Joe Fassler
The New Food Economy
P
lantas frigoríficas podemter um novo aliado incomum e m s u a lu t a c o nt r a a s bactérias mortais: os crustáceos. De acordo com um novo estudo no International Food Journal of Microbiolog y, a quitosana, uma substância derivada dos exoesqueletos de cr ustáceos, reduziu drasticamente os níveis de Salmonella e E. coli detectados em carne moída crua.
A descoberta não poderia ser mais oportuna. No início de outu- bro, o Departamento de Agricul- tura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) ordenou uma retirada do mercado (recall) de quase 7 milhões de libras de carne moída potencialmente infectada com Salmonella, que segundo o USDA estava implicada em mais de 50 casos de doenças confirmados em 16 estados. Foi o maior recall deste tipo de todos os tempos, e provavelmente não será o último.
Como já relatei antes, a Sal- monella não é considerada um “adulterante” na carne sob a Lei Federal de Inspeção de Carnes (FMIA), por mais perigosa que seja. Como resultado, os frigorí- ficos não têm responsabilidade legal para testar pela presença de Salmonella, e a carne vendida no varejo pode contê-la. Na verdade, a segurança da carne crua – em relação a Salmonella - em grande parte se resume ao que você faz na cozinha de sua casa. Na visão do governo, cabe a você cozinhar
seu hambúrguer o suficiente para matar a ameaça bacteriana.
Me smo a s si m , em g r a nde s instalações dos Estados Unidos, como o frigorífico da JBS em Tol- leson, Arizona, responsável pelo recall mencionado, a maioria das carcaças de carne bovina é pasteu- rizada com vapor ou água quente e pulverizada com ácido láctico. Este método de esterilização pode reduzir signif icativamente as concentrações de Salmonella e E. coli. Mas se o recente recall é uma indicação, provavelmente não é o suficiente.
É aí que entram os crustáceos. A quitosana é um polímero derivado da quitina, um ingrediente primá- rio nas cascas rígidas de crustá- ceos, como lagostas, caranguejos, camarões e krill. Já foi aprovada para uso alimentar em vários países, incluindo Finlândia, Itália e Japão, embora não esteja atual- mente listado na lista Generally Recognized as Safe (GRAS – Geral- mente Reconhecido como Seguro) nos EUA, exceto em um caso - como um ingrediente anti-deterioração em vinho, onde é tipicamente re- movido do produto fi nal durante a filtração. Mas pesquisadores aqui e no exterior estão cada vez mais interessados nas aparentes propriedades antimicrobianas da quitosana, especialmente quando se trata de carne.
Estamos prontos para tratar a carne crua com polímeros de crus- táceos para evitar a Salmonella?
No estudo do International Food Journal of Microbiology, pesquisa- dores da Universidade de Alberta, no Canadá, e da Universidade de Tecnologia de Hubei, na China, tentaram simular o regime de sa- nitização de uma moderna planta frigorífica no laboratório. Eles levaram cortes de carne bovina magra congelados e esterilizados, descongelaram-nos por uma hora e injetaram dois tipos diferentes de bactérias - Salmonella enterica Typhimurium e Escherichia coli AW1.7, uma cepa de E. coli resis- tente ao calor. (Cepas de E. coli resistentes ao calor começaram a aparecer nos últimos anos, uma razão pela qual a indústria da car- ne está interessada em métodos de segurança alimentar que vão além da pasteurização a vapor). As bactérias se multiplicaram por quatro horas em uma incubadora.
Após isso, a pasteurização co- meçou. Depois de tratar a carne com vapor, os autores mediram como esse processo afetou a con- centração bacteriana. Os níveis de Salmonella diminuíram em quase 90% - sugerindo que os protocolos de segurança de alimentos exis- tentes podem ser eficazes no tra- tamento de bactérias específicas. Os níveis de E. coli, por outro lado, permaneceram constantes.
Em seguida, as amostras vapo- rizadas passaram por tratamento adicional. O grupo controle foi tratado com ácido láctico, como a carne normalmente seria tratada
ABCC · Ano xx Nº 2 · Novembro 2018 · 65
em matadouros, enquanto um se- gundo grupo foi tratado com uma solução de 1% de quitosana. Os resultados foram completamente diferentes. O tratamento com ácido lático após a vaporização praticamente não teve efeito anti- microbiano. Mas o grupo tratado com quitosana após a vaporização mostrou que a E. coli resistente ao calor, que não foi reduzida apenas por vapor, caiu 90%. A Salmonella, que já havia diminuído após a pas- teurização, caiu em mais 90%.
Isso é um achado significativo já que sugere que a quitosana pode fornecer uma forte defesa contra a E. coli na carne crua, es- pecialmente as cepas resistentes ao calor, reduzindo sua presença em dez vezes. A quitosana pode ser uma arma ainda mais eficaz contra Salmonella, trabalhando com a pasteurização a vapor para reduzir seu número em um fator de 100.
Apesar dos resultados extraordi- nários do estudo, não está claro se o setor de carnes poderá aproveitar os resultados num futuro próximo. A Primex, uma empresa de biotecno- logia islandesa, solicitou à Food and Drug Administration (FDA – agên- cia responsável pela aprovação de fármacos e alimentos) para aprovar quitosana para uso em alimentos em 2002, 2005 e 2013, mas todas as vezes retirou sua solicitação por razões que não são imediatamente claras, antes da agência poder fazer uma determinação. Alguns cientistas argumentam que testes mais abrangentes são necessários para determinar a adequação da quitosana para a alimentação hu- mana, apesar de sua onipresença como auxiliar de processamento em outras partes do mundo.
Enquanto isso, o uso limitado de quitosana em vinho e outras bebidas alcoólicas neste país não parece ser um problema - mesmo
pa ra pessoa s com a ler g ia s a crustáceos. Um pequeno estudo de 14 participantes, todos com histórico de reações anafiláticas ao comer camarão, descobriu que o vinho processado com quitosana derivada de camarão dificilmente provocaria uma reação. Apenas um participante teve uma reação a um teste cutâneo, embora nenhu- ma intervenção médica fosse ne- cessária; todos os 14 participantes ingeriram vinho sem incidentes.
Parece benigno o suficiente. Es- tamos prontos para tratar a carne crua com polímeros de crustáceos para evitar a Salmonella - uma espécie de combinação de carne e pescado de segurança alimentar? Vamos mantê-los informados.
(tradução livre de artigo publi- cado na edição de 16.10.2018 da The New Food Economy - https:// newfoodeconomy.org/chitosan- -p o l y m e r - s a l m o n e l l a- e - c o l i- -study-shellf ish-exoskeletons)