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O conceito de responsabilidade social corporativa (RSC) tem uma longa e variada história. Embora venha se constituindo em um axioma, a RSC não representa uma unanimidade entre os empresários nem entre economistas, mesmo os liberais, que pregam o Estado Mínimo. Segundo Oliveira (2008) ainda há quem confunda responsabilidade social empresarial com filantropia ou ação social das empresas. O autor argumenta que a filantropia corresponde a prática de ações sociais com projetos não ligados diretamente aos negócios da empresa; ação social são doações ou projetos que beneficiam alguns grupos, como por exemplo, comunidades, famílias, Organizações Não Governamentais (ONG’s); já a responsabilidade social envolve atitudes, ações e relações com um grupo maior de interessados, os Stakholders: consumidores, fornecedores, sindicatos e o governo.

É possível encontrar evidências da preocupação do meio empresarial com a comunidade durante séculos. No entanto, os registros sobre responsabilidade social, surgem em grande parte no século 20. Além disso, embora se encontre registros de RSC em todo o mundo, principalmente nos Países desenvolvidos, as principais evidências estão na literatura dos Estados Unidos da América.

Para Carroll (2010), a era moderna da RSC começa na década de 50, e seu o marco é a publicação de Bowen (1953) que concebeu a crença de que as maiores empresas eram

centros vitais de poder e de tomada de decisão e que as ações dessas tocava a vida dos cidadãos em muitos pontos.

Outra contribuição importante para definir a responsabilidade social das empresas foi dada por McGuire (1963, p. 144), “A ideia de responsabilidade social supõe que a empresa tem não apenas as obrigações econômicas e jurídicas, mas também certas responsabilidades para a sociedade que se estendem além dessas obrigações”.

Nos anos 70, com os movimentos ambientais, a preocupação com a segurança do trabalho, consumo e regulação governamental cresce à discussão sobre RSC e se difunde pelos Países europeus, tanto nos meios empresariais, quanto nos acadêmicos. Na Alemanha, a doutrina avança muito rapidamente e as principais empresas incorporam aos seus balanços financeiros espaços para discussão sobre seus objetivos sociais. A França se torna o primeiro País a "obrigar as empresas a fazerem balanços periódicos de seu desempenho social no tocante à mão de obra e às condições de trabalho” (OLIVEIRA, 2000, p. 2-3).

Em 1970 o economista Milton Friedman, ganhador do prêmio Nobel esquentou o debate sobre RSC num artigo de grande repercussão publicado na revista do New York Times:

há uma e apenas uma responsabilidade social das empresas - para usar seus recursos e se envolver em atividades destinadas a aumentar os seus lucros, contanto que permaneça dentro das regras do jogo, o que quer dizer, se engaja em concorrência aberta e livre, sem engano ou fraude. (FRIEDMAN, 1970)

Em resumo, a visão ortodoxa de Friedman e de outros economistas defensores do livre mercado é de que a única responsabilidade social das empresas cumpridoras da lei é o de maximizar os lucros para os seus acionistas (Shareholders).

Concordando com a visão de Friedman, Bryaley e Myers (2000) postulam que o administrador financeiro deve de fato atuar privilegiando a maximização dos resultados (lucro) para os donos da empresa.

Segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), o termo Shareholders corresponde a determinado grupo que pode afetar de modo significativo uma empresa ou por ela ser afetado, composto pelos seus próprios acionistas.

Na década de 1980, o auge do período neoliberal comandado na Inglaterra pelo governo de Margareth Thatcher e pelo Presidente americano, o republicano Ronald Reagan, surgem muitas pressões sobre os Países em desenvolvimento no sentido de promover profundas alterações nos aspectos econômicos. No Brasil é o início do processo de privatização e a discussão sobre a saída do Estado do setor produtivo é terreno propício à discussão e difusão das ideias de responsabilidade social e ética empresarial.

Neste ambiente de liberalismo total, a ideologia do bem-estar-social cede lugar ao novo modelo de globalização. Furtado (1999, pág. 80) identifica tal ideologia como a “lógica

do complexo multinacional” caracterizada pela busca da maximização das vantagens para o

seu negócio e não nas vantagens relativas para os Países.

Para Melo (2001, pág.6) a RSC surge na lógica das empresas, dos seus acionistas e do governo como uma consciência de que a razão econômica da globalização pode levar a uma subversão da ordem social sem precedentes. Neste sentido, as ações de responsabilidade social corporativa fazem diminuir este risco. O autor identifica que para atuar socialmente é necessário encontrar uma nova racionalidade social sem subverter a racionalidade econômica das empresas, pois isto significaria força-las a serem ineficientes.

