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2. Revisão de Literatura

2.1. Responsabilidade Social Empresarial (RSE) – o conceito

O conceito de Responsabilidade Social Empresarial (RSE), “na sua formulação moderna (...) é um produto do período pós-Segunda Guerra Mundial” (Carroll, 2015, p. 87). Trata-se de um conceito recorrente na literatura, uma vez que “indica os impactos positivos das empresas nos stakeholder” (Tucker 2009, p. 411). De facto, a RSE poderá estabelecer-se como uma ferramenta que estrutura o uso responsável do envolvimento social e do poder do negócio (Tucker 2009, p.411), uma vez que “vários stakeholders de comunidades nacionais e internacionais esperam um uso mais responsável do aumento do poder dos negócios” (Tucker 2009, p.411).

Na década de 50 do século passado, o termo responsabilidade social empresarial não era muito abordado, falando-se mais, nesta época, de apenas responsabilidade social (Carroll, 2015). Foi com a publicação de Howard R. Bowen (1953) que se passou a dar mais importância ao tema Responsabilidade Social Empresarial. Por este motivo, Bowen poderia ser chamado de “Pai da Responsabilidade Social Empresarial” (Carroll, 1999, pp. 269–270).

Bowen, com o trabalho intitulado “Social Responsibilities of the Businessman” de 1953, considerava “que os empresários tinham a obrigação de seguir políticas, decisões e ações consideradas desejáveis pela sociedade” (Carroll, 2015, p. 87).

Este conceito tem sofrido alterações com o passar do tempo, estando interligado com o contexto social, “A RSE é um conceito multidisciplinar e é definida de acordo com o contexto a que é aplicada” (Low, 2016, p. 62). De facto, os objetivos de Responsabilidade

13 Social Empresarial foram-se alterando de acordo com as preocupações existentes em cada época.

Na década de 60 houve uma crescente consciencialização social que levou a Responsabilidade Social Empresarial a maiores desafios (Carroll, 2015, p. 88). Nesta década houve “a emergência de movimentos sociais no domínio dos direitos civis, direitos das mulheres, direitos dos consumidores e um desejo por proteção ambiental que cresceu a tal nível de ativismo que ficaram considerados como os precursores mais importantes do movimento moderno de RSE” (Carroll, 2015, p. 88). Ao nível da literatura da época, McGuire (1963) considerou que a Responsabilidade Social Empresarial estende-se para além das obrigações económicas ou jurídicas de uma empresa (Carroll, 1999; Douglas, Doris, &

Johnson, 2004; S. Y. Lee & Carroll, 2011; Turker, 2009).

A década de 70 é marcada pela resposta significativa dos governos às questões dos anos 60, criando organismos de apoio nesse sentido (Carroll, 2015, p. 88). Isto é, “como resultado dos movimentos sociais da década de 1960 e início de 1970, o governo federal dos EUA fez avanços significativos no que diz respeito às regulamentações sociais e ambientais” (Latapí Agudelo, Jóhannsdóttir, & Davídsdóttir, 2019, p. 5). Nesta década, foram criadas empresas de renome que têm a Responsabilidade Social Empresarial incutida no seu core business, tais como “Body Shop, que foi criada em 1976 no Reino Unido e a Ben & Jerry’s fundada em 1978 nos EUA” (Latapí Agudelo et al., 2019, p. 6). Assim sendo, esta era poderá ser classificada, tal como proposto por Carroll (2015), «era da “gestão da responsabilidade social empresarial”`» (Carroll, 2015, p. 88). Uma vez que, “a transformação social das empresas ganhou mais força na década de 1970, seja devido a interesses próprios esclarecidos ou em resposta a requisitos regulamentais ou protestos de ativistas” (Carroll, 2015, p. 88).

Archie Carroll em 1979, para definir Responsabilidade Social Empresarial, tomou como base o facto de se tratar de um aspeto que deve abranger uma ampla gama de responsabilidades das empresas com a sociedade, que vai para além do lucro da empresa e de obedecer à lei (Carroll, 1999, p. 282, 283). Considerou, portanto, com o seu trabalho denominado “A Three-Dimensional Conceptual Model Of Corporate Social Performance”

que “a responsabilidade social das empresas engloba as expectativas económicas, legais, éticas e filantrópicas que a sociedade tem das organizações num determinado momento”

(Carroll, 1979, p. 500). Este autor trouxe avanços à literatura deste conceito ao considerar que o conceito estava dividido em quatro categorias. Isto é, autores anteriores consideraram

14 apenas que a RSE era caraterizada por questões económicas, questões legais e questões “go beyond” dessas atividades, enquanto que Carroll especificou a natureza das responsabilidades dessas últimas atividades (Carroll, 1999).

