3 CAPÍTULO: A EDUCAÇÃO SOMÁTICA NO TRABALHO CORPORAL DO
3.5 A RESPONSABILIDADE DE NÃO SE PERDER – O USO DOS APOIOS
Podemos entender a partir do que aponta Lacrosse (2009) que quanto maior a percepção corporal que o ator animador tem de si mesmo, maior a facilidade de se chegar a determinados estados psicofísicos. Esses estados são acessados por meio de um trabalho corporal que permite uma maior tomada de consciência por parte do indivíduo do manuseio de suas tensões corporais. Porém, Lacrosse lembra-nos da importância de se ter um certo domínio desses estados psicofísicos, quando aponta:
It is so vast and complicated that you need to make it simple. Otherwise you get lost in yourself and in that field of adaptation and that’s why I think the tools to take responsibility, that I suggest to use, is tension. The awareness of the state of tension you are in (LACROSSE, 2009b).123 O uso da tensão corporal – que se aproxima do que Laban chama de
esforço - seria para o professor uma forma de manter o aluno animador em
constante estado de conexão consigo mesmo e em relação ao seu entorno, como um tipo de domínio sobre os dos estados psicofísicos do qual se pode chegar. Em relação a esse tema, podemos encontrar também em Gerda Alexander (apud GAINZA, 1997, p.112) uma preocupação neste sentido. A autora destaca a importância de se estar com os próprios pés sobre o solo como ponto de apoio, como uma maneira de evitar que o indivíduo se perca em si mesmo. A pessoa, primeiramente, deve ter consciência de si e este ponto de apoio é tanto emocional quanto físico (ibidem, p. 65).
A eutonista critica a forma pela qual algumas terapias corporais, tal como a terapia Reichiana,124 de utilizar processos psicofísicos, sem haver uma
123 Isso [trabalho psicofísico] é muito vasto e complicado e você precisa tornar isso simples. Senão,
você se perde em você mesmo e no campo de adaptação. Esse é o motivo que eu acho que a ferramenta para assumir responsabilidade – que eu estou sugerindo a ser usada - é a tensão. A percepção do estado de tensão onde você se encontra.
124 A terapia reichiana é uma das principais linhas teóricas da psicoterapia, ao lado da junguiana
(desenvolvida por Jung) e da freudiana (de Sigmund Freud). Foi criada pelo austríaco Wilhelm Reich (1897-1957), discípulo de Freud até 1934, e, assim como as ideias do mestre, atribui à repressão sexual grande parte dos problemas humanos. A terapia reichiana, uma espécie de precursora das terapias corporais modernas, prega a inseparabilidade entre corpo e mente. As repressões e angústias sofridas pelo indivíduo ao longo da sua vida se refletem não só no plano psicológico mas também no corpo e são capazes de enrijecer músculos, num processo conhecido por “encouraçamento”. Essas couraças impedem a expressão das emoções e o fluxo de energia
preocupação de dar suporte para pessoa. Para a autora este tipo de terapia acaba por destruir as defesas do aluno antes mesmo que ele possa provar sua capacidade de estar sentado sobre os próprios pés. Segundo ela, a terapia Reichiana se preocupou demasiadamente sobre a sexualidade, esquecendo da importância do corpo em relação ao meio. Neste sentido, deve-se pensar que há componentes nas práticas corporais que devem ser avaliadas antes de serem colocadas em práticas no trabalho do ator animador como apontou Lacrosse. Além das vantagens em relação as prática no que se refere ao bloqueio das tensões, temos que pensar também em práticas corporais seguras, para, como disse Lacrosse, que o aluno não se perca em si mesmo.
Heggen (2009a) também compartilha do mesmo entendimento ao citar o apoio dos pés como a parte mais importante no trabalho do ator animador. Segundo ela, o ator animador deve saber onde está. Porém, além de servir como um suporte emocional, segundo ela, os pés servem de apoio para toda a estrutura óssea que está acima, como pelve, coluna vertebral e a cabeça. Paralelamente ao trabalho que denomina de “princípios fundamentais do corpo e do movimento” e do trabalho com máscaras e prolongamento corporal,
Efetuava-se um trabalho de conscientização do corpo, dos seus apoios, da sua relação com o solo, dos seus diferentes assoalhos, do seu eixo vertical, das suas articulações, do seu caráter sensorial, da sua tonicidade, da sua respiração, do seu olhar, da sua globalidade, das suas localidades (dissociação-associação, organização-coordenação...): uma espécie de ecologia corporal para o bonequeiro, de certo modo (HEGGEN, 2009b).
Ou seja, Heggen desenvolve um trabalho global sobre o indivíduo, tendo o uso dos apoios como parte do que denomina “noções fundamentais” para o trabalho do ator animador.
A professora não aprofunda muito acerca da importância dos apoios, porém, Gerda Alexander (ibidem) explica que, ao usar o apoio das estruturas ósseas do corpo, necessitamos utilizar muito menos a força de nossos músculos (ibidem, p.52). Inclusive um dos princípios do movimento eutônico se baseia nesse princípio, a qual denominou de transporte. Segundo a eutonista há um orgástica, que, segundo Reich, é fonte de todos os processos vitais (e não apenas o sexual). Por isso, ele dava grande importância à capacidade de desenvolvimento da livre expressão de
sentimentos sexuais e emocionais do ser humano nos seus
fluxo de forças antigravitacionais que passam através da estrutura óssea da coluna vertebral, dos pés até o atlas que permite a “correta distribuição do peso e do uso da exata quantidade de energia para cada movimento” (ibidem. p. 73).
Por esse entendimento, podemos concluir que ao ter a estrutura óssea bem apoiada ao solo, o ator animador necessite utilizar menor esforço para executar sua movimentação, haja vista que ao trabalhar com um objeto, além de estar em uma postura extracotidiana, sempre há um sobrepeso – o objeto - sobre sua estrutura corporal que invariavelmente necessita ajustes em sua postura. A não adaptação da postura pode acarretar sobrecarga em certas partes do corpo, podendo gerar desconforto, dor e até lesões.
Um das práticas semelhantes presentes tanto na Eutonia quanto no Método Feldenkrais, utilizados por Heggen e por Lacrosse é a vibração do corpo125. Gerda Alexander aponta que essa é uma prática que permite
adquirirmos consciência de nossa estrutura óssea. Segundo ela, não podemos sentir o interior dos ossos, mas podemos sim perceber as articulações através dos mecanoreceptores (propriocepção). Através da vibração podemos “chegar facilmente a perceber a diferença entre um músculo e um osso” (ibidem, p.78)
Sendo assim, podemos concluir que o uso dos apoios são importantes para que o ator animador possa ter tanto estrutura emocional para sustentar um trabalho psicofísico, quanto por ser uma forma de diminuir os esforços das ações decorrentes do trabalho de animação.