3 A EJA NO MUNICÍPIO DE MORADA NOVA
3.1 Resgate da história da EJA no município
Os registros mais antigos que encontrei sobre a história da Educação de Jovens e Adultos em Morada Nova remontam ao período de 1936. O Livro “Morada Nova em revista” (Chagas, 2001) esclarece que as primeiras salas de EJA surgiram pela necessidade de instruir e alfabetizar a população de jovens e adultos, em virtude disso, passaram a existir as escolas noturnas do município, estas, porém, eram ministradas nas próprias residências de seus instrutores.
Deste modo, para a realização desse processo, sempre tinham pessoas dispostas a atender e garantir essa educação, contribuindo de certo modo, para o crescimento pessoal e intelectual dos sujeitos. Porém eram restritas as ações dos governantes para propiciar educação ao povo; por isso à educação ficava a cargo de voluntários, muitas vezes sem nenhuma preparação para ensinar e com apenas um estudo básico para instruir, ensinando somente a ler e a escrever. Como registra Chagas (2001):
José Terceiro Chagas, ainda bem jovem, preparado por seu tio Otávio Farias instalou em 1936 uma escola noturna vizinha a residência de seus pais para a alfabetização de adultos, escola essa de pouca duração. (...) Também a Conferência de São Vicente de Paulo manteve uma escola noturna para adultos por alguns anos (1936-1939) com iluminação por lâmpada “Petromax” como a da Tarcilia, vez que Morada Nova ainda não tinha iluminação elétrica (CHAGAS, 2001, p. 214).
Observa-se que neste período a educação básica era restrita a poucos e a alfabetização se dava por meios bem rudimentares, com estrutura física precária e
sem apoio dos governantes da cidade, no entanto, percebe-se que apesar dos percalços enfrentados, já existia o compromisso por parte da população em amadurecer a idéia de que era necessária a educação para o povo menos favorecido. Todavia, como analisado por Fávero (2004), no capítulo anterior, a EJA, das escolas noturnas tinha o perfil de caridade, assistencialismo ou filantropia em Morada Nova.
Assim depois de alguns anos as ações para atender os jovens e adultos foram só aumentando, começando, portanto em 1941 a ter a ajuda do prefeito do momento, em relação à educação, se preocupando ele com o ensino e a educação.
Segundo Chagas (2001):
Já em 1941, o Prefeito Municipal nomeou Tarcilia Raulino de Matos, para em sua residência, no turno da noite alfabetizar adultos; na época (Ditadura) não era permitido malandros ou desocupado perambulando pelas ruas, eram sempre mandados para a escola da Tarcilia (sic) (CHAGAS), 2001, p.214).
De tal modo a escola era não só um ambiente para aprender a ler e a escrever como também era um local para educar ensinando “a moral e os bons costumes” para os jovens que viviam na “malandragem” da cidade, pois a educação aliava-se o poder de disciplinar, utilizando-se até castigos físicos, como ficar de joelhos no milho para quem desobedecesse aos mandados do instrutor (a).
Com o passar dos anos à medida que novas professoras terminavam o curso normal e novas escolas eram construídas a educação para as pessoas de Morada Nova só tinha a crescer. Surgiram vários movimentos em benefício da alfabetização do povo, tendo existindo no município a, já referida anteriormente, Campanha de Erradicação do Analfabetismo-CNEA que visava uma educação geral com o intuito de reestruturar a educação. Essa Campanha tinha iniciativa de analisar quais os melhores procedimentos para uma boa educação com a certeza de que pudesse atingir seus objetivos o qual era o de alfabetizar as pessoas. A partir do depoimento do professor Sivaldo Carneiro de Andrade, Coordenador do Museu do Vaqueiro de Morada nova. Podemos destacar:
A Campanha de Erradicação do Analfabetismo-CNEA em Morada Nova foi na administração do então prefeito José Epifânio Filho em 1960 o mesmo criou trinta e uma escolas, implantou o Departamento Municipal de Educação, Saúde, Cultura e Desporto e trouxe para Morada Nova as escolas centros pilotos onde funcionava o programa CNEA, coordenada pela professora Maria Antonieta Rabelo de Castro Andrade, ela foi diretora
do Departamento Municipal de Educação da cidade, ela era a grande colaboradora e mentora do crescimento educacional a mesma implantou as Escolas Centros Piloto. Em 1960, foi criada a Escola Centro Piloto Capitão José Raimundo Evangelista no bairro Girilândia e a Escola Centro Piloto Coronel José Epifânio das Chagas as duas foram inauguradas no mesmo dia eram conhecidas como Escolas Centro Piloto da Girilândia e a do Alto.
