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Resgate conceitual do processo de comunicação

3. TRAJETÓRIA TEÓRICA

3.3. O processo de comunicação social como prática transdisciplinar

3.3.4. Resgate conceitual do processo de comunicação

A comunicação configura um fenômeno sociocultural cada vez mais complexo pela profusão de suportes tecnológicos de que se vale, e pelas tentativas esboçadas por grupos de poder para controlar sua engrenagem. Seu conceito estrutural tem como critério orientador o fluxo que caracteriza o fenômeno, “estabelecendo distinção entre a estrutura do processo – Comunicação – e o seu objeto precípuo – Informação” (MARQUES DE MELO, 1970, p. 31).

Por essa razão, é necessário realizar um breve resgate sobre o conceito de comunicação e sua trajetória como ciência, a começar pela origem etimológica da palavra. De origem latina, communicare tem o significado de colocar em

comum. Ou seja, a essência da comunicação é pôr em comum ideias, sentimentos

e/ou pensamentos.

A comunicação pode assumir também um caráter biológico quando relacionada com a atividade sensorial, um “fenômeno próprio do ser vivo”, como afirma Maturana (2001 p. 58). O universo da Comunicação incorpora, assim, um caráter transdisciplinar, garantindo, segundo Armand e Michèlle Mattelart (2005), um campo próprio para a observação, seja na esfera científica, seja humana. Os autores consideram esse um campo de observação científica historicamente inscrito entre redes físicas e imateriais, entre o biológico e o social, a natureza e a cultura, considerando “os dispositivos técnicos e o discurso, a economia e a cultura, as perspectivas micro e macro, o local e o global, o ator e o sistema, o indivíduo e a sociedade, o livre-arbítrio e os determinismos sociais” (MATTELART e MATTELART, 2005, p. 10).

Por outro lado, o conceito de comunicação passa a pertencer ao campo da Sociologia como função integradora na organização social, conhecendo seus estilos de vida, interesses e objetivos culturais.

Giddens (1991) afirma que muitos foram os pesquisadores, com estudos voltados para o campo da comunicação, que centraram suas investigações nos conflitos do relacionamento humano, provavelmente gerados pela expansão dos meios de comunicação de massa e seu envolvimento nos processos humanos de relacionamento. Ao analisar a história desse processo comunicativo, é possível compreender as razões que fazem tantos pesquisadores influentes formularem suas teorias, buscando fortalecer o conhecimento como meio de ligação, aproximando a cultura das novas tecnologias, agindo como mediador entre elas e os diversos públicos envolvidos nesse processo. Para Canclini (2004), boa parte dessas pesquisas visam repensar as articulações entre cidade e comunicação, representadas nas diferentes formas de abordar o mesmo tema.

Estudar as diferenças e procupar-se com sua unidade tem sido uma clara tendência dos antropólogos. Os sociólogos acostumaram-se a observar os movimentos que igualam ou aumentam nossas diferenças .Os especialistas em comunicação, pensam sobre as diferenças e as desigualdades como inclusão e exclusão. Conforme a ênfase dada em cada ciência, os processos culturais são percebidos de modo diferenciado (Canclini, 2004, p. 32)72.

Na verdade, a observação do autor parece indicar que o avanço globalizado, no campo da comunicação, não é um mero processo de homogeneização, mas uma forma de regulamentar as diferenças e igualdades presentes nas diversas etapas da evolução humana. Uma questão que suscita aos pesquisadores retornar ao passado, desde as mais remotas raízes dos códigos da comunicação humana, é compreender suas formas mais primitivas, sejam através de gritos ou grunhidos, gestos, ou pela interação desses elementos.

Na visão de Bordenave (1994, p. 24), a origem dos processos de comunicação admite que o humano primitivo “comunicava os acontecimentos na mesma ordem em que eles se davam”, representando-os através de pictogramas, em suas cavernas. O autor entende que, em qualquer situação, a história mostra que os homens encontraram a forma de associar um determinado gesto a um certo

72 Texto original: Estudiar las diferencias y perocuparse por lo que nos homogeneiza ha sido una tendência distintiva de los antropólogos. Los sociólogos acostumbran detenerse a observar los movimientos que nos igualam y los que aumentan la disparidade. Los especialistas en comunicación suelen. pensar las diferencias y desigualdades en términos de inclusion y esclusión. De acuerdo con la énfasis de cada disciplina, los processos culturales son leídos com claves distintas (CANCLINI, 2004, p. 32).

objeto ou ação. A transição da Pré-história para a História se dá no final da Idade dos Metais, com o aparecimento da escrita, na Mesopotâmia e no Egito (3.000 a.C.). Pelos séculos seguintes, a linguagem se desenvolveu transmitida oral ou visualmente, até o surgimento da escrita.

