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A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO DIREITO DE RESISTÊNCIA

2.3 A institucionalização da resistência

2.3.1 Resistência moderna

A resistência somente é dotada de significado real na era moderna, quando houve clara definição das perspectivas paralelas dos direitos do homem e do Estado. Essas perspectivas são reveladas por regras constitucionais, e a resistência passa a exercer um papel explícito no interior da ordem constitucional. Isso significa que se de um lado o Estado não pode mais ser absoluto, de outro a sociedade também tem direitos e obrigações com o Estado e consigo mesma. Antes da era moderna, não estavam criadas as condições de interação entre liberdade individual e poder político. Aduz-se que, durante esse período histórico (pré-modemo), a resistência tenha sido exercitada de forma impotente, logrando potência e legitimação a partir do momento em que os direitos da sociedade foram apontados como distintos dos do Estado. Desse modo, o conceito de resistência somente teve maturidade e desenvolvimento na teoria moderna devido à demarcação dos "territórios" teórico-jurídicos dos direitos individuais e do

Estado, que toma possível o conceito do "contrapoder" do indivíduo ao Estado. Da mesma forma, a institucionalização da resistência necessitou historicamente da estrutura moderna de Estado, que reúne certas características, como os limites de ação do governante e o catálogo de direitos do homem. As supostas restrições desses pólos entre si formam o "espaço de manobra" das liberdades individuais. A liberdade toma relevo, de fato e de direito, como limite do Estado. Estabelecem-se as partes com direitos e obrigações, do ponto de vista do governante ou do governado, relação que Bobbio denomina ex parte populi ou ex parte principis^76). Na primeira parte, o poder popular é a questão central, sendo o

embrião do Estado moderno em decorrência da sua auto-organização social e com a faculdade de invocar o direito de resistência para subjugar a opressão e a tirania. Já na segunda parte, o poder se desloca para o aparelho de Estado, por quem se posiciona ao lado do príncipe e impõe ao povo o dever da obediência. Desse modo, se apresenta não tanto a quem, detendo o poder, tem o monopólio da força, mas àquele que renunciou ao pacto político. Entre uma e outra perspectiva, em regra, sempre opera de forma diferente, ex parte populi se preocupa com a questão das liberdades públicas e com os direitos fundamentais, enquanto ex parte principis se ocupa com a governabilidade e com problemas práticos da tutela estatal dos direitos reconhecidos.

A exteriorização dos fatos revolucionários ligados à Revolução Francesa e à Independência Americana, juntamente com o advento do fenômeno constitucional, torna o direito de resistência mais estável quanto à sua conceituação(177). A resistência política desses processos históricos baseava-se teoricamente no modelo jusnaturalista materializado em documentos solenes (Declaração e Constituições), de caráter internacional e nacional, como:

a) - A C onstituição dos Estados Unidos da América, de 1787: no preâmbulo, declara solenemente o direito de resistência(178). Nas suas dez primeiras emendas, aprovadas em 1789 e ratificadas em 1791, pretendeu-se

177 Contudo, antes do "fenômeno constitucional" a Polônia já havia positivado o direito de resistência na sua Constituição, em 1607.

178 Constituição dos Estados Unidos da América. Rio de Janeiro: Ed. Trabalhistas, 1986, pg. 03. "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se tome destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterâ-la ou aboli-la, e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e felicidade’

limitar o poder estatal estabelecendo a separação dos poderes estatais e os diversos direitos fundamentais.

b) - A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789: esse evento histórico declara os princípios da liberdade política que dá fim ao Antigo Regime e inaugura o Estado Constitucional, mediante um rol de direitos universal da pessoa humana(179). Antes, os direitos eram restritos às castas e não possuíam as especificações universais como conhecemos na modernidade. Eis a declaração expressa no art. 2o: "A finalidade de toda associação é a conservação dos direitos naturais e imprescindíveis do homem; esses direitos são a liberdade, a segurança e a resistência à opressão".

Junto ao direito de resistência postula-se o direito de revolução, no Preâmbulo da Declaração também, quando se declara que "se quer evitar que o homem seja obrigado, como última instância, à rebelião contra a tirania e opressão". Isto é, se as circunstâncias o exigirem, o homem é levado à revolução.

c) - A C onstituição Francesa, de 1793, expressa um catálogo de direitos fundamentais(180), como a resistência à opressão, igualdade, liberdade,

179 Além de declarar os princípios da igualdade, da legalidade, da propriedade, da segurança, da associação política, da reserva legal e anterioridade em matéria penal, da presunção de inocência, da liberdade religiosa e livre manifestação de pensamento.

