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4. AS PROPOSTAS DE GESTÃO INTEGRADA DAS UCs DA CHAPADA

4.2 A Reserva da Biosfera do Cerrado – fase II

Uma parceria entre a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás (SEMARH/GO) e a ONG WWF, com o apoio dos governos municipais da região abrangida, formada a partir de discussões ocorridas na região da Chapada dos Veadeiros desde 1995, foi o início da ação formal que veio a resultar na criação da Reserva da Biosfera do Cerrado (fase II). Como primeiro passo, foi encomendado ao consultor Paulo de Tarso

Zuquim Antas a elaboração da proposta nominal, que contou com o suporte técnico e financeiro do escritório brasileiro da UNESCO.

A proposta foi encaminhada pela SEMARH-GO à Comissão Brasileira do Programa MaB (COBRAMaB) pleiteando a designação da área como Reserva da Biosfera (Paiva,2000). Esta foi aprovada e encaminhada pela COBRAMaB à Comissão Internacional do Programa MaB, e, em outubro de 2000, a UNESCO reconheceu o pleito e declarou como integrante da Rede Mundial de Reservas da Biosfera a Reserva da Biosfera do Cerrado – fase II.

A Reserva da Biosfera do Cerrado (fase II) foi criada tendo três áreas-núcleo: O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV), O Parque Estadual de Terra Ronca (PETR), e o Parque Municipal de Itiquira, na cidade de Formosa – GO. Cada uma destas áreas-núcleo tem uma zona de amortecimento.

A zona de amortecimento do PNCV tem a delimitação da APA do Pouso Alto, que engloba inteiramente os municípios de Alto Paraíso de Goiás e Colinas do Sul (excluindo a Reserva indígena dos Avá-Canoeiros), e parte dos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás, Nova Roma e São João da Aliança.

A zona de amortecimento do PETR é constituída pela APA de Terra Ronca, que o envolve na sua região sudeste e da Zona de Transição prevista para UCs na Resolução CONAMA n° 13/90.

A zona de amortecimento do Parque Municipal de Itiquira é constituída pelas nascentes do rio Paranã, Lagoas de planalto (Feia e Formosa), e a Área de treinamento do Exército, próximo à cidade de Formosa/GO.

A zona de transição desta RESBIO do Cerrado (fase II) se interliga com a zona de transição da RESBIO do Cerrado (fase I) e envolve a maioria da região nordeste do Estado de Goiás até suas divisas com o Estado do Tocantins.

A Reserva da Biosfera do Cerrado (fase II) veio ressaltar o propósito governamental e comunitário de preservar esta região de cerrado de altitude, que contempla um mosaico de UCs e se constitui na área contínua mais preservada do Cerrado goiano. Além da extrema

importância para a conservação da diversidade biológica, a região proporciona uma oportunidade para a demonstração da implantação do desenvolvimento sustentável em uma escala regional, conforme requisito da UNESCO.

A Reserva da Biosfera do Cerrado (fase II) também atendeu à necessidade de um zoneamento especial requerido pelo Marco Regulatório das RESBIO e foi constituída tendo também como propósito a proteção das UCs de proteção integral existentes na área, bem como a busca da integração das gestões de todas as UCs da região.

As RESBIO não são unidades de conservação. Elas fazem parte dos Espaços Territoriais Especialmente Protegidos (ETEP), os quais incluem as UCs, logo elas não têm a exigência de elaboração de um Plano de Manejo para orientar a sua gestão. Entretanto, todas as RESBIO da Rede Brasileira de Reservas da Biosfera devem instituir seu Conselho Deliberativo (§ 4° do art. 41 da Lei do SNUC).

Conforme previsto no Decreto n° 4.340/02, que regulamenta a Lei do SNUC, “quando a Reserva da Biosfera abranger o território de apenas um estado, o sistema de gestão será composto por um conselho deliberativo e por comitês estaduais” (§ 1° do art. 43).

O Conselho Deliberativo da Reserva da Biosfera do bioma Cerrado ainda não foi instituído. Segundo o site da UNESCO, o Comitê do Estado de Goiás já está em atividade, porém não existem informações sobre a instituição e o funcionamento do comitê nas páginas eletrônicas dos órgãos ambientais do Estado de Goiás, nem nas dos órgãos ambientais federais. Aparentemente houve uma constituição informal do comitê estadual, que atualmente não tem funcionamento. Pelo fato de não ter sido ainda instituído oficialmente o Conselho Deliberativo da Reserva da Biosfera do Cerrado, nem o comitê do Estado de Goiás, não se pode falar efetivamente de implantação e gestão da Reserva da Biosfera do Cerrado.

Ao exemplificar a proposta de gestão biorregional, numa mudança de escala nas estratégias de conservação da biodiversidade, as RESBIO trazem muitos benefícios. Miller (1997) relaciona quatro deles: em primeiro lugar, as comunidades e órgãos encarregados de manejo podem começar a ter cuidado com as ligações e interdependências entre os recursos e serviços ambientais de seus ecossistemas, com seu trabalho, com o fornecimento de alimentos e o suprimento de necessidades materiais, assim como com o potencial e limites dos seus

habitats. Em segundo lugar, esta abordagem capacita gestores e comunidades a localizar os componentes chaves dos ecossistemas. O que necessitam, como podem ser monitorados e manejados, e como explorá-los de modo sustentável. Em terceiro lugar, os moradores e gestores podem repensar as suas atividades relacionadas à exploração dos recursos naturais, ao uso de terra e águas, levando em conta as mudanças globais e prevenindo-se em relação a prováveis aumentos de chuvas ou de secas, e mudanças locacionais em habitats e comunidades selvagens. Em quarto lugar, para conseguir lidar com os habitantes que vivem, utilizam ou mesmo cuidam destes ecossistemas que ocupam vastas áreas, as partes interessadas podem examinar seus conflitos sistematicamente (MILLER, 1997, p. 15 e 16).

Por fim, segundo Rodrigues (2001), as RESBIO apresentam grande semelhança conceitual com o mosaico de unidades de conservação, tratado no artigo 26 de Lei do SNUC, o que torna possível a aplicação supletiva das normas de uma categoria à outra sem qualquer prejuízo (p. 461). Esta perspectiva de gestão integrada de áreas protegidas pode, assim, trazer ganhos, tanto para a conservação da biodiversidade, quanto para a geração de alternativas econômicas para as populações locais. Mas, para que isto aconteça ela precisa ser efetivamente implementada.

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