Na sala onde se inicia um dos itinerários propostos, rumamos a Orien-te151. A terra da Aurora, onde o sol nasce, tem exercido um fascínio sobre o Ocidente. Estão previstos módulos museológicos relativos a religiões orientais e saúde — com a cooperação da Academia para o Encontro de Culturas e Religiões (APECER-UC) —, dando conta dos contributos para os saberes médicos e as conceções de saúde, desde o hinduísmo ao budismo, passando pelo confucionismo e xintoísmo, não esquecendo o jainismo. Interculturalidade não é palavra vã neste Museu, onde também se consideram os limites, decorrentes do direito internacional dos direi-tos humanos e de direidirei-tos fundamentais, da reivindicação da realização de certas práticas (v.g., mutilação genital feminina, ainda que em contex-to hospitalar152) em nome de especificidades culturais. Também se prevê, num cruzamento que recorda as andanças dos portugueses pelo mundo, a abertura de salas sobre a presença portuguesa na Índia, em Macau e Timor, para além de outros pontos na Ásia (a antiga Ceilão, agora Sri Lanka) e Malaca, por exemplo. Na Índia, mereceria lugar de destaque,
149 Vd. António Castanheira Neves, “Pessoa, direito e responsabilidade”, Revista
Portuguesa de Ciência Criminal 6 (1996/1) 9-43.
150 António Castanheira Neves, “Pessoa, direito e responsabilidade”, 11-15. 151 Sobre o Oriente enquanto entrada no campo da bioética, vd. Francesco D’Agostino, Parole di bioetica, Torino: Giappichelli Editore, 2004, 129-135.
152 No nosso ensino, temo-nos oposto aos que admitem práticas de mutilação genital feminina, desde que, tendo em vista a redução de riscos, sejam realizadas em contexto hospitalar. Também Augusto Silva Dias (Crimes culturalmente motivados: o
direito penal ante a “estranha multiplicidade” das sociedades contemporâneas, Coimbra:
Almedina, 2018, 332, n. 929) é inequívoco, recusando a equiparação dessa prática com a circuncisão, e a sua prática, ainda que “medicalizada”.
desde logo, o Colóquio dos Simples e Drogas da Índia153, de Garcia da Orta, primeira obra a ser impressa no Oriente relativa à temática154. João Rui Pita, da Faculdade de Farmácia, também ele membro do Centro de Direito Biomédico, Coordenador e Diretor, juntamente com André Dias Pereira, do Curso de Pós-graduação em Direito da Farmácia e do Medica-mento, alargaria a recolha de farmacopeias (abrindo-se, aliás, a outros textos relevantes para a história da saúde), dando continuidade à série (por si dirigida) que a Imprensa da Universidade, com o patrocínio da Bluepharma, tem vindo a editar.
No domínio da literatura de expressão portuguesa, não se olvidam olhares como o de um antigo aluno da Faculdade de Direito, Camilo Pessanha, que, na sua obra, mobiliza elementos da medicina (por exem-plo, o “frio escalpelo” que encontramos no poema Estátua) e que figu-rarão em sala. Também uma seleção de obras sobre a saúde publicadas em Macau, como as Noções de Hygiene e Medicina Pratica para uso dos alumnos do Seminario Diocesano de Macau155.
O Oriente de que aqui tratamos é o Próximo Oriente, aquele que fica ao “lado”, e o tema que agora destacamos é a responsabilidade médica. Olhemos para a Antiguidade Oriental e percorramos a Mesopotâmia, en-tre o Tigre e o Eufrates. A Babilónia trouxe-nos o chamado “Código”156 de Hamurábi (Hammurabi), na sua maior parte uma compilação de direito consuetudinário, resultante do trabalho de um conjunto de
escribas-juris-153 https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4614066.
154 Palmira Fontes da Cunha, “1563 — Colóquios dos Simples ou a globalização da imprensa de carateres móveis e do conhecimento”, in Carlos Fiolhais/ José Eduardo Franco/ José Pedro Paiva (Dir.), História global de Portugal, Lisboa: Temas e Debates, 2020, 391-395, 391-392. Trata-se da quinta obra a ser impressa na oficina do Colégio de S. Paulo, em Goa.
155 Noções de Hygiene e Medicina Pratica para uso dos alumnos do Seminario
Diocesano de Macau, por um professor do mesmo Seminario, publicado em 1899,
Macau: Typographia do Seminario, 1899
156 Apesar da designação corrente, não se pode falar de código. Na síntese de José Nunes Carreira (Filosofia antes dos gregos, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1994, 263), “[o]s Antigos Mesopotâmios, assim como não tinham nenhum termo equivalente a «lei», não quiseram elaborar nenhum código”.
tas157. No centro da sala, colocaríamos uma reprodução do original da es-tela que está no Museu do Louvre, mas com os preceitos relativos à ligação entre responsabilidade e medicina em destaque. São eles158:
a) Quanto à obrigação de pagar os custos de assistência médica:
206º — Se alguém bate um outro em rixa e lhe faz uma ferida, ele deverá jurar: “eu não [lhe]o bati de propósito”, e pagar o médico”.
b) Em matéria de honorários médicos:
“215º — Se um médico trata alguém de uma grave ferida com a lanceta de bronze e o cura ou se ele abre a alguém uma incisão com a lanceta de bronze e o olho é salvo, deverá receber dez siclos. 216º — Se é um liberto, ele receberá cinco siclos. 217º — Se é o escravo de alguém, o seu proprietário deverá dar ao médico dois siclos”. 221º — Se um médico restabelece o osso quebrado de alguém ou as partes moles doentes, o doente deverá dar ao médico cinco siclos. 222º — Se é um liberto, deverá dar três siclos. 223º — Se é um escravo, o dono deverá dar ao médico dois siclos.
c) Finalmente, quanto à responsabilidade médica, assinalem-se os seguintes preceitos:
“218º — Se um médico trata alguém de uma grave ferida com a
lanceta de bronze e o mata ou lhe abre uma incisão com a lanceta de bronze e o olho fica perdido, se lhe deverão cortar as mãos. 219º — Se o médico trata o escravo de um liberto de uma ferida grave com a lanceta de bronze e o mata, deverá dar escravo por escravo. 220º — Se ele abriu a sua incisão com a lanceta de bronze o olho fica perdido, deverá pagar metade de seu preço”.
Assinale-se ainda a existência de disposições sobre a atividade veterinária:
“224º — Se o médico dos bois e dos burros trata um boi ou um bur-ro de uma grave ferida e o animal se restabelece, o pbur-roprietário deverá dar ao médico, em pagamento, um sexto de siclo. 225º — Se ele trata um boi ou burro de uma grave ferida e o mata, deverá dar um quarto de seu preço ao proprietário”.
157 José Nunes Carreira, Filosofia antes dos gregos, 264.
158 Versão em língua portuguesa disponível em http://www.cpihts.com/PDF/ C%C3%B3digo%20hamurabi.pdf.