(Sivaldo Carneiro de Andrade Coordenador do Museu do Vaqueiro de Morada Nova).
Com embasamento nesse depoimento percebe-se que no período de ano houve um crescente avanço na educação da cidade em que foi possível levar a instrução aos cidadãos moradanovenses tornando assim mais fáceis o acesso ao ensino com estrutura escolar.
Como repercussão do que ocorria em todo país, em Morada Nova não foi diferente, implementando-se no início da década de 1970 o então Movimento Brasileiro de Educação- MOBRAL.
O MOBRAL foi um dos maiores movimentos de alfabetização do país atendendo praticamente em todos os municípios do Brasil, como o objetivo de erradicar o analfabetismo e com o intuito do crescimento econômico. Mostrar para o meio internacional que a vergonha nacional estava sendo extirpada e que o Brasil era um país em crescimento, era também um dos motivos para o MOBRAL exercer suas atividades no país e acabar com o analfabetismo (Paiva,1987)
No município de Morada Nova, o MOBRAL teve papel importante levando a vários cidadãos da cidade seu programa de ensino em que atendeu as diversas pessoas da cidade e nos seus distritos possibilitando-os a aprendizagem tendo existido em cada setor do Perímetro Irrigado de Morada Nova,uma sala de aula do MOBRAL.Podemos destacar uns trechos da entrevista feita com a dona Fátima Bessa a mesma foi Diretora e Alfabetizadora do MOBRAL no Perímetro Irrigado de Morada Nova.
Em 1970, quando foi lançado o Movimento Brasileiro de Alfabetização e quando em 1974 eu me engajei nesse movimento na condição de alfabetizadora, eu era alfabetizadora de umas turmas aqui no Perímetro Irrigado de Morada Nova, desses irrigantes que vinham para Morada Nova, aqui para o Perímetro explorar a terra muitos não sabiam ler nem escrever.
O MOBRAL na época desenvolveu um trabalho aqui dentro do Perímetro e eu tive a oportunidade de alfabetizar alguns desses colonos, irrigantes, uns chamam colonos outros irrigantes, de alfabetizá-los e alguns deles, hoje, quando eu encontro é aquela alegria por conta que realmente nós tivemos um papel importante na vida deles, teve êxito o projeto, pois era um programa muito bom [...] No município havia uma comissão municipal, na época o presidente era o Wilton Galvão depois passou para o Senhor Castelo que era Vice Prefeito de Morada Nova e também presidente da
comissão do MOBRAL. (Fátima Bessa foi Diretora e Alfabetizadora do MOBRAL em Morada Nova).
O MOBRAL no município foi lançado concomitantemente à construção do Perímetro Irrigado. Portanto predominava uma ideologia desenvolvimentista. Ou seja, com a irrigação se enfrentaria a seca e com o MOBRAL o analfabetismo, trazendo progresso, com produção agrícola, para o município.
Dessa forma de acordo com as palavras da entrevistada percebe-se que o Movimento veio a atender com significado as necessidades de instrução do povo daquela região dando também satisfação a própria, na qual participou do projeto.
Como mostra a (figura1)
Figura1: certificado de participação comunitária.
Fonte: Foto de Fátima Bessa.
A metodologia empregada no MOBRAL trazia algo da metodologia usada nos Movimentos de Cultura Popular no qual se dizia usar o método de Paulo Freire, seu material e procedimentos se assemelhavam, partindo de palavras chaves que envolvesse o cotidiano das pessoas tendo restrições no sentido da problematização em sala de aula, pois esse movimento ocorria no período militar. Do mesmo modo em Morada Nova a metodologia empregada baseava-se nesse mesmo método, isso pode ser verificado nos trechos do depoimento de dona Fátima Bessa:
[...] tinha um material de excelente qualidade, onde os assuntos que eram tratados, eles eram assuntos realmente do cotidiano desses senhores dessas senhoras até jovens também, a metodologia aplicada ela se baseava na exploração da palavra chave, então a partir daquela palavra
chave, agente começava a explorar o conteúdo como também começávamos a ensinar-los a ler e a escrever. [...] por exemplo, uma palavra que é muito comum da vida deles é a enxada, então agente começava explorando lendo a palavra como um todo, depois íamos para a silabação e a partir dessa palavra nós construíamos pequenas frases e terminávamos com pequenos textos, eles aprendiam a ler como escrever ao mesmo tempo e também se levavam em conta algumas palavras, agente explorava os conteúdos de um modo geral, por exemplo, a origem da enxada, o material que ela era feita, então havia toda uma discussão, um debate em cima dessa palavra, o método usado era do Paulo Freire.
