CAPÍTULO 3 – Abordagem Paradigmática “LARG” à Gestão da Manutenção
3.3. LARG (Lean, Agile, Resilient e Green) 48
3.3.3. Resilient 63
Resiliência significa capacidade de superar e recuperar de adversidades. Ou seja, a capacidade de, após um momento de adversidade, conseguir adaptar-se ou evoluir positivamente frente à situação.
Para a Física, resiliência significa a capacidade de um material voltar à sua forma original ou posição, após deformação que não exceda o seu limite de elasticidade, ou seja, readquirir
integralmente as suas propriedades depois de um agente externo cessar a sua ação. Contudo, na prática estas ações suprimem ou acrescentam alguma propriedade.
Para Haldar et al. (2012), resiliência é também a capacidade de um sistema retornar ao seu estado original (ou desejado) depois de ser perturbado. Nos últimos anos, o conceito de resiliência tem vindo a ser considerado como um aspeto importante no domínio da investigação sobre catástrofes no seio da indústria da produção e serviços. Nomeadamente, o conceito de Resilient tem envolvido estudos e investigações na área das cadeias de abastecimento da indústria (Cruz- Machado e Duarte, 2010; Haldar et al., 2012; Carvalho et al., 2012).
Nos últimos anos, aconteceram muitos desastres imprevistos, incluindo ataques terroristas, guerras, tremores de terra, crises económicas, tsunamis, greves, ataques de vírus a computadores, furacões, tempestades, condições meteorológicas extremas, epidemias, instabilidades políticas, vandalismo, roubos, entre outros. O número de desastres naturais e gerados pelo homem aumentou significativamente nos últimos anos.
Em Cruz-Machado e Duarte (2010) é referido que os mercados de hoje são caracterizados por um elevado nível de turbulência e volatilidade, e quando as maiores ruturas ocorrem, muitas cadeias de abastecimento tendem a romperem-se, levando muito tempo para recuperar. A resiliência pode potencialmente ser uma vantagem competitiva das organizações para responderem mais favoravelmente aos distúrbios, que os concorrentes no mercado.
Segundo Cruz-Machado e Duarte (2010) o paradigma Resilient foca como uma organização resiste bem aos distúrbios e como rapidamente retorna ao seu estado normal ou se move para um novo estado desejável (conveniente). Contudo, estes autores referem que é impossível controlar todos os fatores de risco e acidentes que eventualmente podem acontecer.
A resiliência pode ser considerada como uma integração do conceito tradicional de resistência, definido como medida que melhora o desempenho dos elementos de um sistema, para reduzir perdas após uma catástrofe. Porém, enquanto a resistência enfatiza a importância da atenuação pré-catástrofe, o conceito de resiliência estende essas ideias, a fim de incluir também melhorias na flexibilidade e desempenho de um sistema durante e após uma catástrofe (Haldar et al., 2012). Será portanto, possuindo resiliência que um sistema reage contra a ação de um distúrbio ao seu normal funcionamento e/ou recupera após a ação do distúrbio.
Na base destas ideias, a resiliência da manutenção pode ser definida como a capacidade de resposta para reduzir as probabilidades de interrupção dos sistemas (ativos físicos), para reduzir as consequências dessas perturbações após a sua ocorrência e para reduzir o tempo de recuperação dos sistemas a voltarem à normalidade.
A resiliência é também a capacidade da manutenção para lidar com problemas inesperados. Contudo, o conceito de resiliência estende-se para além da agilidade, pois considera a capacidade que a manutenção pode deter para fazer frente a situações disruptivas e distúrbios inesperados nos sistemas.
Para além da agilidade, para permitir respostas rápidas e eficientes no caso de alterações inesperadas dos sistemas produtivos, Baptista et al., (2011), referem que as equipas de manutenção deve também ser capacitadas para dar resposta a eventuais catástrofes ou sobrecargas na utilização desses sistemas. Os autores referem-se à capacidade de resiliência que a manutenção deve deter para assistir e resolver situações disruptivas graves dos sistemas produtivos ou mesmo de instalações na prestação de serviços. Surge assim o conceito Resilient Maintenance.
