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3. M ARCO TEÓRICO

3.4 RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL

“O comportamento dos consumidores está criando novas relações com as empresas no mundo inteiro e delineando os contornos de uma nova ordem econômica” (TACHIZAWA; ANDRADE, 2008, p.2).

Apesar da mudança comportamental desenvolvida pelo consumidor, temos encontrado muitos entraves por parte do empresariado. De um lado temos a consciência ambiental dos consumidores e do outro temos a visão empresarial de minimizar os custos de produção.

Até meados da década de 1980, predominou no discurso empresarial uma resistência a qualquer iniciativa de minimizar os impactos socioambientais decorrentes da atividade produtiva. No que se referia especificamente aos problemas de degradação ambiental, os representantes empresariais argumentavam que os custos adicionais para as empresas resultantes dos gastos em controle da poluição, comprometeriam a lucratividade, a competitividade e a oferta de empresas, gerando, portanto, prejuízos as partes interessadas, ou seja, trabalhadores, acionistas e consumidores. Nesse contexto, a estratégia das empresas era segundo jargão econômico, externalizar os custos ambientais, ou seja, transferi-los para a sociedade, poupando o verdadeiro causador de arcar com qualquer ônus para reverter o problema. (DEMAROJOVIC, 2003, p.33).

No entanto, a partir de meados da década de 80, o discurso empresarial que enaltecia o papel executivo das empresas como fomentadoras da riqueza, encontraria cada vez menos respaldo da sociedade. Ao mesmo tempo em que a mobilização em torno da questão ambiental multiplicava os debates sobre essa temática em diversos países, o setor público, por meio de suas agencias ambientais, aprimorava a regulação ambiental, convertido os danos e as ameaças ao meio ambiente em custo direto para os negócios. Além disso, a exposição na mídia de tragédias ambientais provocadas por grandes empresas colocava o setor industrial como alvo prioritário dos protestos de grupos ambientalistas.

Conforme Denis Smith (1993), alguns acidentes ambientais marcaram a história da humanidade para sempre, dentre eles, destacam-se, o vazamento de metil-isocianato de uma subsidiária da Union Carbide, em Bhopal, que causou a morte de 3 mil pessoas e afetou outros milhares com a delimitação progressiva da saúde e a morte prematura; o vazamento de material radioativo de usina de

Chernobyl, provocando a morte de 10 mil pessoas e mais um numero incalculável de

câncer em vários países da Europa; o vazamento da Exxon Valdez, gerando

prejuízos inestimáveis no Alasca. A multiplicação dos danos ambientais que, mesmo quando não tratados como catástrofes imediatas, se materializam diariamente na destruição da camada o ozônio pelos gases clorofluorcarbonos (CFCs), na

destruição das florestas provocada por indústrias de couro e de papel, no aquecimento global associado aos poluentes químicos e a emissão dos veículos, e em outras formas mais comuns de incômodos que podem ser observados na voz, na face, nos olhos e nas lágrimas dos habitantes de grandes centros urbanos, como a cidade de São Paulo no Brasil. (DEMAROJOVIC, 2003, p.34).

O final da década de 1980 e toda a década de 1990 são marcados pela formulação de novas abordagens teóricas nos países desenvolvidos sobre a relação das organizações empresariais com o meio ambiente, contrastando com o posicionamento tradicional das empresas até meados da década de 1980, como demonstra no quadro 02:

Período Abordagem Valor Concepção Atitude

Até 1970 Sem controle de

poluição Lucro Indiferença aos problemas Ambientais Poluir e degradar (externalizar custos) Até 1985 Controle da Poluição Lucro e respeito a regulação O controle da poluição diminui os lucros Poluir no limite que a regulação permite Até 1998 Prevenção da poluição Lucro, respeito à regulação e eficiência Aumento dos lucros Reduzir resíduos no processo produtivo e desenvolver maior política de segurança ? Análise do Ciclo de Vida Lucro, eficiência e qualidade ambiental Aumento dos lucros e de vantagens competitivas no longo prazo Gerenciar o produto desde a produção até sua

disposição final ? Desenvolvimento sustentável Lucro e preservação da qualidade ambiental no longo prazo Aumento da produção e de vantagens competitivas no longo prazo Produzir produtos que não agridam o meio ambiente

Quadro 2 - Evolução das abordagens de gestão ambiental empresarial

Fonte: Ronie-Rechele G. Johnson, 1998 apud Demarojovic, 2003, p. 54.

“Embora existam diversos estudos mostrando as vantagens para as empresas de incorporar abordagens proativas no campo socioambiental, a maior parte das organizações continua a optar por uma estratégia reativa em seu dia-a-dia.” (DEMAROJOVIC, 2003, p.53).