180 A Constituição Francesa, de 24 de junho de 1793, estabelecia no seu preâmbulo: “O povo francês, convencido de que o esquecimento e o desprezo dos direitos naturais do homem são as causas das desgraças do mundo, resolveu expor, numa declaração solene, esses direitos sagrados e inalienáveis, a fim que todos os cidadãos podendo comparar sem cessar os atos do governo com a finalidade de toda a instituição social, nunca se deixem oprimir ou aviltar pela tirania; a fim de que o povo tenha sempre perante os olhos as bases da sua liberdade e da sua felicidade, o magistrado a regra dos seus deveres, o legislador o objeto da sua missão. Por conseqüência, proclama, na presença do Ser Supremo, a seguinte declaração dos direitos do homem e do cidadão”. No art. 11, da Constituição expressa o direito de resistência: 'Todos os atos exercido contra um homem que a lei determina arbitrária é tirânica; contra o qual a vontade para executar pela violência o direito de reparar pela força. Já no art. 35, aparece expressamente o direito à revolução: "Quando o governante viola os direitos do povo, a insurreição toma-se para o povo o mais sagrado dos direitos e o mais indispensável dos deveres".

segurança, propriedade, legalidade, livre acesso aos cargos públicos, livre manifestação de pensamento, liberdade de imprensa, presunção de inocência, devido processo legal, ampia defesa, proporcionalidade entre delitos e penas, liberdade de profissão, direito de petição, direitos políticos. Quanto ao direito à revolução, é a primeira Constituição a reconhecer esse direito no pensamento jurídico moderno.

Os princípios centrais desses documentos políticos podem ser resumidos em duas formas: 1) todo ser humano tem certos direitos que lhe são inerentes. Trata-se de uma justificativa jus-filosófica; os direitos básicos de todo cidadão são irrevogáveis ou inalienáveis, isto é, tais direitos não podem ser anulados ou negados, nem pelo Estado nem pelos próprios indivíduos envolvidos. Tais direitos podem ser especificados e adquiridos por serem inerentes a todas as pessoas, em virtude de sua condição humana. Isso caracteriza o direito de resistência à opressão como fruto da liberdade individual, e não mais como dever de obediência; 2) prenunciam tais direitos o princípio de que o governo é para o indivíduo, e não o indivíduo para o governo, princípio esse que exerce grande influência não apenas sobre todas as constituições, mas também sobre a reflexão sobre o Estado(181). O direito de resistência, na perspectiva jusnaturalista, não é mais um direito natural não protegido, mas um direito protegido dentro do próprio sistema jurídico moderno.

A sociedade moderna vivência inúmeros atos de resistência, impulsionada pelos ritmos da transformação social e política. A Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, como também a Declaração Universal dos

Direitos do Homem e do Cidadão, desata as forças do Estado de Direito e da democracia liberal graças, em parte, às idéias de Locke. Abstraindo-se a concepção lockiana desses contextos não se tem uma identidade e práticas definidas que introduzem maior fluidez teórica sobre a resistência. Na Declaração Francesa, a resistência à opressão é enumerada entre os quatro direitos naturais e imprescritíveis do homem. As demais "Declarações de Direitos" que ocorreram após a Revolução Francesa introduziram, no discurso político-jurídico, o direito de resistência, inclusive, nas primeiras Constituições Francesas.

Esses documentos políticos estão alicerçados, em parte, pelo modelo lockiano. Eles representaram, de um lado, a limitação do poder do governante e, de outro, a declaração dos direitos do homem. Com isso, Locke antecipa a fórmula liberal do Estado moderno como potência soberana e legisladora e centro catalisador da unidade política de uma multiplicidade de indivíduos. Há de se destacar duas características fundamentais do liberalismo que contribuíram para a doutrina da construção política da constituição: uma, que a supremacia da lei culmina num dos pilares de apoio da corrente positivista, encontrando grande parte de suas raízes no liberalismo de Locke e nas codificações; a outra, na separação dos poderes que visam à garantia dos direitos. Porém, o tempo foi mostrando que a separação dos poderes não era suficiente para arcar sozinha com tal tarefa. Antes de ser um equilíbrio constitucional, representava um equilíbrio social das classes que disputavam o poder. Isso, antes de tudo, é uma reivindicação da ascendente burguesia pela segurança jurídica, já que essa não consegue desenvolver suas relações econômicas no esquema das antigas estruturas político-jurídicas.

Jefferson, ao redigir a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, inspira-se no Segundo Tratado de Locke, produzindo um documento de grande valor histórico e reafirmador dos direitos naturais inalienáveis. No seu prelúdio, declara que os homens foram dotados igualmente de direitos naturais e inalienáveis e que sociedades políticas foram criadas para assegurar essas garantias. Registra a “longa série de abusos e usurpações" do Rei da Grã- Bretanha, que constitui a maior parte da Declaração de Independência, apontando, assim, para a incapacidade daquele de proteger a vida, a liberdade e a propriedade dos "colonos" americanos<182).