Portanto, a manutenção deve estar capacitada para se adaptar a essas alterações e adversidades, também com capacidade técnica e competência, eventualmente para atuar sob pressão, sendo um suporte face à imprevisibilidade de situações de rutura e problemas que afetam os ativos das organizações. Os distúrbios inesperados podem ser “curados” com ações corretivas de emergência, para as quais, a manutenção deve estar, minimamente, prevenida com o conhecimento para atuar com eficiência e possuir ou facilmente adquirir os materiais necessários. Para deter resiliência, a manutenção deve possuir o inventário suficiente para reagir aos efeitos de rutura, de situações disruptivas e poder recuperar de adversidades.
Uma manutenção Resilient, está capacitada para dar resposta a eventuais acidentes, catástrofes ou mesmo sobrecarga dos serviços ou utilização. Será uma manutenção com capacidade de se adaptar a mudanças ou alterações do seu padrão normal de atuação e responder com eficiência na resolução dos problemas causados por acidentes graves.
A manutenção deve tornar-se resiliente para se tornar resistente às adversidades do seu meio. Uma manutenção Resilient estará dotada de conhecimentos e meios, e habilitada de procedimentos, intervindo para que os equipamentos e sistemas possam readquirir integralmente as suas propriedades anteriores ou, em caso dessa impossibilidade, retornar ao melhor equilíbrio funcional possível.
Num momento de adversidade num edifício, a devida resiliência das equipas de manutenção permitirá lidar com problemas sob pressão mantendo o equilíbrio das operações necessárias com segurança para os trabalhadores, utentes e/ou intervenientes.
A prontidão e rapidez da manutenção Resilient não devem suprimir procedimentos de segurança. Independentemente da situação em que os trabalhos são realizados, a resiliência das equipas de manutenção só é assegurada se não forem descurados os conceitos e normas de segurança inerentes a todas as atividades. Figueira et al. (2012) referem que é fundamental um cuidado especial com os fatores humanos perante uma postura Resilent. Essas questões devem ser analisadas para evitar problemas de saúde e segurança aos trabalhadores. As organizações devem estabelecer planos na vertente da segurança dos trabalhadores, relacionada com a ergonomia, precauções contra incêndios, proteção de segurança nos equipamentos, formação nos trabalhadores para atuar em casos de emergência, entre outros aspetos do âmbito da segurança, saúde e higiene no trabalho.
O interesse em solucionar e resolver problemas, por parte dos colaboradores, é fator determinante para o aumento da resiliência das equipas de manutenção. Portanto, os fatores humanos que influenciam o interesse e empenho dos colaboradores devem ser assegurados. Com colaboradores interessados conseguem-se melhores desempenhos e aproveitamento do seu trabalho. É importante incentivar os colaboradores, proporcionando ambientes de trabalho adequados e promovendo a sua autoestima no seio das organizações.
O uso de metodologias e ferramentas inovadoras de potencial reconhecido pode estimular os colaboradores a desenvolverem um trabalho de qualidade, alargar horizontes, criar oportunidades e beneficiar as organizações com os seus contributos. A resposta de um colaborador interessado no trabalho que realiza vai refletir melhores resultados no contexto do negócio da organização em que trabalha. A resiliência também se adquire a partir da melhoria contínua do desempenho dos trabalhadores, assegurando condições de manutibilidade dos ativos e instalações, com um adequado e seguro ambiente de trabalho, entre outros.
Seguindo o conceito de Lean Maintenance, os tempos dedicados às atividades da manutenção devem ser reduzidos ao mínimo. Contudo, se as ações não corresponderem aos requisitos de manutenção necessária, os equipamentos e instalações podem entrar em rutura. Na integração dos paradigmas LARG, as operações de manutenção devem ser otimizadas para garantir a correta funcionalidade dos ativos.