Para as empresas, o desafio de superar a perspectiva reativa, segundo alguns teóricos das organizações, está justamente em conseguir conciliar o

investimento necessário para minimizar os impactos ambientais, mantendo a competitividade. Porter e Linde alertam esse desafio porque permanecem com uma visão dicotômica entre o meio ambiente e produtividade. Para esses autores, tal posição só seria válida em um mundo estático, onde tecnologia, produtos, processos e necessidades dos consumidores fossem todos fixos. Dessa forma, escolhidas as alternativas para redução dos custos, qualquer gasto adicional para cumprir os padrões de qualidade ambiental significaria um impacto nos custos de produção, afetando, portanto a competitividade (DEMAROJOVIC, 2003).

Estudos têm demonstrado que as estratégias mais comuns encontrada nas empresas que incorporam a gestão ambiental continuam a ser o investimento em tecnologias para controle da poluição. Essa alternativa resultou em ganhos para a qualidade ambiental em vários setores industriais. Conforme diversos estudos, publicados em revistas especializadas, mostram que um número significativo de empresas tem reduzido a emissão de poluentes perigosos e melhorado seu tratamento secundário em decorrência da modernização tecnológica e da racionalização dos processos produtivos.

Embora, de um lado, essa alternativa seja eficaz em fazer com que muitas organizações operam dentro dos padrões estabelecidos pela legislação e, portanto, evitam problemas futuros com órgãos ambientais, de outro acentua uma característica marcante das empresas em relação ao controle da qualidade ambiental: suas preocupações sociais e ambientais correm sempre atrás do avanço dos processos de produção, responsáveis pelos danos ecológicos. Isso fica evidente ao se considerar a opção da maioria em atuar no final do processo produtivo e não em seu início. Se as matérias-primas, as tecnologias e os produtos podem ser considerados elementos cruciais do processo de tomada de decisão das empresas, o mesmo não ocorre com a variável ambiental. O emprego de tecnologias de fim de tubo, que leva as empresas a investir em filtros ou centrais de tratamento de efluentes líquidos para garantir o cumprimento das normas ambientais, representa apenas uma correção da rota, depois de consumada a tomada de decisão. (DEMAROJOVIC, 2003, p.55).

A responsabilidade socioambiental é a resposta natural das empresas ao novo cliente, o “consumidor verde” e ecologicamente correto. A “empresa verde” passou a ser sinônimo de bons negócios e, no futuro, será a principal forma de empreender negócios de forma duradoura e lucrativa. Quanto antes as organizações

começarem a enxergar a sustentabilidade como seu principal desafio e como oportunidade competitiva, maior será a chance de que sobrevivam (TACHIZAWA; ANDRADE, 2008, p.1).

3.4.1 O desafio do processo de aprender no campo socioambiental

Uma organização aprende sempre que seu repertório de informações (conhecimento, entendimento, know-how, técnicas e práticas), construindo e transformando diariamente por meio das relações internas e externas e da aquisição e perda de membros, modifica as estratégias organizacionais. No entanto, será o embate entre seus membros que determinará se o conhecimento em transformação diária será utilizado para a preservação do conhecimento associado às habilidades e atividades ou será transformado com o objetivo de desenvolver novas habilidades e atividades.

Os recentes debates sobre a responsabilidade socioambiental das empresas põem em xeque a visão do desempenho organizacional, centrado exclusivamente nos indicadores financeiros tradicionais, como lucratividade, participação no mercado e nível de investimento. Assim, a definição dos valores que qualificam a melhoria torna-se crucial, uma vez que os ganhos de eficiência nem sempre são normalmente construídos e a forma pela qual avaliamos sua validade que determinam a qualidade do aprendizado.

Mesmo não querendo, as empresas que lideram o discurso do emprego moderno terão que reconhecer que são participantes responsáveis de uma ordem moral tendo que aceitar limite, exercer cautela e reconhecer valores múltiplos,

melhorar – nas palavras de Selznick – sua competência moral.10

Assim, a discussão sobre o aprendizado organizacional não se limita à capacidade de manter uma organização competitiva; inclui também a capacidade de se adequar às demandas sociais e ambientais em um contexto de mudança. (DEMAROJOVIC, 2003, p.167).

10 Peter Spnik, “Empregabilidade – comentários a partir do ensaio de Helena Hirata”, em Alípio Casali ET AL., Empregabilidade e educação..., cit., pp.51-57.

Para Ponchirolli (2009, p,46):

“A experiência histórica, a tradição de liberdade e a democracia criam nas pessoas, nos grupos e na sociedade o senso da justiça que se traduz em sentenças sapienciais, as nossas convicções ponderadas que serão elevadas a princípios de nova sociedade”.