Historicamente, os modelos de comunicação têm como base Aristóteles e seu texto, Retórica73, diferenciados apenas pela complexidade apresentada por cada vertente. Berlo (2003) entende que Aristóteles identificou três ingredientes no processo de comunicação: quem fala, o discurso e a audiência.

Aristóteles definiu o estudo da retórica (comunicação) como a procura de “todos os meios disponíveis de persuasão”. Discutiu outros possíveis objetivos de quem fala, mas deixou nitidamente fixado que a meta principal da comunicação é a persuasão, a tentativa de levar outras pessoas a adotarem o ponto de vista de quem fala (BERLO, 2003, p. 07).

Certamente, a humanidade deu um grande passo tecnológico com a invenção do papel para o registro de sua memória. A evolução da comunicação seguiu seu curso, atravessando civilizações e impérios até a era do humanismo clássico, Idade Média e Renascimento, onde a linguagem ordinária era quase exclusivamente voltada à comunicação, preferivelmente, à escrita.

Nesse sentido, a comunicação tornou-se eficaz, através do discurso, quando as palavras, habilmente combinadas por meio da gramática e da retórica, agem como códigos capazes de transmitir ideias. Importante referir que, na época do Renascimento, a prerrogativa da comunicação, leitura e escrita pertenciam aos monges, bem como o acesso ao conhecimento, restrito aos interesses políticos e

religiosos da época. Assim, desde a teoria formulada por Lasswell74, com a base

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Aristóteles, em seu texto Retórica, atestava o valor do passado enquanto um poderoso recurso argumentativo de ordem comparativa. Ao discorrer sobre o convencimento através do Exemplo, o autor destaca que ele pode ser manipulado a partir de duas variedades: ou como menção dos fatos passados recentes (através de dados históricos de conhecimento geral) ou pela invenção aos fatos pelo orador (tais como nas fábulas ou nos paralelos ilustrativos). Aristóteles sublinha, no entanto, que, embora as fábulas tenham a vantagem de ser comparativamente fáceis de inventar, o uso do passado recente possui um poder de convencimento mais acentuado. Para o filósofo, a vantagem argumentativa do uso das fábulas e dos acontecimentos factuais do passado recente é criar a impressão, na plateia, de que “o futuro será tal como foi o passado” (Fonte: CASADEI, 2009).

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Harold Dwight Lasswell (1902-1978) é considerado o pai da moderna Ciência Política, tem uma importância decisiva nos estudos dessa área, até hoje. É considerado como um dos mais importantes pensadores da Teoria da Comunicação.

aristotélica, passando pela readequação proposta por Nixon75, a comunicação

continuou sendo compreendida como um fluxo linear. Uma via de mão única, onde a fonte, como detentora do poder decisivo sobre qual mensagem enviar, é transmitida como um sinal até encontrar o seu receptor.

Somente em 1949, com Shannon76 e Weaver77, esse paradigma da

comunicação é rompido, através do desenvolvimento de um novo modelo, enfatizando a interatividade do receptor e a presença do ruído. O significado de

ruído é de algo que interfere no sinal, entre sua transmissão e sua recepção, não

previsto pela fonte, sugerindo problemas de interpretação de seu significado. Surge, com esse modelo, a necessidade de um codificador e de um decodificador semânticos. Bordenave (1994), por acreditar que a própria natureza, ao longo do processo de evolução, encarregou-se de preparar cada indivíduo para a comunicação, através dos sentidos, como executores dos processos de emissão e recepção. Para o autor,

os elementos básicos da comunicação estão baseados na realidade ou situação onde ela se realiza e sobre qual tem um efeito transformador; nos interlocutores que dela participam; nos conteúdos ou mensagens que elas compartilham; e finalmente, nos meios que empregam para transmiti-los (BORDENAVE, 1994, p.40).

Essa evolução exige, necessariamente, um processo de troca, no qual as diferenças constituem a singularidade de cada uma delas, propiciando a construção e a apropriação de novos saberes, a partir de uma comunicação em cadeia. A escolha da melhor linguagem será a ferramenta mais adequada para que haja uma compreensão satisfatória.

75 Raymond B. Nixon (1904-1997), fundador da International Association for Media and Communication Research (IAMCR) é editor da revista Journalism Quarterly, a mais antiga publicação periódica do campo comunicacional. Exerceu papel destacado na sedimentação da comunidade norte-americana de ciências da comunicação.

76 Claude Elwood Shannon (1916 2001), engenheiro eletricista e matemático, considerado o fundador da teoria da informação.

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Warren Weaver (1894–1978), matemático e pesquisador científico, diretor da Rockefeller Foundation's Natural Science Division.