Na década de 90, “três fortes tendências em RSE emergiram, cresceram e continuam connosco até aos nossos dias: globalização, institucionalização e reconciliação estratégica”

(Carroll, 2015, p. 88). Nesta altura, muitas empresas dos EUA internacionalizaram os seus negócios, havendo consequentemente uma exportação da RSE (Carroll, 2015; Latapí Agudelo et al., 2019). Este acontecimento gera novos desafios para a Responsabilidade Social Empresarial, uma vez que terá de haver uma adaptação às culturas e uma identificação de novas questões sociais no exterior (Carroll, 2015).

Mais tarde, Carroll (1991) reformulou a sua abordagem revelando a “Pyramid of Corporate Social Responsibility”. Esta nova abordagem de Carroll considerou que o conceito de Responsabilidade Social Empresarial era composto por quatro categorias: económica, legal, ética e filantrópica. Além disso, essas quatro categorias da RSE podem ser representadas como uma pirâmide (Carroll, 1991, p. 40).

A responsabilidade económica aparece como a principal responsabilidade da empresa, uma vez que precisa de garantir a sua continuidade no tempo. A responsabilidade legal relaciona-se com o que é imposto por lei às empresas. A responsabilidade ética é a responsabilidade além da lei, ou seja, comportamentos que não são impostos por lei, mas que estão de acordo com as normas da sociedade. Por último, a responsabilidade filantrópica é o contributo, de forma voluntária por parte da empresa, para com a sociedade que não é exigido pela economia, pela lei ou pela ética.

Na base da pirâmide situa-se a economia. Segundo Carroll (1991), existe uma analogia entre a base da pirâmide e o facto de ser sobre ela que todas as outras categorias se baseiam.

As categorias legais, éticas e filantrópicas seguem então a categoria económica (ver figura 1).

Carroll considerou, também, que “os negócios não devem cumprir esses requisitos de maneira sequencial, mas que cada um deve ser cumprido a todo o momento. Também deve ser observado que a pirâmide era mais uma representação gráfica da RSE do que uma tentativa de adicionar um novo significado à definição em quatro partes” (Carroll, 1999, p.

289).

15 Apesar deste modelo ter sido altamente utilizado por vários pesquisadores, por exemplo (Arli & Lasmono, 2010), Carroll considerou críticas ao seu próprio modelo. O autor considerou que o facto de se tratar de uma pirâmide poderá evidenciar que no topo da pirâmide está identificada a categoria mais importante (categoria filantrópica). Ou seja, poder-se-ia olhar para as categorias com a ideia de uma hierarquia entre elas e esta não era a intenção do autor, uma vez que identificou que a categoria económica era a mais importante (Schwartz & Carroll, 2003, p. 505). Por outro lado, o autor também criticou a questão de uma pirâmide “não pode capturar totalmente a natureza de sobreposição dos domínios da RSE” (Schwartz & Carroll, 2003, p. 505). Além disso, o autor também constatou que a categoria filantrópica poderá ser mal interpretada, uma vez que se trata de comportamentos de caráter voluntário e não responsabilidades (Schwartz & Carroll, 2003, p. 505).

Fonte: Carroll, 1991, p.42

Fonte: Carroll, 1991, p.42

Figura 1 - A pirâmide da Responsabilidade Social Empresarial

Figura 2 - A pirâmide da Responsabilidade Social Empresarial

Figura 3 - A pirâmide da Responsabilidade Social Empresarial

Figura 4 - A pirâmide da Responsabilidade Social Empresarial

16 Tendo em consideração estas críticas, mais tarde Schwartz e Carroll (2003) sugeriram um novo modelo designado “The Three-Domain Model of Corporate Social Responsibility” (ver figura 2).

Este novo modelo é composto por três categorias: económica, legal e ética. Este modelo é baseado nas variáveis propostas por Carroll (1991), “com a exceção de que a categoria filantrópica é subsumida sob os domínios éticos e/ou económicos, refletindo as possíveis motivações diferentes para as atividades filantrópicas”. Além disso, “ao usar um diagrama de Venn, o modelo sugere inicialmente que nenhum dos três domínios de RSE (ou seja, económico, legal ou ético) é prima facie mais importante ou significativo em relação aos outros” (Schwartz & Carroll, 2003).

Mais tarde, Dahlsrud (2008) analisou 37 definições e encontrou cinco dimensões consideradas para o conceito de Responsabilidade Social Empresarial: ambiental, social, económica, stakeholders e voluntariedade (Dahlsrud, 2008). Outra conclusão do autor foi que “a dimensão ambiental recebeu uma proporção de dimensão significativamente menor do que as outras dimensões” (Dahlsrud, 2008, p. 5).

