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2 LIBERDADE DE FUMAR: UMA LEITURA HAYEKIANA Na obra A Guimba, o escritor britânico Will Self descreve a

2.4 O VALOR DA LIBERDADE

2.4.4 Responsabilidade e liberdade

O declínio da liberdade no ambiente contemporâneo é também resultado da incapacidade individual de se cotejar os inseparáveis conceitos de liberdade e de responsabilidade. Este declínio é a razão por que os homens não mais acreditam na responsabilidade individual, como acreditaram outrora. A responsabilidade se tornou uma definição impopular, “uma palavra que escritores ou oradores experientes evitam por causa da óbvia indiferença ou da animosidade com que é recebida

por uma geração que repele tudo que seja moralizante”. Hayek afirma ser bastante frequente a hostilidade em relação ao termo responsabilidade por aqueles indivíduos educados a partir do pensamento de que “sua posição na vida ou suas próprias ações foram determinadas por circunstâncias que eles não controlam”. Outrossim, Hayek sustenta que a negação da responsabilidade se deve ao medo que a liberdade provoca (Cf. HAYEK, 1983, p. 76-77).

A despeito disso, a preservação de sociedades livres depende do senso de responsabilidade individual, no sentido de que as ações sejam orientadas por um senso de dever que se estenda além das obrigações consagradas pela lei, e que a opinião pública autorize a responsabilização dos indivíduos tanto pelo sucesso quanto pelo fracasso de seus esforços. Hayek assevera que “quando os homens têm liberdade de agir da maneira que julgam conveniente, também devem ser responsabilizados pelos resultados de suas ações” (Cf. HAYEK, 1983, p. 82).

A justificativa para a atribuição de responsabilidade assenta-se na presumível influência sobre as gerações futuras, a fim de ensinar aos indivíduos a importância do conceito de previsibilidade. Embora as sociedades livres permitam que os indivíduos decidam por si próprios porque, em geral, encontram-se em melhor situação para saber das circunstâncias que envolvem suas ações, também existe uma preocupação com as condições que permitem a utilização do conhecimento com maior eficácia. Conforme Hayek, é importante que a sociedade, ao reconhecer a liberdade aos indivíduos porque presume que sejam seres racionais, empenhe-se para que seja para eles gratificante agir como seres racionais, deixando que arquem com as consequências de suas decisões (Cf. HAYEK, 1983, p. 82).

Isto não significa que se suponha sempre que o indivíduo é o melhor juiz de seus interesses; significa apenas que nunca podemos ter certeza de que outra pessoa os conheça melhor do que o próprio indivíduo, e que desejamos usar plenamente as capacidades de todos que possam contribuir de alguma forma para o esforço comum que pretende fazer nosso ambiente servir a fins humanos (HAYEK, 1983, p. 82).

Portanto, liberdade e responsabilidade são conceitos indissociáveis na obra de Hayek e isso “significa que a justificativa

filosófica da liberdade só é aplicável àqueles que podem ser responsabilizados. Não se aplica a crianças, débeis mentais ou loucos”. Pressupõe que um indivíduo seja capaz de aprender a partir da experiência e de orientar suas ações pelo conhecimento assim adquirido (Cf. HAYEK, 1983, p. 83).

O valor da personalidade individual pressupõe o reconhecimento de que cada indivíduo detém uma escala própria de valores, que deve ser respeitada pelos demais, mesmo por aqueles que dela discordem. Acreditar na liberdade, segundo Hayek, significa compreender que ninguém pode ser considerado juiz último dos valores alheios, porquanto não existe qualquer direito de impedir indivíduos de perseguirem desígnios próprios, mesmo que se discorde deles, desde que não exista violação à esfera de ação que a lei também garante aos demais (Cf. HAYEK, 1983, p. 85).

Conquanto um ambiente de liberdade confira aos indivíduos a oportunidade de fazerem o bem, isso somente ocorrerá caso exista a liberdade para que errem e façam o mal. “A liberdade de ação que é condição do mérito moral inclui a liberdade de errar: elogiamos ou criticamos o indivíduo somente quando ele tem a possibilidade de escolher” (Cf. HAYEK, 1983, p. 85).

Nas sociedades livres os indivíduos são remunerados pelo uso adequado que fazem de seus talentos, e não por possuírem este ou aquele talento. Para Hayek é quase impossível determinar em que grau uma carreira bem-sucedida foi resultado de conhecimento, habilidade ou esforço superiores, ou se foi decorrente de um feliz acaso. Não obstante, “isso de forma alguma diminui a importância dos contextos em que a escolha correta redunda em benefício pessoal” (Cf. HAYEK, 1983, p. 88).

Muito embora para Hayek esta constatação seja básica, há uma limitada compreensão dela, não apenas por socialistas quando afirmam, por exemplo, o direito natural que toda criança possui como cidadã, não apenas à vida, à liberdade e à busca da felicidade, mas também direito de exigir posição na escala social, a partir de seus talentos.

Hayek defende que o talento pessoal não confere ao indivíduo o direito de exigir uma posição especifica em sociedades livres. Caso esta exigência se justificasse, algum organismo teria o direito e o poder de determinar as posições que os indivíduos ocupariam. “Uma sociedade livre apenas concede aos indivíduos oportunidades para que procurem posições adequadas, com os riscos inerentes e a incerteza necessariamente implícita na busca de mercado para o talento pessoal”. Hayek adverte ser “inegável que, em relação a isso, uma sociedade livre

submete os indivíduos a uma pressão da qual frequentemente se ressentem”. Não obstante, “é ilusório pensar que poderíamos evitá-la em algum outro tipo de sociedade; pois a alternativa à pressão implícita na responsabilidade pelo destino individual é muito mais odiosa”, uma vez que decorre de ordens ditadas por outros indivíduos, que obrigariam os demais a obedecer e a se submeter (Cf. HAYEK, 1983, p. 88).