4 RESPONSABILIDADE ÉTICA E SOCIAL: a RS do arquivista frente a
4.1 RESPONSABILIDADE ÉTICA E SOCIAL: primeiras palavras
4.1.2 Responsabilidade ética: conceitos e contextos
A ética pode ser compreendida na perspectiva de Valls (1994, p.7) assim:
Tradicionalmente ela é entendida como um estudo ou uma reflexão, científica ou filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações humanas. Mas também chamamos de ética a própria vida, quando conforme os costumes considerados corretos. A ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento
Como enfatiza Morin (2007), a ética se manifesta para nós – sociedade – na forma imperativa, através da exigência moral. O autor revela que este imperativo, advém de uma fonte interior ao indivíduo, que o sente através do espírito com a injunção do dever. Podendo provir, também, de atribuições externas, tais como: cultura, crenças e normas de uma determinada comunidade (MORIN, 2007).
Didaticamente, a ética pode se dividir através dos seus problemas teóricos em dois campos: a) problemas gerais e fundamentais, que englobam aspectos de liberdade, consciência, bem, valor, lei, e outros; b) problemas específicos de aplicação concreta, como problemas da ética profissional, ética política, ética sexual, etc. Vale destacar, no entanto, que esta subdivisão é apenas de intervenção didática, compreendendo que na vida real eles vivem juntos (VALLS, 1994).
Com o advento tecnológico, o campo ético passa também por transformações, Capurro (2009) destaca alguns aspectos das novas problemáticas que permeiam o campo ético.
Los nuevos problemas éticos tienen que ver, en primer lugar, con el no acceso a la red digital por parte de quienes no tienen los medios económicos y, lo que es muy importante, la educación necesaria para utilizar y sacar provecho de sus potencialidades. [...]En segundo lugar, la red digital juega un rol cada vez más importante en la vida política, de modo que la ética debe plantear preguntas y hacer studios empíricos así como también formular nuevos conceptos y teorías acerca de las nuevas posibilidades de participación ciudadana en o través de la red (CAPURRO, 2009, p.44-45).
Na perspectiva de Capurro, os novos problemas éticos estão relacionados à falta de acesso às redes digitais e, consequentemente, ao acesso e oportunidade do cidadão através das redes, de compreender os aspectos políticos e éticos. Silva e Espina (2006) sinalizam que as novas tecnologias propõem novos estilos de vida e novas formas de pensar, culminando em novos paradigmas de relação entre os indivíduos e, neste entorno, surgem os problemas éticos e a necessidade de compreender e buscar soluções nas relações éticas nos campos tecnológicos. Os autores ainda alertam para a importância de compreender que, ao falar em ética informática ou tecnológica, se direciona a uma ética global, que se correlaciona com os aspectos da sociedade (SILVA; ESPINA, 2006).
Stumpf (2010) também faz alerta para a necessidade de compreender a distinção dos termos ética, moral, deontologia para conseguir visualizar a ética no contexto científico e profissional. Para tanto, construímos um quadro, evidenciando tais conceitos.
QUADRO 3 – CONCEITOS: ÉTICA, MORAL E DEONTOLOGIA
TERMOS DEFINIÇÕES OU CONCEITOS
ÉTICA “A ética é a parte da filosofia que estuda a moral, isto é, que reflete sobre as regras morais.”20
“a ética considera a ação humana do
seu ponto de vista valorativo e normativo, em um sentido mais genérico e abstrato” (JAPIASSU; MARCONDES, 2001,p.134).
MORAL “A moral incorpora as regras que temos
de seguir para vivermos em sociedade, regras estas determinadas pela própria sociedade”.21
“Em um sentido mais estrito, a moral diz respeito aos costumes, valores e normas de conduta específicos de urna sociedade ou cultura.” (JAPIASSU; MARCONDES, 2001,p.134).
DEONTOLOGIA “Termo criado por Bentham em 1834
para designar sua moral utilitarista, mas que passou a significar, posteriormente, o código moral das regras e procedimentos próprios à determinada categoria profissional.” (JAPIASSU; MARCONDES, 2001,p.134).
Fonte: Japiassu; Marcondes (2001, construção gráfica nossa).
O entendimento da diferença conceitual entre os termos acima é essencial para a compreensão da ética voltada para os aspectos laborais. Vale salientar que as responsabilidades éticas permeiam todas as esferas da sociedade, desde os membros da sociedade civil, como também as instituições públicas e privadas, corporações, das categorias profissionais, em suma do estado, do país, do mundo (GARCIA, 2007).
No que tange à ética na perspectiva profissional, Guimarães et al (2009) apontam que seu advento permeia o desenvolvimento da sociedade capitalista, quando emerge a subdivisão da produção em segmentos profissionais. Tal questão culmina na necessidade de compreender não apenas questões técnicas e
operacionais inerentes à profissão (como fazer?), mas também aos objetivos e inserção social da profissão (por que e para que fazer?). Tais questões eclodirão na denominada ética informacional, que busca analisar e refletir a dimensão cotidiana da ética, na realidade profissional (GIMARÃES et al, 2009). Em suma,
[...] a denominada ética profissional atém-se aos valores e ações que visam a um agir profissional correto e adequado para com a sociedade em que o profissional se insere, aspectos esses que, não raras vezes, podem entrar em conflito com valores pessoais (GUIMARÃES et al, 2009, p. 99).
Garcia (2007) complementa que através dos princípios éticos e dos valores morais se estabelecem atividades, que obedecem a critérios socialmente responsáveis ou socialmente éticos, sendo essenciais e complementares às atribuições das categorias profissionais, e consequentemente, são comportamentos adotados pelas instituições e pelos indivíduos.
Compreender a ética no campo informacional, especificamente na CI, permite visualizá-la através dos novos tempos, em que a realidade dos profissionais se delineia, centrando sua ênfase inicialmente em uma dimensão axiológica, ou seja, nas questões dos valores, e não na perspectiva deontológica, na questão dos códigos, visto que há uma necessidade de ampla discussão das normas éticas e valores que permeiam e direcionam a postura profissional (GUIMARÃES et al, 2009). Abarcar as múltiplas problemáticas éticas seria impossível, visto que estas questões permutam ao passar o tempo, e migram de acordo com a realidade atribuída. Logo, os princípios morais se tornam o aparato essencial na conduta de qualquer profissional.