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Little (2002) considera que a criação de Reservas Extrativistas no Brasil e o contexto no qual foram institucionalizadas têm forte influência da consagração do conceito de Desenvolvimento Sustentável como um suposto novo paradigma de desenvolvimento. O autor destaca essa conjuntura porque, a partir de então, foram criadas novas possibilidades e novas alianças com o objetivo de buscar uma alternativa viável de Desenvolvimento Sustentável, na qual os povos tradicionais fossem considerados parceiros pelos ambientalistas por conta de suas práticas históricas de adaptação com o meio ambiente. Assim, o autor destaca, sobretudo,

a profundidade histórica como dimensão importante dessa sustentabilidade, que é complementada pela abrangência geográfica nos ecossistemas variados do Brasil. Para Little (2002), a sustentabilidade foi o elemento chave que conduziu a busca por formas de co-gestão de território, envolvendo o governo na figura de seus órgãos ambientais, os ambientalistas e os grupos sociais.

Assim, o movimento que tomou a liderança política dos grupos extrativistas dispersos pelo país foi o movimento dos seringueiros da Amazônia brasileira. Silva e Souza (2009) chamam atenção para o fato de que a criação das Resex, concebida pelo movimento Seringueiro, representou a principal conquista de um movimento vindo da floresta que se articulou com outros ideais de luta pela terra e de garantia de um modo de vida, contrastando com um modelo de desenvolvimento que valorizava a propriedade individual. No entanto, a concepção que futuramente culminaria na criação das Reservas Extrativistas, ao garantir a apropriação coletiva da posse da terra e a forma de utilização orientada pelos métodos tradicionais, demandava também uma estrutura que garantisse a sustentação jurídica.

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais – STR teve uma atuação importante na organização dos seringueiros e, por meio dessa organização, evidenciou-se que as reivindicações dos seringueiros tinham muitas semelhanças com as exigências dos trabalhadores rurais de outras regiões do Brasil. Essas demandas confluíram e foram articuladas nos Congressos realizados pela Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura - Contag.

Silva e Souza (2009) mostram que, a princípio, o STR de Brasiléia, na liderança de Wilson Pinheiro e posteriormente com a atuação de Chico Mendes, que estava à frente do STR de Xapuri, assumiram a luta dos trabalhadores reivindicando uma reforma agrária que levasse em conta o contexto sociocultural dos povos da floresta. Little (2009) destaca que foi a partir do I Encontro Nacional dos Seringueiros, em 1985, que ocorreu em Brasília, que as reivindicações territoriais resultaram em duas conquistas importantes: o estabelecimento dos Projetos de Assentamento Extrativista dentro da política de reforma agrária (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA) e a criação da modalidade das Reservas Extrativistas dentro da política ambiental do país (Ibama).

Ou seja, como Silva e Souza (2009) complementam, a demanda desse grupo social era por uma reforma agrária específica, que foi inserida na estrutura legislativa do país na forma de Projetos de Assentamentos Extrativistas e posteriormente por meio do Decreto n.98.897 de 1990, sob a figura das Reservas Extrativistas – Resex vinculadas ao Ibama. Os autores

sublinham ainda que algumas questões influenciaram a mudança da instituição governamental do INCRA para o Ibama, como o crescente apelo para as questões ambientais.

Outro acontecimento que também deve ser destacado nesse processo foi que, infelizmente, esse movimento passou a ser alvo dos fazendeiros, principalmente no estado do Acre, e ao eliminar as principais lideranças desse movimento, os fazendeiros tinham como objetivo acabar com a resistência à apropriação e exploração da terra. Mas como recordam Silva e Souza (2009), a morte de Chico Mendes foi um triste episódio que, pela repercussão nacional e internacional que ganhou, foi “um tiro pela culatra”, pois acelerou a demarcação de terras na forma de Reservas Extrativistas como uma resposta do governo aos conflitos e violência nestas áreas. Além de Chico Mendes, outras lideranças também perderam a vida na mesma luta em outros estados brasileiros.

