1. RESILIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE
1.2 Resiliência e as adversidades humanas
Muitos momentos da vida são muito duros, complicados, tristes e podem derrubar uma pessoa para sempre. É difícil encontrar um sentido para muitas das coisas que acontecem, mas neste processo de busca de sentido, pode-se surgir um momento de despertamento e de reflexão. “Uma crise pode ser um chamado para despertar, aumentando nossa atenção para o que realmente importa em nossas vidas”. (WALSH, 2005, p.7).
A crise pode ser um momento de reflexão que nos faz priorizar o que realmente for relevante para nossas vidas. Espiritualmente falando um momento da vida que nos leva a buscar a Deus. Psicologicamente falando um momento que nos faz cair o auto-engano, a nos enxergarmos.
“Crise significa no grego (krisis ou krínein) a decisão num juízo. Toda situação de crise, para ser superada, exige uma decisão”. (BOFF, 2011, p.28). A crise traz a possibilidade de decisão, ou seja, é um momento crucial de transformação.
A origem filosófica da palavra crise é extremamente rica e encerra o sentido originário de crise. “A palavra sânscrita para crise é kri ou kir e significa “desembaraçar” (scatter, scattering), “purificar” (poring out), ‘limpar”. O português conservou ainda as palavras acrisolar e crisol d4rque guarda a nítida reminiscência de sua origem sânscrita. A crise age como um crisol (elemento químico) que purifica o ouro das gangas; acrisola (purifica, limpa) dos elementos que se incrustaram num processo vital ou histórico [...]. (BOFF, 2011, p.27).
Crise é um momento de purificação necessário para o nosso crescimento e amadurecimento. “Todo processo de purificação implica ruptura, divisão e descontinuidade”. (BÜCHSEL apud BOFF, 2011, p.27).
A angústia é um momento de desespero, mas também uma abertura, para se fazer escolhas e também para se ter esperança. “A esperança é superior à
angústia”. (BLOCH apud MOLTMANN, 1997, P.54). “A angústia é a irmã natural e inevitável da esperança”. Não se aprende a esperança rejeitando a angústia ou ignorando os perigos. (MOLTMANN, 1997, P.54). Ainda citando Moltmann:
A angústia - anxietas -, contrariamente, amarra a garganta de uma pessoa e sufoca-a. A esperança - Spes -, pelo contrário, faz respirar livremente. A angústia faz ficar fraco, pequeno e feio. Na força da esperança, porém, ergue-se a cabeça e aprende-se a andar em pé. Tem-se angústia frente à prisão e à morte. A esperança, no entanto quer vida e liberdade. (Moltmann, 1997, P.53).
Não existe esperança sem angústia, como Albert Camus dizia no seu livro: O Mito de Sísifo “não existe sol sem sombra”. Desta forma, observa-se que possibilidade da esperança e de sentido para a existência nasce das situações de crise, das pedras que rolam do topo da montanha.
Somos interrogados pela vida e precisamos responder a estas questões, vivendo de forma autêntica e assumindo a responsabilidade pelas nossas escolhas. “Uma crise pode ser um chamado para despertar, aumentando nossa tensão para o que realmente importa em nossas vidas. Uma perda dolorosa pode nos impulsionar para direções novas e imprevistas”. (WALSH, 2005, P.7).
Percebe-se que a crise existencial ou “frustração existencial” é um questionamento de valores sobre o propósito da vida. [...] “cada pessoa é questionada pela vida; e ela somente pode responder à vida respondendo por sua própria vida”. (FRANKL, 2003, p.98). O indivíduo somente pode responder as questões que a vida coloca, a partir do momento em que ele assume a responsabilidade perante sua existência.
“A frustração existencial em si mesma não é patológica nem patogênica. A preocupação ou mesmo o desespero das pessoas sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial, mas de forma alguma uma doença mental”. (FRANKL, 2003, p.94). A crise existencial é um momento constitutivo do nosso ser.
Engajar-se para buscar um sentido maior para nossa existência é uma condição sine qua non para que possamos enfrentar a angústia e transcendê-la. “Quem tem um por que viver enfrenta quase qualquer como”. (FRANKL apud NIETZSCHE, 2003, p. 95).