A suscetibilidade, vulnerabilidade e fragilidade das atuações da manutenção podem condicionar negativamente as funcionalidades dos edifícios, a sua imagem, o conforto e a segurança dos seus utentes. Portanto, a gestão da manutenção deve analisar e ponderar as possíveis catástrofes, acidentes e situações disruptivas dos sistemas e ativos da sua responsabilidade, por forma a prevenir-se com a capacidade técnica, munir-se de ferramentas e equipamentos necessários e prover-se do inventário indispensável. Na base de uma filosofia Lean, a posse de sobressalentes em número desmesurado constitui desperdício que não acrescenta valor à organização, pelo contrário, adiciona custos.
A gestão da manutenção deve tomar uma postura estratégica relativamente à sua resiliência, nomeadamente, de acordo com os objetivos e estratégias traçados para o negócio da organização. Uma organização resiliente estará atenta ao mercado em que o seu negócio se insere, terá expectativas e estratégias face à competitividade percebida e aos sinais das mudanças e exigências dos seus clientes. E, portanto, deve antecipar-se continuamente, alterar as suas estratégias, agir proativamente e adaptar-se às novas realidades. Logo, a gestão da manutenção Resilient deve, numa perspetiva estratégica, adaptar-se e de forma proativa criar as condições de resiliência necessárias para manter e recuperar os sistemas e ativos da organização face às potenciais adversidades e/ou situações disruptivas. A análise de avarias deve ser uma constante preocupação da manutenção, assim como a eficiência das suas ações corretivas. Nos casos em que a especialização técnica é exigente, não compensando economicamente deter profissionais altamente qualificados, as ações de manutenção podem ser asseguradas por
fornecedores de serviços exteriores, quer através de contrato para ações regulares, quer através da prestação de serviços pontuais. Neste último caso, deve ser ponderada a flexibilidade na aquisição e/ou contratação desses serviços de manutenção de forma a estar assegurada a resolução de eventuais ruturas nas instalações.
A gestão da manutenção deve medir o seu desempenho no âmbito do paradigma Resilient para compreender a sua capacidade de resposta e assegurar a sua eficiência nas situações de adversidade descritas anteriormente. O conceito Resilient requer proatividade e pretende que a manutenção não se apegue apenas ao passado, porém, para se fazerem previsões, para acautelar competências e serem tomadas iniciativas é preciso conhece-lo. A análise do desempenho da manutenção pode contribuir e providenciar o conhecimento para a sua resiliência. A formação técnica, a experiência acumulada, o treino e a simulação de episódios disruptivos para a manutenção, são aspetos fundamentais e a considerar para a devida resiliência das equipas de manutenção.
Os simulacros partem de uma situação fictícia e, no caso dos edifícios, servem para teste de planos de emergência internos e treino dos ocupantes com vista à criação de rotinas de comportamento e aperfeiçoamento de procedimentos (Caramujo, 2012). A realização de simulacros periódicos, envolvendo a manutenção, deverá ter o objetivo de avaliar a precisão e eficácia das medidas acauteladas e simultaneamente alertar as equipas de manutenção para eventuais alterações, detetar possíveis correções, treinar e melhorar o seu plano de atuação face às situações simuladas.
As “medidas de auto proteção” estabelecidas pelo Regulamento Técnico de Segurança Contra Incêndios em Edifícios (Portaria n.º 1532/2008 de 29 de Dezembro) são um exemplo de medidas legislativas que contribuem para atribuição de aptidão e resiliência na manutenção e segurança em edifícios. Estas medidas de auto proteção vêm exigir a formação e o treino dos utilizadores de determinados edifícios para superar as adversidades face a um possível incêndio. Por exemplo, é necessário dar formação aos funcionários de hotéis de modo a assegurar eventuais atuações em caso de incêndio, disparo de alarmes, parametrização e programação de alarmes, avarias de equipamentos e manutenção dos mesmos, entre outros. De um modo geral, estas medidas de auto proteção são da responsabilidade dos serviços da manutenção.
O paradigma Resilient fornece um conceito fundamental para a gestão da manutenção conter, superar e recuperar de adversidades, sendo assim uma vantagem competitiva das organizações para responder mais favoravelmente a situações disruptivas que possam ocorrer, nomeadamente perturbando os serviços prestados e envolvendo as instalações em edifícios.