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CAPÍTULO 2. ENTRE MILITARES E GUERRILHEIROS: A ANTIGA POLÍTICA

2.5 RESERVA DE MERCADO E A LICITAÇÃO DOS MINICOMPUTADORES

sabia que o mercado de mainframes e de máquinas de grande porte já estava consolidado no país e no mundo, e seria um disparate tentar proteger esse segmento e criar capacitação nacional para competir com a gigante mundial IBM. O mesmo não ocorria com o mercado de mini e microcomputadores, o chamado lower-end da computação, que ainda representava uma parcela pequena da informática e não tinha interessado aos grandes fabricantes. Para se ter uma idéia, em 1975 as vendas de minicomputadores representavam apenas 15% do mercado de mainframes no país. (EVANS, 1986, p. 793).

11 Conforme sugerido em Dados & Idéias, nov. 1980, p. 56. 12 Expressão de ADLER, 1986, p. 692.

Os rumos dessa história, no entanto, estavam mudando. Apesar de pequeno, o mercado de minicomputadores era o que mais crescia no mundo, em decorrência do uso generalizado a que se prestavam tais máquinas, inclusive por médias e pequenas empresas, e ao potencial representado por suas aplicações em sistemas administrativos em entrada de dados, em controle de processos, teleprocessamento ou como caixas registradoras eletrônicas. (CONCEIÇÃO, 1976, pp. 16-20). O grande fator determinante foi que as empresas pioneiras e que dominavam esse ramo eram razoavelmente recentes, e estavam mais preocupadas em ganhar espaço e suprir a demanda do mercado norte-americano. Por essa razão elas não tinham estabelecido redes internacionais e iniciado a fabricação de seus produtos em muitos países do mundo, como era o caso do Brasil.

Esta era a oportunidade que a CAPRE precisava. Um mercado em expansão, produto em fase de disseminação, tecnologia não especializada e organização industrial ainda não consolidada no país. Uma legítima “janela de oportunidade”, que os guerrilheiros ideológicos poderiam utilizar. Conforme Adler:

“O momento não era irrelevante. O fato de que as multinacionais, em especial a IBM, não haviam começado a fabricar os mini e microcomputadores no Brasil quando os esforços nacionais foram inicialmente concebidos constituía uma oportunidade. Pois se essas empresas já tivessem estabelecido um nicho no Brasil com esses sistemas, o custo e dificuldade de empurrá-las para fora do mercado poderia ser grande demais.” (ADLER, 1986, p. 685, tradução nossa13).

A “janela”, entretanto, não ficaria aberta por muito tempo, e os técnicos da CAPRE sabiam disso. Começavam a tomar forma e dar resultados as estratégias comerciais para minicomputadores das principais empresas como Burroughs, Olivetti, Digital, Data General e Hewlett-Packard. O ponto crítico desse processo ocorre em meados de 1976, quando a IBM, até então fora do mercado dos minis, anuncia sua entrada nesse segmento com seu ‘sistema /32’, acompanhado de uma campanha publicitária maciça.

13 “Timing was not irrelevant. That MNCs, in particular IBM, had not yet begun manufacturing mini and

microcomputers in Brazil when the national endeavor was first considered constituted an opportunity. For had the MNCs already established a niche in Brazil with these systems, the cost and difficulty of pushing them out of the market might have proved too high.” (ADLER, 1986, p. 685). No mesmo sentido Evans afirma “Had DEC been willing to start making the PDP-8 in Brazil in 1970, not an unreasonable proposition from DEC’s point of view since it was already na “old” machine by this time, the Brazilian response would almost certainly have been highly positive. If IBM had been interested in initiating local production of a machine like the system 32, the same would almost certainly have been true. If either had happened, the possibility of the 1977 mini competition would have been pre-empted. Once TNCs had become involved in that segment of the market it would have been very difficult to dislodge them”. (EVANS, 1986, p. 797).

Considerando a urgência, o Conselho Plenário da CAPRE aprova a Resolução no 1, de 15 de julho de 1976, sob o título “Recomendações sobre a política nacional de

informática”. A Resolução 1 realiza um apanhado geral da situação da indústria de

informática. Em suas premissas são mencionadas a importância estratégica do setor para a segurança nacional, a consolidação do mercado de máquinas de médio e grande portes, e a oportunidade representada pelos mini e micro computadores. Com base nesse diagnóstico, recomenda a implementação de políticas para viabilizar um parque industrial de mini e microcomputadores e seus periféricos com total domínio, controle da tecnologia e decisão no país.

Diante da decisão da CAPRE, a maioria dos fabricantes interessados em comercializar os minis no país desistiu da idéia, ou, pelo menos, aguardava ocasião mais propícia para seus planos. Algumas empresas, no entanto, em especial a IBM, deflagraram uma verdadeira guerra de gabinetes tentando impedir a ação da CAPRE, que envolveu carta ao secretário-geral da Secretaria de Planejamento e audiência de sua diretoria internacional com o presidente da república. (HELENA, 1980, p. 92).

