Abstract
The objective of this work is to evaluate the evolution of rules and control, related to public health, that emerged in Brazil, from the Spanish Flu and Covid-19. For this, the main legal control rules in response to different periods in Brazil were analyzed: between 1918 and 1920, for the Spanish Flu, and 2020, in the case of Covid-19. The rules analyzed will be those of a Federal scope aimed at controlling pandemics through quarantine measures.
Keywords: Public policies. Legal rules. Control. Answer to Spanish Flu and Covid-19.
1 INTRODUÇÃO
Em uma nação, as leis regularizam a vida da população e conduzem os atos institucionais, para isso, é necessário que o legislador seja isento de intenções pessoais para que as normas jurídicas preceituem em prol do bem comum e do país. Assim, a evolução dos Direitos se faz
35 Graduanda em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG. E-mail: [email protected].
necessária com base em períodos históricos que contextualizam os cenários e as experiências de cada momento.
Nessa perspectiva, o presente paper tem como objetivo apresentar as principais normas jurídicas, no âmbito federal, que abordaram o controle da pandemia no período entre 1918 e 1920, para a Gripe Espanhola, através de projetos de lei; e 2020, no caso da Covid-19, foco na a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020.
Para isso, inicialmente, será feita uma breve comparação dessas Pandemias no Brasil. A seguir, serão apresentadas as normas jurídicas referentes ao tema de acordo com os limites estipulados no presente estudo.
2 GRIPE ESPANHOLA X COVID-19
Segundo Alves, existem diversas semelhanças entre a pandemia de Gripe Espanhola, ocorrida no início do século XX, e a situação enfrentada, atualmente, pela pandemia do Coronavírus, apesar de 100 anos entre elas. Eles são vírus facilmente transmissíveis, o que facilita sua rápida propagação (ALVES, 2020, p. 01).
Conhecida como Influenza Hespanhola, a pandemia que ocorreu em 1918 e 1919, assim como o Covid-19, também se alastrou por todas as regiões do planeta, e deixou um grande número de infectados e mortos.
Estima-se que ela vitimou entre 20 milhões e 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Entretanto, existem dificuldades para o cálculo de adoecidos e mortos na pandemia de 1918 (ALVES, 2020, p. 01).
Diferente da atual, que
Ao contrário da Gripe Espanhola, o atual surto tem sua origem já estabelecida, suas formas de propagação bem conhecidos e maneiras de evitar a contaminação. A situação está gerando uma corrida contra o tempo na busca por um remédio para curar os doentes e por uma vacina para tentar evitar novos casos. Não há comparação entre o conhecimento científico de um século atrás e o atual. Vale destacar aqui o importante papel que a Fundação Oswaldo Cruz vem desempenhando neste contexto (ALVES, 2020, p. 4).
Salienta-se que a Fiocruz é uma instituição centenária já existia na época da epidemia de Gripe, com a finalidade original de fabricar soros e vacinas contra a peste bubônica que “aos poucos, foi ampliando suas
atividades e seu papel dentro do cenário científico brasileiro” (ALVES, 2020, p. 01).
A origem da Gripe Espanhola é dada “pela queda dos padrões sanitários e pelos efeitos da escassez alimentar decorrentes da Primeira Guerra Mundial (conflito bélico ocorrido entre 1914 e 1918)” (ALVES, 2020, p. 01). Já a Pandemia do Coronavirus, de acordo com os cientistas,
“trata-se de um vírus que sofreu mutações naturais, transmitido aos humanos provavelmente a partir de algum animal na cidade de Wuhan, na China” (ALVES, 2020, p. 03).
Cabe destacar que o atual presidente da República, Jair Bolsonaro, e o Diretor Geral da Saúde Pública de 1918, Carlos Seidl, 102 anos antes, utilizaram o mesmo discurso que os vírus não passariam de uma
“gripezinha”. “Além disso, o presidente pediu que as pessoas retornassem ao trabalho, voltassem a normalidade assim como as pessoas que viveram em 1918 tentaram fazer no início daquele surto epidêmico” (ALVES, 2020, p. 04).
As autoridades brasileiras, tanto em 1918 quanto em 2020, ouviram com descaso as notícias vindas da Europa e Ásia, pois, acreditavam que a doença não chegaria ao Brasil, o que não aconteceu. Em 1918, “a doença chegou ao país a bordo do navio inglês SS Demerara (uma espécie de Correios britânicos), no dia 17 de setembro de 1918. Esse navio chegou com a tripulação contaminada e passou livremente pelos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, repleto de doentes” (ALVES, 2020, p. 03).
3 AS NORMAS JURÍDICAS DE CONTROLE EM RESPOSTA À GRIPE ESPANHOLA E À COVID-19
Em 1918, os senadores e deputados apresentam uma série de projetos de lei que buscavam combater a Gripe Espanhola. Esses Projetos de lei têm como objetivo amenizar o sofrimento dos brasileiros (WESTIN, 2020, 3ª parte, 11s).
Um dos projetos determina que todos os estudantes brasileiros do colégio à universidade vão ser aprovados automaticamente. (WESTIN, 2020, 3ª parte, 11s). O presidente interino Delfim sanciona que nenhum estudante será reprovado nesse ano (WESTIN, 2020, 3ª parte, 2m20s).