Fonte: Schwartz & Carroll, 2003, p.509

Fonte: Schwartz & Carroll, 2003, p.509

Fonte: Schwartz & Carroll, 2003, p.509

Fonte: Schwartz & Carroll, 2003, p.509

Figura 2 - The Three-Domain Model of Corporate Social Responsibility

FIGURA 5-THE THREE-DOMAIN MODEL OF CORPORATE SOCIAL

RESPONSIBILITY

Figura 6 - The Three-Domain Model of Corporate Social Responsibility

FIGURA 7-THE THREE-DOMAIN MODEL OF CORPORATE SOCIAL

RESPONSIBILITY

Figura 8 - The Three-Domain Model of Corporate Social Responsibility

FIGURA 9-THE THREE-DOMAIN MODEL OF CORPORATE SOCIAL

RESPONSIBILITY

Figura 10 - The Three-Domain Model of Corporate Social Responsibility

FIGURA 11-THE THREE-DOMAIN MODEL OF CORPORATE

SOCIAL RESPONSIBILITY

17 Em 2015, Carroll voltou a trabalhar no âmbito da Responsabilidade Social Empresarial com um trabalho intitulado “Corporate social responsibility: The centerpiece of competing and complementary frameworks”, concluindo que “enquanto a economia mundial continuar a crescer, espera-se que a RSE também” (Carroll, 2015, p. 95).

Neste sentido, a Responsabilidade Social Empresarial tem crescido ao longo dos anos e acompanhado o contexto social envolvente. Através da figura 3, é possível analisar essa mesma relação de forma esquematizada.

Hoje em dia, o conceito de Responsabilidade Social Empresarial está muitas vezes associado à inovação e à criação de valor para as empresas. Segundo Bacinello, Tontini, &

Alberton, (2020), p. 749 “podemos dizer que a RSE está estrategicamente ligada a inovações sustentáveis, possibilitando a criação de valor económico, social e ambiental, gerando vantagem competitiva e melhorando o desempenho dos negócios”.

Figura 3 - Evolução do conceito - Responsabilidade Social Empresarial

FIGURA 12-EVOLUÇÃO DO CONCEITO -RESPONSABILIDADE

SOCIAL EMPRESARIAL

Figura 13 - Evolução do conceito - Responsabilidade Social Empresarial

FIGURA 14-EVOLUÇÃO DO CONCEITO -RESPONSABILIDADE

SOCIAL EMPRESARIAL

Figura 15 - Evolução do conceito - Responsabilidade Social Empresarial

FIGURA 16-EVOLUÇÃO DO CONCEITO -RESPONSABILIDADE

SOCIAL EMPRESARIAL

Figura 17 - Evolução do conceito - Responsabilidade Social Empresarial

FIGURA 18-EVOLUÇÃO DO CONCEITO -RESPONSABILIDADE

SOCIAL EMPRESARIAL Fonte: Carroll (2015), p.91

FONTE:CARROLL (2015), P.91

Fonte: Carroll (2015), p.91

FONTE:CARROLL (2015), P.91

Fonte: Carroll (2015), p.91

18 Tendo em consideração o conjunto de definições apresentadas sobre a Responsabilidade Social Empresarial, surge aqui uma questão: Quais são as dimensões da RSE? De facto, não existe uma resposta exata para esta questão, mas autores como Matten e Moon (2008) sugeriram que a RSE poderá ser estruturada por dimensões explícitas e implícitas (Matten & Moon, 2008; Pan, Sinha, & Chen, 2021). Além disso, o conceito é de natureza multidimensional (Alvarado-Herrera et al., 2017; Pan et al., 2021). Assim, estudos como Alvarado-Herrea et al., (2017) e Salmones Sanches & Del Bosque (2008) baseados na definição teórica de desenvolvimento sustentável consideram que as variáveis da Responsabilidade Social Empresarial são: económica, ambiental e social. Este facto é justificado pela relação entre o desenvolvimento sustentável e o modelo “triple bottom line”, uma vez que “uma proposta pragmática é alargar a contabilidade tradicional de “resultados”, que mostra uma rentabilidade líquida global, a um “resultado financeiro triplo” que incluiria aspetos económicos, sociais e ambientais da empresa ”(Garriga & Melé, 2004, p. 62).

Alvarado-Herrera et al., (2017) procuraram desenvolver uma escala de medição sobre as perceções de Responsabilidade Social Empresarial do consumidor e identificaram “três dimensões propostas pela abordagem do desenvolvimento sustentável: desenvolvimento económico, equidade social e responsabilidades de proteção ambiental” (Alvarado-Herrera et al., 2017, p. 257).

2.2. Reação dos consumidores à Responsabilidade Social

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