Estar na aldeia com uma “esposa”, com uma “muié”, como dizem os Arara em português, transformou o status de respeito, abrindo novos campos de relações. As crianças, nas minhas primeiras viagens à aldeia, tratavam-me como se fosse mais um aluno, já que apesar das diferenças de idade, eu assistia às aulas com elas e não tinha esposa. Os meninos na “puberdade”, que começavam a se interessar pelas meninas, tratavam-me como se fosse alguém rebaixado no status, visto que não tinha filhos e nem mesmo uma esposa – como se eu fosse um incapaz. Já os meninos que começavam a buscar uma possível menina para se casar, pareciam olhar para mim como um possível concorrente, que se expressava claramente com a garra e a força que colocavam nos embates comigo nos jogos de futebol. Enquanto os já casados, inclusive as mulheres, pensavam e às vezes diziam, de um jeito ou de outro, que eu não queria casar, só ficar com uma e com outra, igual alguns meninos fazem na aldeia vivendo a imagem das músicas tecnobrega que ouvem.
120
As mulheres contavam de uma ou outra mulher que tem vários filhos, mas é solteira. Algumas têm filhos com o mesmo homem, outras com mais de um homem, e apesar da vontade de ir morar junto e casar, acabam ficando sem marido. Outros homens dizem que tem mulher brava, que já juntou duas vezes mas que não deu certo, a qual acabou ficando sozinha também. Em meio a aldeia do Laranjal conto pelo menos quatro mulheres solteiras, com filhos que moram com suas mães e são alimentadas pelos pais e irmãos. Há também mulheres mais velhas que se separaram, e hoje moram com algum filho e tem algum amante, o qual, apesar de não morar junto, traz alimentos, e trabalha para ela, como num caso em que o amante fazia casa para ela. Há também caso de viúva já velhas que fica na casa de algum filho, como também de outras não tão velhas que se juntam com outro homem mais novo, morando junto com algum filho ao mesmo tempo.
Outro caso específico é de uma mulher que abandonou seu marido para ficar com o filho do seu irmão, que na época morava junto. Hoje morando separados, o marido abandonado continua dando comida a ela e a tratando como se fosse sua esposa, apesar de estar já junto com esse outro homem que, segundo disseram, foi a segunda vez que perdeu esposa. Um homem muito generoso e caridoso, em torno de seus 55 anos, está como que “solteiro”, ou talvez, dividindo a esposa. Há outros casos de esposas mais novas deixarem seus maridos mais velhos e se juntarem com outro de sua idade.
Tais acontecimentos não ocorriam antigamente, comentam. Acham isso tudo muito estranho, dizem os mais velhos, que mesmo ensinando e falando como deve ser, com quem deveriam casar, de modo algum obrigam o acontecimento. Por influência da televisão, das telenovelas, de filmes, onde aparece o papel do homem que fica com várias mulheres, da imagem da vida na cidade que ouvem e vêem, dos evangélicos, e da vida em aldeia, os Arara começam a transgredir. Não só os jovens com tendência e vontade de ficar com mais de uma mulher, também mulheres novas que buscam os homens e a relação, as velhas que fogem de um casamento desgostoso, enquanto os pais procuram controlar apenas as filhas. Os homens são deixados à revelia, mas às filhas agora é dado atenção, perguntam onde vão quando saem à noite de perto de suas casas e ficam a espreita, vendo o que estão fazendo e tentando controlar depois que elas passam pela menarca.
121
Nessa viagem era como se eu fosse outra pessoa para todos, ocupando nova posição na percepção social. Além de estar com Carol, notaram que eu estava mais gordo, ao que atribuíram ao meu novo “status”. É fácil imaginar que agora as crianças pequenas me viam como um adulto, mais próximo do professor, assim como os meninos que com suas malandragens deram uma pausa, e os jovens que se embatiam fortemente comigo já não me viam tanto como um rival. Com uma esposa, as mulheres vinham conversar comigo, querendo saber da Carol, se tinha filho ou se a gente iria ter. Eu dizia que ainda precisávamos trabalhar pra poder sustentar um filho, e elas riam. Queriam conhecê-la, perguntavam se tinha pai, mãe, irmãos, se era crente, e enfatizavam que era pra eu levar sempre ela junto quando fosse voltar para a aldeia.
Carol usava o porto “principal”, onde as embarcações em geral atracavam na aldeia, para lavar as roupas, o mesmo que Wogaraumium - irmã de Motjibi e esposa de Tatji, que apesar da tendência a uxorilocalidade, levou-a para morar consigo, num conjunto de casas formado por Piput-geni (falecido). Lavando roupa, começaram a se conhecer, a conversar e a se aproximar, trocando alimentos e camaradagens. Outro ponto de encontro era a televisão, onde os casais vão juntos e sentam-se juntos, um dos únicos momentos do dia que isso acontece no espaço público. Carol também a encontrava no futebol que jogava com as mulheres no final da tarde, antes do jogo dos homens, conhecendo ainda mais gente, e eu às vezes acompanhava com um ou outro que parava para conversar e assistir.
Por um lado tínhamos essa próxima relação com Tatji e pessoas do seu aglomerado residencial, formado por Piput-geni32. Por outro, ocupando a casa da Funai e a farmácia para as refeições, que dividíamos com a técnica em enfermagem, tínhamos também próxima relação com Motjibi, Agente Indígena de Saúde (AIS) da aldeia, e o aglomerado de residências formado por seu pai Igoptji-geni, e E´ggoi (AISAN), que moravam em casas ao lado e frequentemente apareciam no local para comer com a gente. Depois de conhecer Carol, a mãe de Motjibi, Tjipi, começou a aparecer com frequência na casa, para conversar com ela e tomar os cafezinhos que fazia com bolos.
122
Com o pretexto de que eu estava com uma esposa, pedia agora para que os Arara me levassem para pescar e caçar, e uma ou outra vez conseguia ir junto pescar, em outras ocasiões diziam que depois iriam me dar o que comer. Apesar disso, dividindo a comida com a enfermeira, sempre ganhávamos alguma carne ou peixe, que era mais privilégio dela, que ganhava a retribuição por seu trabalho, do que nosso, que aparentemente estávamos apenas vagando pela aldeia, como que pegando o que eles tinham, ao invés de estar dando.