(Fátima Bessa foi diretora e alfabetizadora do MOBRAL em Morada Nova).
Percebe-se que a propaganda sobre o Programa embora confirmasse o método de Paulo Freire, na prática ele era desconfigurado, pois o processo de conscientização que deveria acontecer com a alfabetização não acontecia. Assim a professora entrevistada reproduz na sua fala a propaganda de então.
Com o MOBRAL muitas das pessoas daquela época pode ter acesso a escola e a aprendizagem, é verdade, mais a situação do analfabetismo não mudou muito. Muitos enfrentavam seus problemas para estar em sala de aula na intenção de aprender pelo menos a escrever seu nome: (Figura 2):
Figura 2: alunos em sala de aula no Perímetro Irrigado
Fonte: foto de Fátima Bessa.
Todavia, era propagandeado e criado um clima de entusiasmo. Para estar em sala de aula muito dos alunos da Educação de Jovens e adultos enfrentavam inúmeras restrições, a distância da escola, dificuldades de aprendizagem, essas entre outras barreiras são desde muitos anos enfrentados pelos estudantes da EJA.
Todos esses empecilhos também são fatores que concorreram para a evasão
escolar impossibilitando-os de seguir com os estudos, dificultando assim a sua inserção no mercado de trabalho e seu desenvolvimento intelectual e cultural. Em torno dessa problemática perguntei a Fátima Bessa se na época do MOBRAL, em Morada Nova, havia muita evasão e qual era a maior dificuldade dos alunos na aprendizagem, ela avaliou que:
[...] Agente contava com um número de evasão bem significativo, principalmente na zona rural, aqui no Perímetro nem tanto porque as escolas eram dentro dos próprios núcleos habitacionais. Tem os setores, dentro de cada setor tinha uma sala de aula e ai agente não tinha muito problema, mais na zona rural do município como um todo havia esse problema da evasão por conta do cansaço, da idade das pessoas, muitos começavam e não concluíam[...] Eu considerava a maior dificuldade deles era a coordenação motora, em que muitos não sabiam nem pegar no lápis e fazer o movimento, e a outra era a visão por causa da idade, cansaço.
(Fátima Bessa foi Diretora e Alfabetizadora do MOBRAL em Morada Nova).
Muitos desses pontos relatados são até hoje enfrentados por diversas pessoas que tem que estudar na EJA, dificuldades essas que muitas das vezes os tornam pessoas com baixa estima e sem maiores perspectivas de vida atrapalhando no seu desenvolvimento pessoal e social, numa sociedade letrada.
O MOBRAL exerceu seu papel de tentar erradicar o analfabetismo não só nos perímetros de Morada Nova, mais também se estendeu a várias comunidades rurais entre elas, o Poço da Pedra que fica depois do Roldão distrito do município, levando às pessoas moradoras de lá o acesso a aprendizagem, nesse processo participou ativamente a professora Maria do Salete Chaves, a mesma residia na comunidade, vindo a exercer um papel fundamental de alfabetizadora nessa localidade. A mesma relatou:
[...] Quando eu estudava no 5º ano de estudo minha professora me chamou para conseguir uma cadeira na prefeitura para ensinar, naquele tempo fazia-se uma prova chamada de admissão, era uma redação, a redação tinha grande peso e eu consegui tirando dez na redação, então passei a ensina [...] Comecei a ensinar aos 18 anos na minha própria casa no Poço da Pedra depois do Roldão, na década de 70 ensinava o 3º e 4º ano, naquela época ensinava-se numa sala da própria casa e tinha uma pouca ajuda da prefeitura, com o tempo minha mãe teve a idéia de construir uma salinha para eu dar aula, com a ajuda dos vizinhos, eles ajudaram na construção da salinha. (Salete Chaves foi alfabetizadora do MOBRAL no Poço da Pedra)
Compreendo que devido à dificuldade de formação docente, com a 5ª série alguém poderia ensinar aos que não sabiam e que as professoras, iniciavam
seus trabalhos bem jovens, ainda adolescentes. Pelo depoimento, também se constata o reduzido número de escolas rurais.