Segundo Walsh (2005, p. 53), o significado de adversidade varia entre as culturas. Adversidade é sinônimo de infortúnio ou revés. Mas também costuma ser entendida como derrota, principalmente quando significa perda de controle de algo ou a não realização de desejos pessoais.
Hurding mostra que Frankl é um individuo que entendeu bem o que é adversidade. O autor procurou estabelecer uma psicoterapia que fosse construída sobre os alicerces da psicanálise de Freud e da psicologia individual de Adler. Essa "Terceira Escola Vienense de Psicoterapia" oferecia as terapias afins da análise existencial e da logoterapia. Ele mostra que antes de examinar mais detidamente as pressuposições, os objetivos e os métodos de Frankl, talvez seja útil fazer uma distinção entre esses aspectos duplos de seu enfoque terapêutico. (HURDING, 1995 p.148).
A expressão "análise existencial" foi empregada pela primeira vez por Frankl e outros estudiosos em 1938, e é usada para interpretar o que significa para um paciente ser humano sob o aspecto do sentimento de responsabilidade. A pessoa analisada é incentivada a se fazer clara no que diz respeito à "espiritualidade, liberdade e responsabilidade". Considera a análise existencial uma "antropologia psicoterapêutica" que "precede toda psicoterapia” (FRANK, 2003 apud HURDING, 1995 p.148)
Para Frankl (1990 p.48), que buscou desenvolver, ao longo de sua obra, uma ótica existencial da espiritualidade onde afirmava que uma missão a cumprir na vida, um sentido a realizar (ou o que chamamos aqui de bem-estar existencial), influenciava sobremaneira a saúde geral da pessoa. Essa missão poderia ser um objetivo de vida adequado, alguém que se ame ou um trabalho a desenvolver, em suma, uma atividade externa ao indivíduo que esteja de acordo com suas aptidões, que ele seja capaz de enfrentar e que lhe ofereça desafios permanentes. Frankl Ilustra essas considerações com a situação de campo de concentração, onde sobreviviam e se mantinham íntegros aqueles que possuíam uma visão positiva da vida e do mundo (mesmo frente a condições tão desfavoráveis).
Existem várias categorias dos sofrimentos: instabilidade familiar e matrimonial, morte, patologias (doença, depressão) e carências econômicas (pobreza, fome), são apenas alguns exemplos. No livro Morte na Família - Sobrevivendo às Perdas, as autoras Walsh e McGoldrick (2005, p.27), falam de uma
das mais fortes adversidades mencionadas nas categorias acima: “a própria morte” e ainda aponta que:
O tema da morte é o ultimo tabu no campo da terapia de família. Nossa teoria, pesquisa e prática, confrontaram problemas intimidantes como a esquizofrenia, o abuso de substâncias, a violência familiar e o incesto, e, ainda assim, raramente abordamos o tópico da perda. De todas as experiências da vida, a morte impõe os desafios adaptativos mais dolorosos para a família como sistema e para cada um de seus membros individualmente, com ressonâncias em todos os seus outros relacionamentos. A negação da morte em nossa sociedade aumenta esta dificuldade. (WALSH, 2005, p.27)
A partir desse ponto pode-se trabalhar o aspecto da terapia familiar, pois a noção da resiliência familiar, propriamente dita, é aquela que concerne os recursos do grupo familiar por ele mesmo enquanto conjunto, e pelos membros que o constituem. Ela é objeto de uma pesquisa específica, enriquecida pela experiência e reflexão teórico-clínica, no campo das terapias familiares.
O luto é um sentimento humano de pesar pela morte de outro ser humano, e tem diferentes formas de expressão em culturas distintas. O uso da cor preta, por exemplo, pode indicar que um indivíduo ou grupo está em luto. Antigamente, quando um familiar morria, as pessoas usavam roupas pretas para demonstrar seus sentimentos pelo seu ente querido. A espiritualidade entra como aspecto positivo na resiliência ao luto na consolação que oferece, pois a morte faz parte da existência de todos nós, faz parte do mistério da vida. Somos seres mortais. Ninguém vive para sempre neste mundo. Tudo é passageiro e temporário, como diz o Salmo 90 (BÍBLIA SAGRADA, 1999).
Assim as palavras podem de Jesus podem trazer grande consolo para o indivíduo e a família que sofre: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente” (Jo. 11.25-26) (BÍBLIA SAGRADA, 1999),