O decreto assinado em 1990 dispôs que, a partir de então, cabia ao Ibama supervisionar as áreas extrativistas e acompanhar as condições estipuladas no Contrato de Concessão de Uso. No mesmo ano a Reserva Extrativista do Alto Juruá no estado do Acre foi criada oficialmente pelo governo brasileiro. Little (2009) observa que essa modalidade territorial ofereceu um reconhecimento formal do Estado a respeito da territorialidade dos extrativistas. A princípio, nessas áreas, o controle e uso coletivo dos recursos foram normatizados por planos de utilização elaborados pelas associações locais de trabalhadores agro-extrativistas e aprovados pelo respectivo órgão federal responsável. O autor também chama atenção para algo imprescindível: o fato de que essas terras pertencem formalmente à União.

Em 1992 (por meio da portaria, Ibama n.22/92), de acordo com Chamy (2002), foi criado o Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado das Populações Tradicionais - CNPT com a missão de “executar políticas de uso sustentável dos recursos naturais, tendo as reservas extrativistas como referência, e por princípio a gestão comunitária e por prioridade ampliação da base territorial destinada às unidades de Reservas Extrativistas” (CHAMY, 2002, p.4). Com o tempo essa modalidade territorial foi apropriada por outros grupos de extrativistas que não exploravam a borracha, como castanheiros, quebradoras de babaçu e comunidades pesqueiras.

Little (2009) traz uma observação a respeito dos povos tradicionais dedicados à extração pesqueira, importante de ser destacada aqui já que esse trabalho se refere a eles, sobre o fato de os ribeirinhos e os pescadores enfrentarem outro conjunto de barreiras para o reconhecimento formal de suas áreas de ocupação e uso, já que na maior parte dos casos não se trata de terras, mas seções de um rio, de um lago ou do mar, o que gera o que o autor

chama de “terras aquáticas ou marinhas” que não contam com uma legislação adequada que reconheça as particularidades dessa apropriação.

Na contemporaneidade, como visto no tópico anterior, é o SNUC que regulamenta as Resex e como esclarecem Silva e Souza (2009), prevê a formação de um Conselho Deliberativo como gestor da Resex, o que modificou a configuração anterior no qual cabia apenas ao Ibama a supervisão da área para o cumprimento do Contrato de Concessão de Uso. Isso porque a gestão da Resex deve ocorrer de forma compartilhada; espera-se que o Conselho Deliberativo seja constituído por representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e das populações tradicionais residentes na área, entre outros atores sociais. Os autores acrescentam que essas áreas devem dispor inicialmente de um Plano de Utilização, documento que estabelece as regras construídas pela população residente, relacionadas às atividades desenvolvidas de manejo dos recursos, uso e ocupação da área, além da conservação dos recursos naturais. Toda Unidade de Conservação deve possuir um Plano de Manejo.

Este documento, conforme a Instrução Normativa Nº 01/2007, do ICMBio (BRASIL, 2007), é o principal instrumento de gestão da área, definindo a estrutura física e de administração, o zoneamento, os programas de sustentabilidade ambiental e socioeconômica, a análise de cenários, além do plano de uso dos recursos”(SANTOS E SCHIAVETTI, 2013, p.482).

As Resex são definidas no Art. 18 do SNUC:

A Reserva Extrativista é uma área utilizada por populações extrativistas tradicionais, cuja subsistência baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte, e tem como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade (SNUC, 2000, p.27).

O Quadro 7, exposto anteriormente, mostra que há um total de 90 Reservas Extrativistas em áreas continentais e 21 em áreas marinhas. As Reservas Extrativistas Marinhas surgiram a partir da transferência do modelo de manejo originário da Amazônia, e é resultado do esforço de expandir o conceito das Resex para as áreas marinhas. Chamy (2002) expõe que a primeira Reserva Extrativista distinta em relação à utilização dos recursos, criada em 1992 fora dos limites Amazônicos, foi a Reserva Extrativista Marinha de Pirajubaé, em Santa Catarina.

