• Nenhum resultado encontrado

No Código Civil prevalece a responsabilidade subjetiva, ou seja, aquela em que terá que ser provada a culpa do agente para a configuração da obrigação de indenizar. Essa responsabilidade subjetiva está prevista nos artigos 186 e caput do 927 do referido diploma civil, o qual preceitua que “Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito’’. Demonstra o artigo 927 do Código Civil “Art. 927. aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo’’ (BRASIL, 2002). Assinala Jonas de Mello Filho:

No que tange à Teoria da responsabilidade subjetiva, a mesma origina-se no Código Napoleônico, e foi inserta no Direito Civil brasileiro pelo artigo 159 do Código de 1916. Nas suas entrelinhas, assevera que, dependente do comportamento do sujeito, tendo por fundamento a ação ou omissão culposa do agente, não basta, para que surja a obrigação de indenizar, o dano e o nexo causal - é necessária a comprovação de que o ofensor tenha agido com dolo ou culpa (MELLO FILHO, 2011, p. 332).

Dessa forma, a responsabilidade civil subjetiva ocorre quando o agente agiu com culpa, podendo ter sido uma conduta negligente, imprudente ou que houve imperícia. Para tanto, só haverá a obrigação de reparar o dano se houver a prova desse requisito. O Código

Civil prevê esta responsabilidade em seu artigo 951, dispondo que a indenização é devida pelo profissional, no exercício de sua atividade, se agir com negligência, imperícia ou imprudência e sua conduta “causar a morte do paciente, agravar-lhe o mal, causar-lhe lesão, ou inabilitá-lo para o trabalho’’ (BRASIL, 2002).

Diferenciando-se desta, tem-se a responsabilidade objetiva, que configura uma exceção no referido Código, em que a culpa não precisa ser demonstrada, porquanto o simples fato da conduta gerar o dano causado, já resta caracterizada a responsabilidade civil objetiva do agente. Os exemplos de aplicação desta modalidade de responsabilidade encontram-se na Lei, bem como ocorrerá quando for o caso de risco da atividade, conforme preceitua o parágrafo único do artigo 927, que estabelece a responsabilidade civil objetiva do ofensor: “haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem’’ (BRASIL, 2002). Assim, a responsabilidade objetiva está alicerçada na teoria do risco da atividade, enquanto a responsabilidade subjetiva está apoiada na culpa. É neste sentido a afirmação do ilustre autor Carlos Roberto Gonçalves:

Uma das teorias que procuram justificar a responsabilidade objetiva é a teoria do risco. Para esta teoria, toda pessoa que exerce alguma atividade cria um risco de dano para terceiros. E deve ser obrigada a repará-lo, ainda que sua conduta seja isenta de culpa. A responsabilidade civil desloca-se da noção de culpa para a ideia de risco, ora encarada como “risco-proveito’’, que se funda no princípio segundo o qual é reparável o dano causado a outrem em consequência de uma atividade realizada em benefício do responsável (ubi emolumentum, ibi onus); ora mais genericamente como “risco criado’’, a que se subordina todo aquele que, sem indagação de culpa, expuser alguém a suportá-lo (GONÇALVES, 2018, p. 49).

Sabendo que a responsabilidade objetiva também decorre da Lei, é imperioso citar alguns artigos em que incidem a aplicação desta. Os incisos do artigo 932 do Código Civil elencam vários exemplos de responsabilidade sem a necessidade de demonstração da

culpa do agente10. Dessa maneira, o artigo subsequente, o artigo 933 do referido Código, explica que as pessoas que estão elencadas nos incisos I a V responderão objetivamente11. Além disto, o diploma civil traz a responsabilidade objetiva nos artigos 936, 937 e 938. O primeiro dita a responsabilidade do dono ou detentor do animal, que deverá ressarcir o dano por ele causado, salvo se provar culpa da vítima ou força maior. O artigo 937 dispõe “O dono de edifício ou construção responde pelos danos que resultarem de sua ruína, se esta provier de falta de reparos, cuja necessidade fosse manifesta”. E, por fim, o artigo 938, que preceitua a responsabilidade do habitante de prédio, pelos danos advindos das coisas que dele caírem ou que foram lançadas em lugar indevido (BRASIL, 2002).

Além dos exemplos de responsabilidade civil objetiva já citados, existem outros, tais como a responsabilidade por conta das estradas de ferro, nos seguros obrigatórios, a responsabilidade civil do Estado, a responsabilidade civil da União pelos danos nucleares, a responsabilidade civil nas relações de consumo e etc. Cabe mencionar que a responsabilidade civil objetiva foi abarcada por leis esparsas, tais como

[...] Lei de Acidentes do Trabalho, Código Brasileiro de Aeronáutica, Lei n. 6.453/77 (que estabelece a responsabilidade do operador de instalação nuclear), Decreto legislativo n. 2.681, de 1912 (que regula a responsabilidade civil das estradas de ferro), Lei n. 6.938/81 (que trata dos danos causados ao meio ambiente), Código de Defesa do Consumidor e outras (GONÇALVES, 2018, p. 50).

Com o intuito de proteger a parte vulnerável da relação, o consumidor, o Código de Defesa do Consumidor, conferiu prevalência da responsabilidade civil objetiva. O caput do artigo 14 demonstra isso, tendo em vista que preceitua que o fornecedor dos serviços responde pelos danos causados aos consumidores independentemente de comprovação da culpa. A exceção à essa regra, encontra-se nesse mesmo dispositivo, no

10 Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:

I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia; II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições;

III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele;

IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus hóspedes, moradores e educandos;

V - os que gratuitamente houverem participado nos produtos do crime, até a concorrente quantia (BRASIL, 2002).

11 Art. 933. As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua

parágrafo 4º do CDC, no caso dos profissionais liberais, em que a responsabilidade civil será analisada mediante a comprovação da culpa quando ocorre o chamado fato do serviço, ou seja, quando um serviço prestado é defeituoso.

Sendo objetiva a responsabilidade, é desnecessária e incabível a discussão a respeito da intenção do agente causador do dano ou se ele agiu com imprudência, negligência ou imperícia. De fato, a responsabilidade objetiva confere ao ofendido maior facilidade no que diz respeito à ação para reparação dos danos causados, tendo em vista que este não terá que comprovar a culpa do ofensor; ônus este que muitas vezes torna difícil a demonstração pela vítima do dano (BENJAMIN; MARQUES; BESSA, 2016, p. 178-179).

Conforme explanado, o ordenamento jurídico brasileiro adota tanto a responsabilidade civil subjetiva, quanto a objetiva, sendo àquela a que prevalece no Código Civil. Caio Mário da Silva Pereira afirma que

[...] a regra geral, que deve presidir à responsabilidade civil, é a sua fundamentação na ideia de culpa; mas, sendo insuficiente esta para atender às imposições do progresso, cumpre ao legislador fixar os casos em que deverá ocorrer a obrigação de reparar independentemente daquela noção. Não será sempre que a reparação do dano se abstrairá do conceito de culpa, porém quando o autorizar a ordem jurídica positiva [...] (PEREIRA, 2014, p. 539).

Desta maneira, para a configuração de uma ou outra responsabilidade civil, os requisitos precisam ser respeitados, bem como cada caso deverá ser analisado detalhadamente pelo magistrado, para que seja aplicada a correta modalidade de responsabilidade, conforme preceitua a Lei.