Capítulo 1 – Alguns embasamentos sobre educação: Dewey, Papert e Resnick
1.1 Resnick e o Scratch: A Nova Linguagem da Educação
Em seu artigo Lifelong Kindergarten (2013), Resnick aborda sobre a questão de utilizar os conceitos da teoria de Friedrich Froebel na aprendizagem utilizada no jardim de infância, e que tal modelo de aprendizagem deve ser realizado e estendido durante a vida toda. A ideia é que, o uso das novas tecnologias pode transformar o modelo metodológico de aprendizagem que não valoriza a criatividade e nem a autonomia e a participação ativa e autoral dos estudantes no seu próprio processo de aprendizagem.
As escolas atuais, segundo Resnick (ibid), como o próprio Papert (2007), afirmou anteriormente, são obsoletas, não estão desenvolvidas para apoiar a formação de estudantes enquanto pensadores criativos e precisam adequar seu método em busca de soluções aos problemas inesperados, com ênfase no conceito de pensar e agir ativamente.
Resnick (2013), ao abordar a noção do kindergarten de Froebel, afirmou que o autor compreendeu esta ideia quando criou os chamados Froebel gifts, ou os dons de Froebel, segundo Arce (2002), que consistiam em objetos sólidos como blocos, esferas e formas geométricas que os jovens usavam para construir, desenvolver, criar e produzir sua aprendizagem. Estes objetos, criados por Froebel, permitiam às crianças aprender sobre as formas e modelos da natureza. Por fim Resnick afirma que estes dons foram
uma obra de Froebel, “making for makers7”, (RESNICK, 2013, p. 50), pois permitia aos jovens criar e executar suas ideias.
Portanto, Resnick (2013, p.50) afirma: “if we want children to develop as
creative thinkers, we need to provide them with more opportunities to create.8”
Transformar o modelo educacional torna-se o objetivo para buscar uma adequação que forneça ferramentas na efetivação de uma nova aprendizagem.
A reciprocidade entre fazer novas coisas no mundo e criar novas ideias permite correções, modificações, o aperfeiçoamento das próprias ideias, e consequentemente, a elaboração de novas ações e ideias, criando o que Resnick (2013, p. 51) chama de espiral sem fim “never-ending spiral”. Tal construção é a base do processo de aprendizagem do jardim de infância e também do processo de criatividade, já que as atividades feitas pelos jovens geram intuitivamente novas ideias constantemente para que haja uma retroalimentação através da internalização e da externalização de informações.
A imagem 2, representa uma concepção de espiral sem fim, criada pelo artista M. C. Ascher no ano de 1953, servindo de imagem para a compreensão do modelo de aprendizagem defendido por Resnick.
Imagem 2 – modelo de espiral infinita.
Fonte: Ascher, M. C. 1953 “Spirals” In M. C. Escher: Cycle, Spirals, and Snakes May 17 – September 27, 2008. Disponível em: <http://www.artistsmarket.com/escher_essays/cycleSpiralsSnakes> Site
consultado em 16 06-2015.
7 Construir para construtores (tradução livre).
8 Se queremos desenvolver crianças como pensadores criativos, precisamos lhes proporcionar mais
A reflexão ou questionamento que (RESNICK, 2013) faz é sobre a lacuna ou a interrupção deste processo que permanece apenas na infância, o autor afirma que há uma falta de apropriação e valorização do uso das tecnologias para desenvolver nos estudantes mais velhos atividades com formas, cores, figuras, tamanhos, que por sua vez são insuficientes por haver a necessidade de informações mais complexas e desafios maiores, pois ao substituir o modelo criativo, passam apenas a “entregar”9 informações abordadas na educação.
A utilização de tecnologias, segundo o autor, permitiria a continuidade do enfoque da aprendizagem do jardim de infância, permitindo o desenvolvimento dos pensadores criativos. Entretanto, atualmente as escolas fazem uso de diversas tecnologias, porém continuam “delivery information”, ou seja, utilizando o modelo tradicional e instrucionista que Papert critica, ao entregar informações prontas e predefinidas, não havendo a participação ativa dos estudantes na construção do conhecimento.
Portanto para (RESNICK, 2013, p. 52), a continuidade no processo de aprendizagem, seguindo o conceito de Froebel, utiliza computadores, circuitos e linguagem de programação, permitindo assim, uma continuidade em construir uma aprendizagem através da experimentação e da criação, transformando e motivando a aprendizagem dos jovens em um processo participativo que valorize a autoria e autonomia dos estudantes.
Atualmente, uma nova vertente da tecnologia passou a ser incorporada na discussão de novas formas de realizar o processo de ensino-aprendizagem, a linguagem de programação, antes ciência estritamente ligada à álgebra e geometria e de compreensão bastante complexa, atualmente passou a figurar como ferramenta de apoio ao professor para permitir aos jovens estudantes a possibilidade de aprender não apenas os conceitos de maneira não abstrata, ou o que são determinados conceitos. O uso da linguagem de programação permite a aprendizagem do processo de construção do conhecimento, como afirma Papert (2007).
O uso de linguagem de programação pode levar os estudantes a tomarem decisões e buscarem iniciativas para resolver seus problemas e assumir o comando de seu desenvolvimento intelectual, em que possam definir e redefinir seus papeis ao longo da vida e das suas necessidades.
9
Em 2007, no mesmo MIT, surge uma nova linguagem de programação, liderada pelo companheiro de Seymour Papert, Michel Resnick, juntamente com sua equipe de pesquisadores denominada lifelong kindergarten (jardim da infância ao longo da vida)10 desenvolvendo o Scratch, uma linguagem de programação visual, a qual não necessita a digitação de complexos comandos, ao contrário, através de seus blocos de encaixe, torna-se ideal para o trabalho com crianças a partir de oito anos de idade, já que dispensa qualquer conhecimento prévio de linguagem de programação.
O Scratch permite a criação de jogos, animações, histórias animadas, entre outros recursos que serão analisados ao longo desta dissertação, justificando sua importância, pois a sociedade emergente necessita de indivíduos capazes de se adequar a diversidade de situações do cotidiano e possam agir sobre elas, solucioná-las e transformá-las. 10 Tradução livre.