Para Diegues (2008), as áreas marinhas incluem ecossistemas diversificados incluindo áreas costeiras, marinhas, manguezais, lagoas, dunas e outras áreas. Na opinião do autor as populações de pescadores artesanais usam estes habitats com um nível de impacto baixo sobre a flora e a fauna, e elas têm sido consideradas importantes aliados no processo de conservação. Além do envolvimento com a pesca, principal fonte de sobrevivência das comunidades de

pescadores tradicionais que residem nestes locais, normalmente, a população desenvolve também agricultura de pequena escala, turismo e produção de artesanato.

Segundo Diegues (s/d),7 e também como foi visto no Capítulo 1, o conhecimento tradicional na pesca é compreendido como “um conjunto de práticas cognitivas e culturais, habilidades práticas e saber fazer transmitidas oralmente nas comunidades de pescadores artesanais com a função de assegurar a reprodução de seu modo de vida”. (DIEGUES, s/d, p.5). O autor expõe que, nas comunidades costeiras, esse conhecimento é constituído por um conjunto de conceitos e imagens, produzido e usado pelos pescadores artesanais em sua relação com o meio-ambiente aquático, ou seja, um conjunto de saberes e crenças cumulativas transmitidas através das gerações. Nessa lógica, entende-se que esse conhecimento não se restringe aos recursos pesqueiros, mas também à organização social, à formação das equipes de pesca, aos meios de comercialização e beneficiamento do pescado. Além disso, acrescenta que os pescadores não utilizam somente os conhecimentos acumulados pelos mais velhos, mas produzem outros a partir de suas próprias experiências.

Para o autor, trata-se de um conhecimento empírico e prático, que combina informações que vão desde o comportamento dos peixes, taxonomias e classificações de espécies e habitats assegurando capturas regulares e a sustentabilidade, em longo prazo, das atividades pesqueiras. Esse tipo particular de conhecimento é produzido por comunidades de pescadores que possuem as características expostas na Figura 20.

7 Este texto foi retirado do acervo do Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas em Áreas Úmidas

brasileiras – NUPAU, com o título “Conhecimento e manejo tradicionais em áreas protegidas de uso sustentável: o caso da Resex marinha do Arraial do Cabo-Rio de Janeiro”, na seção de “artigos Nupaub” não contém informações de data e publicação. Está disponível em: http://nupaub.fflch.usp.br/sites/nupaub.fflch.usp.

Figura 20. Conjunto de características das comunidades de pescadores artesanais. Fonte: Elaborado pela autora com base em Diegues (s/d).

Ainda se tratando das contribuições de Diegues (s/d), o autor acentua que nas Reservas Extrativistas Marinhas implementadas em biomas com características de mangues e estuários, como o caso do Mandira, em Cananéia - SP, as comunidades de pescadores são culturalmente mais homogêneas que as comunidades tipicamente marítimas como as Resex-Mar de Arraial Cabo-RJ e Corumbau - BA (DIEGUES, S/D). Isso porque nas primeiras, como explica o autor, principalmente aquelas que vivem do mangue (pesca, extração de moluscos), a pressão do turismo parece ser menor, uma vez que são áreas de proteção permanente. Já nas segundas, a complexidade social e cultural aumenta, com a existência de outras atividades não-pesqueiras (turismo, urbanização, etc).

Ao longo do desenvolvimento de várias pesquisas nestas áreas, Diegues (s/d) observou também uma característica de maior parte das Resex Marinhas: de que foi declarada área de uso sustentável somente a área costeira/ marítima, tendo sido deixada de fora as áreas de moradia e vivência dos pescadores. O que acontece comumente, é que essas áreas são vendidas ou apropriadas, sobretudo, por veranistas e nesse caso, o acesso dos pescadores à reserva é mais limitado, pois eles acabam transferidos para áreas distantes das praias.

Atentando para estas questões, Diegues (s/d) elucida que no documento do IBAMA/CNPT - Roteiros Metodológicos: Plano de Manejo Múltiplo das Reservas

Extrativistas Federais de 2004 é enfatizada de forma clara a necessidade de compatibilizar o conhecimento científico e tradicional nos planos de manejo de reservas extrativistas pesqueiras e marinhas; no entanto, uma limitação é que não há diretrizes de como isso deve ser feito nas diversas fases do plano de manejo: coleta de informações, construção democrática do plano de manejo, monitoramento e avaliação.