Havia ainda na CAPRE algum receio sobre seu poder político para resistir às pressões empresariais e fazer valer as suas recomendações de políticas explicitadas na Resolução 1 de 1976. Para dar maior respaldo às suas decisões e garantir maior legitimidade administrativa para suas ações, buscou-se então o auxílio do CDE. Em janeiro de 1977, este órgão emitiu sua Resolução 5, estabelecendo que a concessão de incentivos fiscais a projetos da área de computação passavam a estar sujeitos à prévia “declaração de prioridade” do Conselho Plenário da CAPRE. Ademais, a Resolução estabelecia critérios que deveriam ser levados em consideração pelo Conselho Plenário para suas decisões, como índice de nacionalização, abertura tecnológica para empresa nacional (no caso de associações com estrangeiras), e origem do capital, ressaltando ainda que esses critérios passariam a valer “para efeito de apreciação dos pedidos relativos a importações de peças, partes e componentes destinados à fabricação de computadores, exigíveis conforme as normas em vigor do Conselho Nacional do Comércio Exterior - CONCEX”.

Considerando a nova legislação, a CAPRE recebeu seis projetos para fabricação de minicomputadores no Brasil, solicitando a “declaração de prioridade”. Entre essas propostas estava o Sycor 440 da COBRA (comercializado sob o nome COBRA 400), e o

/32 da IBM. O projeto da COBRA foi brevemente aprovado, recebendo a declaração de prioridade para importação de partes e peças. Já o projeto da IBM foi minuciosamente analisado pelos técnicos da CAPRE, que emitiram um parecer defendendo a sua recusa, por estar em desacordo com os critérios descritos pelo CDE em sua Resolução 05.

Apesar das opiniões expressas no parecer, havia muito receio na CAPRE e no governo federal de que uma resposta negativa para a IBM traria um desgaste político muito grande, além das dúvidas quanto às conseqüências da decisão. Em especial, havia muita pressão para aprovação do projeto, e assim evitar um “monopólio” da COBRA no setor de minicomputadores. Desta forma, depois de várias consultas e reuniões de ministros e membros do Conselho Plenário, chegou-se a uma fórmula conciliatória: realizar uma concorrência para ocupação do mercado, utilizando-se os critérios da Resolução 5 do CDE.

Com base nessa orientação, em junho de 1977 a Secretaria-Executiva da CAPRE publica carta-convite para as empresas interessadas em produzir minicomputadores apresentarem seus projetos. Assim foi lançada a “licitação dos minis”, como ficou conhecida. Foi necessário algum trabalho de convencimento do empresariado nacional para a apresentação de propostas, mas ao final 16 empresas submeteram no prazo seus projetos. Dentre essas, 7 eram subsidiárias de empresas estrangeiras, com tecnologia da matriz (IBM, Burroughs, Hewlett-Packard, NCR, Olivetti, Four Phase e TRW), uma associação entre empresa estrangeira e um grupo nacional (Basic-Four e Grupo Lucas Nogueira Garcez), e 8 projetos de empresários nacionais, sendo que dois afirmavam dispor de desenvolvimento interno.

A partir daí os técnicos da CAPRE trabalharam na análise das propostas, em um processo que se pretendia o mais objetivo possível. Em dezembro de 1977 o Conselho Plenário aprova o parecer do grupo de trabalho designado para a avaliação, aprovando os projetos de três grupos nacionais que adquiririam tecnologia estrangeira: a SID (associação formada pela Sharp, Inepar e Dataserv), com tecnologia da empresa francesa Logabax; a Labo Eletrônica, que integrava o grupo Forsa e iria fabricar o equipamento da Nixdorf, alemã; e a Edisa, com os minicomputadores da Fujitsu, considerada a detentora da tecnologia de computação mais avançada entre os fabricantes japoneses. (HELENA, 1977, 34-45).

Acima desta escolha reside o fato de que a IBM e seu projeto /32 foram definitivamente descartados, sem a necessidade de uma negativa formal e expressa do governo. A empresa continuaria a apostar no mercado brasileiro, principalmente com seu sistema 4331, que embora fosse de tamanho médio, aproximava-se o suficiente para poder competir com os minicomputadores. (EVANS, 1986, p. 795). Também data desse período a primeira significativa movimentação estrangeira contra a política de informática no Brasil. A empresa americana Data General, que não participou da licitação, enviou uma carta ao governo dos Estados Unidos, afirmando que a política adotada pelos nossos governantes contrariava os interesses das empresas norte-americanas, excluindo-as de um mercado muito promissor, e alertando para o risco de que essa experiência fosse replicada em outras nações em caso de êxito. (TAPIA, 1995, p. 36).

2.6 A criação da SEI e a nova fase da política

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