalista? Por que A diflcil caracterizar o seu estilo? Finalmente, como definir a ironia socratica?

N'O universal (L'universel), o Autor lembra a afirmacao aristot6lica de que S6- crates foi o primeiro a procurar definicoes. Exemplifica por meio do Laques e mostra as "tres conversoes" que se operam e transformam jA o seu preludio numa interro- gacao filosofica: 1) o efeito da ironia socratica; 2) a transformacao do problema, de t6c- nico em moral; 3) a suspensao provisoria de toda relacao pragmatica As coisas, aos atos, A linguagem. Diz por que e para que o mAtodo, salienta-lhe as dificuldades e os mal-entendidos e faz a defesa daquele em quem Aristoteles ve "o inventor dos raciocl- nios indutivos". Mostra o caminho seguido pelo filosofo na obtencao dos conceitos, a necessidade de obte-los e a sua superioridade sobre a multiplicidade dos casos parti- culares: o conceito A isento de contradicoes. Ora, se a coragem 6 invariavel, o que A a coragem? O que sao tambAm a justica, a temperanca, a piedade? O que sao as virtu- des? Qual A o Bem supremo? Enfim, o que 6 a virtude? E Francis Wolff termina este capftulo com novo retrato de Socrates.

A morte (La rnort) formula perguntas e encontra respostas. Por que morreu S6- crates? Ou por'que se quis que Socrates morresse? O Autor apresenta inicialmente os fatos; a seguir, os interpreta e explica. Por que o processo? Inimizades pessoais? Into- lerancia ateniense? Processo religioso? Ou politico? Tera sido o filosofo um bode ex- piatorio, ou tera sido o processo uma reacao antiintelectualista da recAm-restaurada democracia? Se ha motivos que o justifiquem, de que modo justificar a condenacao A pena capital e a morte? Por que se recusou o filckofo a preparar a sua defesa ou a en- trega-la a um profissional? Francis Wolff analisa (com ironia socratica?) a atitude irbnica do reincidente em face de uma acusaclio que A gravfssima, de acusadores que sao poderosos e de um juri que A soberbo. Por que quis Socrates morrer? O que significa a sua morte?

2. O "paradoxo socrAtico"

(Le

"paradoxe socratique") analisa a questao da vlr- tude. "Sustentar que a virtude 6 saber A a f ~ m a r que aquele que sabe o que A o "bem"

nao pode deixar de faze-10. Mas isto supbe que ele necessariamente o queira e infali- velmente o p o s s a " O Autor analisa o duplo paradoxo e pergunta quem sustentara contra a evidencia que queremos ser virtuosos quando queremos ser felizes. E res-

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