CAPÍTULO 5 A responsabilidade civil decorrente do bullying
5.3 Bullying e a legislação aplicável
5.3.1 Responsabilidade civil dos pais
No tocante a capacidade e obrigação de indenizar, o Código Civil dispõe o seguinte:
Art. 3o São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil:
I - os menores de dezesseis anos; [...]
Art. 4o São incapazes, relativamente a certos atos, ou à maneira de os exercer:
I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos;
Segundo o referido diploma legal, os pais são civilmente responsáveis pelos atos ilícitos que demandem reparação e respondem de forma objetiva:
Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:
I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia;
[...]
Art. 933. As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali referidos.
De acordo com o disposto no artigo 1.634 do Código Civil, os pais possuem o dever jurídico em relação à pessoa dos filhos, implicando esse dever a guarda, a assistência, a educação, o zelo pelo desenvolvimento equilibrado e a contínua vigilância quanto às suas condutas no convívio social.
Logo, aos pais, detentores do poder familiar e do exercício do direito de guarda e proteção em relação à pessoa dos filhos menores, compete o dever de transmitir princípios morais rígidos na formação de seus filhos, dentre eles, respeito e consideração ao próximo, e orientar para que esses integrem a escola e nela interajam para uma convivência social harmônica e de construção da civilidade e
cidadania, além de exercer sobre eles vigilância constante para que sua prole não cause dano a terceiros186.
Diante dos deveres dos pais em relação aos filhos, em termos de responsabilidade civil, os pais são responsáveis pelos atos ilícitos cometidos por seus filhos menores e incapazes, inclusive quando se trata do bullying, posto que a prática desse fenômeno constitui ato ilícito e violador da dignidade humana e dos direitos de personalidade da vítima, causando graves danos.
A responsabilidade civil dos pais independe da apuração de culpa, ou seja, trata-se de responsabilidade na modalidade objetiva por fato de outrem que impossibilita a discussão de pretensa ausência de falha ou negligência na vigilância e educação dos filhos.
Sobre o tema, Caio Mário adverte187:
Não lhe bastaria, pois, a alegação de que tomaram as cautelas normais, e que o filho traiu sua vigilância para que se exima do dever legal. Sua obrigação é ressarcir o dano causado pela culpa do filho menor.
É importante destacar a literalidade do inciso I do artigo 932 do Código Civil, que estabelece a responsabilidade civil dos pais por ato dos filhos quando esses estiverem sob a autoridade e em companhia daqueles. Dessa forma, a responsabilidade civil dos pais ou representantes legais não decorre puramente da detenção do poder familiar, pois o genitor que exercer, de fato, a autoridade sobre o filho que se encontra em sua companhia poderá ser responsabilizado pelo dano causado por esse.
Portanto, se o filho estiver na companhia apenas de um dos cônjuges, em virtude de divórcio, ou internado em algum colégio, a responsabilidade objetiva recairá sobre o cônjuge que detém a guarda do filho, ressalvando o caso de guarda compartilhada, ou sobre o colégio, a quem compete o dever de vigilância sobre o menor.
A respeito da responsabilidade dos pais pelos atos de bullying cometidos pelos filhos, destaca-se o julgado abaixo transcrito:
186 ALKIMIN, Maria Aparecida. NASCIMENTO, Grasiele Augusta Ferreira. op. cit. p. 78-79. 187 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil
– Contratos: declaração unilateral de vontade. Responsabilidade Civil. v. III. 15. ed. rev. e atual. por Regis Fichtner. Rio de Janeiro: Forense, 2011. p. 521.
“Ementa: Reparação por danos morais - Campanha difamatória pela Internet - Blog criado pela colega de escola para prática de bullying - Responsabilidade do genitor em razão da falta de fiscalização e orientação - Sentença reformada apenas para reduzir o valor da indenização, considerando a extensão do dano, a época dos fatos e a realidade das partes.” (TJSP, Processo n. 9136878-66.2006.8.26.0000, julgado em 22/12/2010, Desembargador Relator Miguel Brandi, 7ª Câmara de Direito Privado)
Vale ressaltar que, nos termos dos artigos 928, caput e 942, 1ª parte do Código Civil, o incapaz que pratica ilícito não fica livre do dever de indenizar e, nesse sentido, convém trazer à colação o disposto nesses artigos do estatuto civil:
Art. 928. O incapaz responde pelos prejuízos que causar, se as pessoas por ele responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios suficientes.
Art. 942. Os bens do responsável pela ofensa ou violação do direito de outrem ficam sujeitos à reparação do dano causado; e, se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela reparação.
Parágrafo único. São solidariamente responsáveis com os autores os co- autores e as pessoas designadas no art. 932.
Verifica-se, portanto, que o dever de indenizar é extensivo ao menor, abrangendo-se seu patrimônio. Logo, o menor responde pelo ilícito se tiver bens para garantia do pagamento da indenização.
Entretanto, segundo o parágrafo único do artigo 928, o dever de indenizar deve ser fixado pelo juiz de forma equitativa e não terá lugar se privar do necessário o incapaz ou as pessoas que dele dependam.
Carlos Roberto Gonçalves, por usa vez, delinea a responsabilidade do incapaz perante o estatuto civilista188:
A responsabilidade do incapaz, esta sim, é subsidiária e mitigada, pois só responde pelos prejuízos que causar a terceiros se as pessoas por ele responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios suficientes. A indenização, nesse caso, que deverá ser equitativa, não terá lugar se privá-lo do necessário ao seu sustento, ou as pessoas que dele dependem (art. 928 e parágrafo único). A única hipótese em que poderá haver responsabilidade solidária do menor de 18 anos com seu pai é se tiver sido emancipado aos dezesseis anos de idade. Fora isso, a responsabilidade será exclusivamente do pai, ou exclusivamente do filho, se aquele não dispuser de meios suficientes para efetuar o pagamento e este puder fazê-lo, sem privar do necessário (responsabilidade subsidiária e mitigada, como já dito).
Diante de todo o exposto, conclui-se que a responsabilidade por ato de terceiro é objetiva e solidária, na forma dos artigos 932 e 933 do Código Civil, e, assim sendo, nos termos do artigo 934:
Art. 934. Aquele que ressarcir o dano causado por outrem pode reaver o que houver pago daquele por quem pagou, salvo se o causador do dano for descendente seu, absoluta ou relativamente incapaz.
Do artigo acima transcrito, extrai-se que aquele que pagar os prejuízos gerados pelas pessoas indicadas no artigo 932 do Código Civil terá o direito de regresso, ou seja, poderá obter reembolso. No entanto, o artigo em comento proíbe, expressamente, ação regressiva contra descendente, por questões de ordem moral e organização econômica pertinente à família.
Se o bullying for praticado por vários alunos, incide a responsabilidade solidária dos diversos agentes, conforme prescrição do artigo 942, parágrafo único do Código Civil: “se a ofensa tiver mais de um autor, todos responderão solidariamente pela reparação”.
Por outro lado, tratando-se de incapaz e havendo multiplicidade de agentes, as pessoas designadas no artigo 932 do Código Civil responderão solidariamente e a vítima do bullying, por exemplo, poderá mover ação contra qualquer um ou todos os responsáveis legais pelo(s) autor(es) do ato. O devedor que pagar, por sua vez, terá direito de mover ação regressiva em relação aos demais obrigados189.