Esse documento também indica alguns princípios que devem orientar essas atividades, que estão listados no Quadro 8.

Quadro 8. Princípios que devem orientar as atividades do Plano de Manejo.

Princípios Especificação

Princípio da sustentabilidade ambiental

As atividades pesqueiras devem permitir a reprodução dos estoques, aumentando a resiliência dos ecossistemas e habitats usados pelos pescadores, bem como permitir uma melhoria na qualidade de vida dos pescadores (renda, trabalho, saúde, educação, etc).

Princípio da precaução

Na ausência de certeza científica formal e na possibilidade de graves danos aos recursos marinhos e costeiros deve-se proceder com cuidado ao se estabelecer as metas de produção. O referido ainda indica que no plano de manejo essas metas devem sofrer revisões constantes em função da situação dos estoques, deve-se buscar medidas consensuais entre os usuários da reserva e a transparência nos processos decisórios e na elaboração dos acordos de pesca.

Princípio do manejo adaptativo

Tendo-se em vista as incertezas e os riscos da atividade pesqueira, deve-se adotar práticas de manejo que levem em conta essa imprevisibilidade, adaptando-as tanto às mudanças naturais quanto sociais e aquelas decorrentes do mercado. Nesse sentido, essas práticas de manejo devem ser tratadas como experiências pelas quais os gestores e pescadores tomam decisões dentro do princípio do co- manejo

Carência de informações pesqueiras

Como as informações sobre a pesca artesanal (produção, valor, etc) são escassas o plano de manejo deve incorporar o conhecimento dos pescadores e basear-se em estudos sobre pescarias similares em outras regiões ambientalmente semelhantes.

Princípio da exclusão

Áreas biologicamente importantes devem ser consideradas áreas críticas de conservação dos recursos (berçários, áreas de reprodução dos estoques) e, portanto devem ser preservadas pelos usuários

Participação dos atores sociais e regimes de governabilidade

O processo de co-gestão ou gestão compartilhada deve fomentar a participação ativa dos múltiplos atores e criar espaços de discussão e negociação, levando em conta o histórico e a situação atual das comunidades em termos de conhecimentos patrimoniais, instrução (formal e informal,) níveis de organização, anseios e vocações e capacidade de adaptação às mudanças.

Fonte: Adaptado de Diegues (s/d).

Ao trazer comentários a respeito das especificidades trazidas pelo Roteiro Metodológico, Diegues (s/d) coloca em destaque que o documento propõe categorias de manejo; consumo local e venda de excedentes; áreas de pesca comercial; zoneamento da área

preservada (indicando aquelas propícias para a pesca: intensiva, extensiva e ainda áreas de exclusão) áreas de moradia e atividades complementares, pontos de desembarque, dentre outros. O autor ainda realça a necessidade do estabelecimento de protocolos de fiscalização, de monitoramento dos aspectos tanto biológicos, socioeconômicos, das atividades pesqueiras e aquícolas, do gerenciamento da mão de obra existente e das possibilidades de agregação de valor através do beneficiamento e comercialização da produção.

Tendo em vista os aspectos trazidos até aqui, fica claro que a pesca artesanal é um dos aspectos relacionados à cultura e meio de vida que a Resex-Mar busca proteger. Santos e Schiavetti (2013) mencionam que poucos estudos têm sido conduzidos para avaliar se a pesca artesanal é realmente sustentável. Reforçam também que, apesar de as Resex-Mar possuírem os mesmos objetivos gerais que as Resex, sua singularidade está no fato de se localizarem em um ambiente que ainda não conta com uma legislação adequada que reconheça as particularidades dessa apropriação. Haja vista essa necessidade de entender melhor o contexto desta atividade em áreas protegidas é que o próximo tópico se propõe a oferecer um panorama a partir de informações socioeconômicas e ambientais sobre seis Reservas Extrativistas Marinhas brasileiras.