O economista Celso Furtado chama a atenção para este fato: “Não se pode condenar a racionalidade das empresas; pedir que se comportem de outra forma é querer que sejam pouco

eficientes”. (Furtado, 1999, pág.92)

A solução é proposta pelo próprio Furtado: “deve-se definir certos parâmetros para a racionalidade macro, definir se o critério que prevalece é o social ou puramente o

macroeconômico”. (Furtado, 1999, pág.92)

Alguns autores vinculam a RSC como atitude de marketing social, uma vez que para enfrentar a concorrência no mercado, os empresários buscam novos elementos de diferenciação além da qualidade do seu produto, que passa a ser secundária em relação às

marcas. “Esse é o papel do marketing social: trata-se de uma estratégia de negócios que busca criar uma imagem positiva da empresa por intermédio da defesa de causas sociais, culturais

ou ambientais” (BEGHIN, 2005, p. 30).

No entender de D’Ambrósio e Mello (2001), o conceito de RSC é entendido como um

compromisso da empresa com a sociedade com ações comunitárias na região em que está presente. Tenório (2004) afirma que a motivação de uma empresa para atuar de forma responsável pode se dar por pressões externas, pela forma instrumental ou por princípios.

Segundo Tinoco (2001), o conceito de RSC deve destacar o impacto das atividades das empresas para os grupos com os quais interagem (Stakeholders): empregados, fornecedores, clientes, colaboradores, consumidores, competidores, investidores, governos e a comunidade. Para o autor a RSC relaciona-se com situações cada vez mais complexas, como as questões socioambientais que afetam diretamente a sobrevivência dos negócios. Este conceito fica mais transparente com o exemplo colocado por Oliveira:

se uma empresa faz ação social, como ajuda na construção de um centro médico na comunidade próxima, mas ao mesmo tempo polui o meio ambiente ou trata mal seus empregados, essa ação social não poderia significar que a empresa age com responsabilidade social. (OLIVEIRA, 2008, p.69)

Como observamos a evolução da teoria dos Stakeholders (partes interessadas) postulada por Freeman (1984) amplia o conceito de que as empresas se relacionam somente com seus acionistas, empregados, fornecedores e clientes. A teoria encara a empresa como centro de constelação de interesses (figura 3) de indivíduos e grupos que afetam ou podem ser afetados pela atividade da empresa, e que com legitimamente procuram influenciar os processos de decisão, com o objetivo de obter benefícios para os interesses que defendem ou representam.

O conceito é de que existem outras partes envolvidas, incluindo órgãos governamentais, grupos políticos e associações comerciais e sindicatos e comunidades, empresas associadas, potenciais colaboradores, clientes potenciais e ao público em geral e às vezes até concorrentes são contadas como partes interessadas.

Figura 3: Representação da Teoria dos Stakeholders Fonte: Donaldson e Preston (1995)

A teoria dos Stakeholders está presente na definição de RSC segundo propõe a Comissão Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (World Business Solutions for a Sustainable World – WBCSD):

O comportamento ético da empresa perante a sociedade. A Gestão responsável em suas relações com outras partes interessadas que têm um legítimo interesse no negócio. (...) RSC é o compromisso contínuo por parte das empresas a se comportar de forma ética e contribuir para o desenvolvimento econômico, melhorando a qualidade de vida dos seus empregados e suas famílias, bem como da comunidade local e da sociedade em geral. WBCSD (1999)

No Brasil, segundo Caldeira (1999), as idéias pressupostas no conceito de responsabilidade social surgiram defendidas e executadas na época do Reinado de D. Pedro II, pelo Barão e Visconde de Mauá. O Barão foi um vitorioso empresário e precursor da

Governos e

Órgãos Públicos

Investidores

Grupos

Políticos

Fornecedores

Organizações

Comerciais

Clientes

Comunidades

Empregados

EMPRESA

industrialização no Brasil, e trouxe da Europa ideias sobre igualdade e justiça social. Mauá não empregou mão de obra escrava em suas empresas. O seu discurso e práticas provocaram uma forte reação sendo consideradas revolucionárias para época.

Na década de 80 há uma grande propulsão da RSC no mundo associável ao conceito de desenvolvimento sustentado, mas no Brasil segundo trabalho de Duarte (1986) havia até então uma carência quase total de trabalhos sobre o assunto. É razoável supor que contribuiu para tal carência a condição de repressão da liberdade civil imposta pela forte censura do período em que o País foi governado pelo regime militar de 1964 a 1985.

Quando o sociólogo Herbert de Souza nos anos 90 chamou atenção da sociedade brasileira para a necessidade urgente de combater a fome do Brasil e percorreu o País visitando governantes, empresas públicas e privadas, ele estava levando o discurso da Responsabilidade Social e desde então, o surgimento de programas sociais voltados ao combate e erradicação da miséria, como por exemplo, “Fome Zero” e “Bolsa Família” é uma conseqüência da aceitação dos conceitos que enfatizam a importância da RSC e o papel das empresas junto aos seus Stakeholders.

Para o Instituto Ethos:

Responsabilidade Social Empresarial é a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais.

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