Na década de 1970 nas áreas rurais de Morada Nova a aprendizagem se dava de forma lenta e com condições bem precárias, a metodologia aplicada era de forma bem tradicional e com métodos bem antigos. Como afirma Salete Chaves ao ser questionada como acontecia a metodologia e aprendizagem:
[...] A metodologia era muito simples, mandava-se fazer o alfabeto, depois ensinava o nome, ensinava a cobrir, alguns não sabia nem cobrir, não conseguia pela falta de coordenação motora, fazia ditado, cópias, pegava um texto e copiava o texto na leitura eu lia para os alunos duas, três vezes depois pedia para eles lerem. Naquela época ensinava até os modos de se comportar, como a postura, os modos de se sentar [...] ensinava-se pelas cartinhas e tabuadas começava a trabalhar com a letra A e explorava as palavras que começava com a letra A e assim por diante. (Salete Chaves foi alfabetizadora do MOBRAL no Poço da Pedra).
Vê-se a contradição dos depoimentos das professoras, pois segundo a professora Salete, não se usava o método Paulo Freire.
Nesse sentido as áreas rurais aparecem com maior índice de analfabetismo por falta de investimentos e de acesso as escolas, com isso passam a ser mais vulneráveis a fracassos escolares e aprendizagem não satisfatória.
Com uma população que na grande maioria vive em situação de pobreza, o meio rural, tenta de diversas formas buscar maneiras para superar os obstáculos que os impedem de prosseguir com seus estudos.
[...] Os alunos eram pessoas muito humildes, muitos tinham as mãos calejadas. Eles eram obedientes, ajudavam a mim nas atividades da salinha colocavam água nos potes, pois aquilo o estudo era novidade para eles e eles gostavam. (Salete Chaves foi alfabetizadora do MOBRAL no Poço da Pedra em 1983) [...] Naquele tempo eles não se evadiam por que queriam aprender e também para poder votar (Salete Chaves foi alfabetizadora do MOBRAL no Poço da Pedra
Mais uma vez constata-se que há contradição com o depoimento de Salete, pois a mesma confirmou que havia evasão. Assim infere-se que talvez em algumas localidades tenha acontecido mais que outros.
O estudo mostra mesmo para aqueles indivíduos com poucas instruções, que o ensino e a melhor maneira de conquistar certas condições, e o quanto eles podem conquistar seu espaço na sociedade e melhorias para suas vidas.
Com o passar dos anos novas iniciativas foram surgindo a fim de ampliar a educação na cidade no intuito de melhorar o ensino e de possibilitar novos
métodos de ensino as pessoas, nisso surgiu depois do MOBRAL, á Fundação Educar no qual veio atender não só a educação de jovens e adultos em geral. Como coloca Dona Fátima Bessa:
Eu me engajei no MOBRAL, em 1974, e fiquei até por volta de 1978, por que ai o MOBRAL foi extinto e veio a Fundação Educar que também era outro movimento de educação de jovens e adultos e com a Fundação Educar vieram outros programas, como programas de alfabetização de crianças através de creches e programas de educação sanitária que orientava também para questão da saúde, com os cuidados do dia- a- dia, das pessoas com o corpo, com a casa, com a alimentação, foi assim eu considero que foi um movimento fortíssimo embora a mídia nacional considere que não teve o êxito pretendido. (Fátima Bessa foi Diretora e Alfabetizadora do MOBRAL em Morada Nova).
Os programas de educação foram de grande importância para muita gente na cidade, pois atendeu de certa forma as carências de aprendizagem que muitas pessoas tinham, deixando algum conhecimento que pudesse lhe ser favorável na suas vidas.
Nesse processo de educação só foram surgindo mais e mais projetos de educação que diminuísse o índice de analfabetismo no município, em 1996 passou a existir o Programa Alfabetização Solidária que tinha a finalidade de acabar com o analfabetismo nos municípios do Brasil e que atuou também em Morada Nova trabalhando em torno dessa problemática, vindo a surgir mais adiante em 2003 o Programa Brasil Alfabetizado, que até hoje, esta em funcionamento.
Desse modo a Educação de Jovens e Adultos em Morada Nova é uma realidade que reflete mais as iniciativas da União, que do próprio município.