Essa Declaração combina uma teoria contratual do direito natural com o pressuposto de que os colonizadores podiam não apenas abolir os vínculos com a Inglaterra e legitimamente instituir um Estado livre, como também "declarar a guerra, concluir a paz, contratar alianças, estabelecer comércio e praticar todos os atos e ações a que têm direito os Estados independentes. E em apoio a esta declaração, plenos de firme confiança na proteção da divina providência, empenhamos mutuamente nossas vidas, nossas fortunas e nossa sagrada honra"(183). Assim, em plena Revolução Americana a Declaração do Estado de Virgínia, de 1776, consignou fórmula similar extraída da Declaração da

182 Declaração da Independência dos Estados Unidos. "A história do atual Rei da Grã-Bretanha compõe-se de repetidos danos e usurpações, tendo todos por objetivo direto o estabelecimento da tirania absoluta sobre estes Estados. Para prová-lo, permitam-nos submeter os fatos a um cândido mundo: Recusou assentimento a leis das mais salutares e necessárias ao bem público (...). Dissolveu Casas de Representantes repetidamente porque se opunham com máscula firmeza às invasões dos direitos do povo (...). Dificultou a administração da justiça pela recusa de assentimento a leis que estabeleciam poderes judiciários. Tomou os juizes dependentes apenas da vontade dele para gozo do cargo e valor e pagamento dos respectivos salários

Independência dos Estados Unidos(184).

Torna-se importante observar que, na Declaração, além do firme propósito político de criar um Estado livre, aparecem os elementos do progresso social a partir de um conceito individualista de homem. O reconhecimento do direito de resistência surge em momentos de reafirmação da independência contra o jugo inglês não apenas como direito, mas também como dever, pois o povo não pode contar com outras forças senão as suas.

Coincidência histórica ou não, a luta da independência americana se trava contra a Inglaterra, país esse com larga tradição de luta pelos direitos do homem, pioneiro no sentido de consecução de direitos frente ao poder do Estado, sendo a Magna Carta de 1215 uma das primeiras demonstrações palpáveis da limitação ao poder do monarca oriunda de conflitos entre o rei e os barões(185). A Inglaterra também inova ao elaborar a primeira Constituição escrita, denominada Instrument of Government (1652), surgida na curta experiência republicana sob a liderança de Cromwell. Tal criação não seria benéfica somente para aquele país, servindo- lhe de alicerce para futuras conquistas, como se prestou ao importante papel de protótipo da Constituição dos Estados Unidos, em 1787(186).

184 A Colônia de Virgínia, em 12 de junho de 1776, proclamou a famosa BillofRights, contendo em seus dezesseis artigos um grupo de direitos e garantias constitucionais capazes de imprimir respeito aos direitos, sendo este o primeiro texto legal relativo às liberdades públicas e que forneceu as bases para o desenvolvimento futuro das garantias constitucionais das liberdades. Em simetria com a Declaração da Independência dos Estados Unidos expressa: "(...) quando um governo resulta inadequado ou contrário aos fins de promoção da segurança e da felicidade, a maioria da comunidade tem o direito indubitável, inalienável e indefectível de reformá-lo, trocá-lo ou aboli-lo, de modo mais apropriado para o bem público”.

185 Esse fato representou o fim da Monarquia Absolutista e início da Monarquia Constitucional. A partir dessas lutas entre a nobreza e o poder real novas conquistas, surgiram novos documentos balizadores dos direitos do homem, como: Petition ofRights (1629), Habeas CorpusAct(1679) e BillofRights (1689).

186 ESMEIN, A. Elements de Droit Contitutionnel Français et Comparé, 6a ed. Paris: 1914, pgs. 577-578.

Surge, desses atos políticos modernos, o fenômeno constitucional. A racionalização jurídica do Estado foi sistematizada nas Constituições políticas e se deu basicamente com garantia de direitos e separação dos poderes. A própria Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estabelecia no art. 16 que "Toda sociedade, na qual a garantia dos direitos não é assegurada nem a separação dos poderes determinada, não tem Constituição". Essa tomada de consciência pelo pacto constitucional estabelece os condicionamentos da vida privada e pública para planejar, organizar e controlar o Estado e a sociedade.

O advento dos processos revolucionários (americano e francês) muda a teoria do direito de resistência, principalmente ao fixar sua natureza e ação. A resistência não mais precisa ficar restrita à simples "contestação", já que conhece, pela experiência, novas formas mais efetivas e mais radicais de mudanças do Estado.