3 RSC: UM NOVO CAPITALISMO?
3.3 RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA NO BRASIL
A preocupação do empresariado brasileiro com o tema socioambiental parece ter aumentado substancialmente nas duas últimas décadas. De acordo com Peliano (2001), a pesquisa Ações Sociais das Empresas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) revelou que 59% das empresas brasileiras fazem algum tipo de atividade voltada para a comunidade. A pesquisa ouviu 9.140 empresas entre os anos de 1999 e 2001, e os resultados afirmam que o Sudeste é o que mais investe em ações sociais no Brasil. O segundo é o Nordeste, seguido do Centro-Oeste, Norte e Sul.
No caso brasileiro, além da sinalização positiva dos consumidores e investidores e da demanda de maior transparência às ações públicas e privadas, outros fatores específicos foram responsáveis pela incorporação da RSC que começou a ganhar mais visibilidade nos anos 90. Com efeito, esta década é caracterizada por uma estabilidade macroeconômica que acarretou numa reorganização das empresas através da redução de custos e melhoria na qualidade dos processos de gestão. Estas mudanças gerenciais e redefinição do core business e da missão das empresas facilitaram a incorporação de novos valores. Algumas empresas buscaram para as suas atividades produtivas certificados de excelência. Grande número de organizações iniciaram com certificações de qualidade ISO 9000, Qualidade Total, entre outras e migraram gradativamente para a ISO 14000 e SA 8000, para os quais a produção ambientalmente respeitosa e engajamento no social são pré-requisitos fundamentais. (MAIMON, 2000
apud MAIMON, 2006, p.4).
A atuação do empresariado brasileiro no enfrentamento das questões sociais não é um fenômeno recente. Góis, Santos e Costa (2004) afirmam que tal atuação remonta pelo menos aos primeiros anos do século XX se pensarmos unicamente nas ações benemerentes. “Contudo, como afirmam alguns analistas, é somente na década de 1970 que vamos assistir ao início de um esforço sistemático por parte deste segmento de ultrapassar as práticas filantrópicas pulverizadas e avançar em direção a uma ação social que incorporasse, em alguma medida, as noções de direito e cidadania.” (GÓIS; SANTOS; COSTA, 2004, p. 101).
A década de 1990 acelera o sentimento de insegurança nos grandes centros urbanos com a aceleração do desemprego e o crescimento da violência. Desta forma, o setor privado passa a participar de forma mais aberta dos investimentos na área social, criando instituições empresariais que organizam e difundem valores e práticas éticas como o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas – GIFE (www.gife.org.br), o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social - ETHOS (www.ethos.org.br), o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável - CEBDS (www.cebds.org.br) com o objetivo de
mobilizar, sensibilizar, e ajudar as empresas a gerirem os seus negócios de forma socialmente responsável.
Já para Maimon (2006), as motivações para o empresariado brasileiro investir em RSC são: inserção no mercado internacional, exigência de consumidores externos e de acionistas de empresas multinacionais, obtenção de financiamento de agências multilaterais, avaliação de fundos sociais, pressão de consumidores e fornecedores por empresas ‘éticas’, e aproveitamento de incentivos fiscais.
As empresas brasileiras de maior inserção internacional são as de maior responsabilidade socioambiental [sic]. Neste grupo de empresas estão incluídas: as empresas exportadoras que sofrem discriminação através de barreiras não tarifárias, ecológicas e/ou sociais, sejam técnicas sejam as de certificação; as que dependem de financiamento de bancos internacionais, que exigem relatórios de impactos sócio-ambientais para a obtenção de recursos financeiros. (MAIMON, 1996).
De acordo com Cheibub e Locke (2002, p. 281), há uma tendência na discussão brasileira sobre a questão, a se privilegiar a filantropia e o idealismo ético, ressaltando-se a dimensão valorativa, ética da RSC. Embora se argumente que é do interesse das empresas a realização de ações que não lhes trazem benefícios diretos e imediatos, o discurso do “movimento” é eminentemente normativo.
O principal problema com esses modelos e com os argumentos que os sustentam é que eles se concentram na determinação das razões, dos motivos, das conseqüências e dos benefícios da RSE assumindo, quase que irrefletidamente, que todos os outros atores sociais ganham com a adoção de RSE. Essa suposição de que há um ganho líquido e certo para a sociedade da adoção de RSE decorre do fato de que não há nenhuma consideração da dimensão pública, política dessas ações. Tudo se passa em um vácuo político e social. (CHEIBUB e LOCKE, 2002, p. 281).
A discussão sobre as dimensões pública e política da RSC será apresentada no capítulo 4 deste trabalho. São muitos os elementos que devem ser considerados quando se estuda a ação das empresas nas esferas pública e política das sociedades.
Para encerrar esta explanação sobre o “estado da arte” da RSC no Brasil, alguns dados a respeito da percepção da sociedade civil sobre o tema devem ser apresentados para acrescentar mais informações à discussão.
Apesar daquela visão favorável ao papel das empresas, os consumidores brasileiros ainda esperam que o Estado desempenhe uma função regulatória importante e capaz de garantir uma maior participação das empresas. Seis em cada dez brasileiros (59%) acham que o governo
deveria criar leis estimulando as empresas a irem além das obrigações legais. (INSTITUTO ETHOS DE EMPRESAS E RESPONSABILIDADE SOCIAL, 2005, p. 20).
A pesquisa a respeito da percepção do consumidor sobre a responsabilidade social das empresas no Brasil produzida em 2004 (INSTITUTO ETHOS DE EMPRESAS E RESPONSABILIDADE SOCIAL, 2004) revelou que 44% dos entrevistados consideraram que as grandes empresas devem ir além de cumprir as suas obrigações mais básicas, estabelecendo padrões éticos mais elevados e participando efetivamente de uma sociedade melhor para todos. Além disso, 17% dos consumidores ouvidos afirmaram que ao menos uma vez, ao longo do ano anterior, deram preferência a um produto ou serviço de empresa considerada socialmente responsável.