Em outra linha, o Deputado Celso Bayma, de Santa Catarina, escreve um projeto de lei que favorece os comerciantes. O projeto diz que as dívidas que vencerem em plena a epidemia de gripe espanhola ganharam um prazo a mais. Elas poderiam ser quitadas até quinze dias depois do vencimento original, pois os comerciantes fecharam as portas
durante a epidemia e deixaram de lucrar. Entretanto, esse projeto de lei foi rejeitado (WESTIN, 2020, 3ª parte, 2m 22 s).
Com a situação sem controle, ocorreu uma reivindicação dos jornais e parte da população da capital federal pelo retorno das quarentenas e isolamentos. Porém, o Diretor Geral, Carlos Seidl defendia que “quarentenas e isolamentos não eram “nem possíveis, nem legais, nem científicos”” (ALVES, 2020, p. 03, “grifo do autor”).
Entretanto, houve uma piora, que acarretou a demissão de Carlos Seidl do cargo, sendo dado ao sanitarista Carlos Chagas, que teve discurso e medidas contrárias do diretor anterior. Carlos Chagas tomou medidas mais enérgicas para o combate à enfermidade. (ALVES, 2020, p. 03)
O Deputado Azevedo Sodré defendeu que a culpa da pandemia da gripe espanhola não era da Santa Casa do Rio de Janeiro, que na época foi acusada de matar os doentes, com o “chá da meia-noite”, mas que na verdade as pessoas quando chegavam ao hospital já estavam em estado terminal. De acordo com o deputado, a culpa era da Diretoria Geral de Saúde Pública, que subestimou a notícia da gripe não impondo quarentena aos navios que vinham de fora, mesmo já tendo notícias sobre a pandemia.
Nesse período o deputado apresenta um projeto de lei que transformava essa diretoria de saúde no ministério da saúde, mas esse projeto não vai para frente. Em 1919/1920 o congresso aprova e o presidente Epitácio pessoa sanciona uma grande reforma na saúde brasileira (WESTIN, 2020, 5ª parte, 2m 29s).
Com relação ao Covid-19, segundo O Boletim nº 10, Direitos na Pandemia, da Conectas Direitos Humanos e do Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário - CEPEDISA da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo – USP.
Em fevereiro de 2020, o Ministério da Saúde apresentou o Plano de Contingência para a resposta à Covid-19. Diferentemente de outros países, o documento não traz qualquer referência à ética, aos direitos humanos ou liberdades fundamentais, sequer os relacionados ao cotidiano da emergência, como a gestão de insumos escassos ou à relação médico- paciente, ignorando tanto a lei brasileira (nº 13.979, de 06/02/20) como o Regulamento Sanitário Internacional, vigente no Brasil, ambos determinando expressamente que a resposta às emergências deve ser feita com pleno respeito à dignidade, aos direitos humanos e às liberdades
fundamentais das pessoas (CONECTAS DIREITOS HUMANOS; CEPEDISA, 2021, p. 6).
No presente Boletim são apresentadas 3.049 normas relacionadas à Covid-19 no âmbito da União em 2020. Dentre elas estão: 1788 Portarias, 884 Resoluções, 66 Instruções Normativas, 59 Medidas Provisórias, 54 Decisões, 50 Leis, 24 Decretos etc. (CONECTAS DIREITOS HUMANOS; CEPEDISA, 2021, p. 6).
A intensa atividade normativa do Poder Executivo relacionada à Covid-19 manteve-se durante todo o ano de 2020. Além de pulverizar a regulação da emergência, ela limita o papel do Poder Legislativo e favorece a judicialização da saúde, pois a conformidade dos atos normativos do Poder Executivo com a lei e com a Constituição Federal é frequentemente questionada junto ao Poder Judiciário. Uma das mais importantes características da legislação federal sobre a pandemia é a ausência de participação cidadã em sua elaboração. Mecanismos de consulta, conselhos e entidades representativas que poderiam atuar em prol da eficiência da resposta foram ignorados ou até desmontados. A relação do governo federal com a sociedade civil é de antagonismo explícito, afrontando os princípios consagrados pela legislação do SUS, além de comprometer a legitimidade do acervo normativo, já que estas normas infralegais amiúde ultrapassam o âmbito administrativo, criando obrigações para a população em geral, de forma fragmentada e por vezes até contraditória. O caráter de urgência poderia justificar a ausência de participação, não fosse a evidente lentidão da tomada de providências que o estudo das normas reflete.
Quem participa da elaboração das normas tende a colaborar com sua aplicação, o que pode ser decisivo durante uma emergência. (CONECTAS DIREITOS HUMANOS; CEPEDISA, 2021, p. 6).
Nessa lógica, é possível entender que, no âmbito federal, ocorreu, além de uma ausência de foco nos direitos, também existiu uma manobra do governo brasileiro, sob a liderança do atual Presidente da República, em propagar o vírus.
Com relação às medidas de quarentena, associada ao lockdown, que essencialmente consiste em evitar aglomerações e restringir a circulação da população em lugares públicos, o inciso II, do art. 2º a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, que não trata expressamente do assunto, mas define a quarentena como (CONECTAS DIREITOS HUMANOS; CEPEDISA, 2021, p. 33).
II - quarentena: restrição de atividades ou separação de pessoas suspeitas de contaminação das pessoas que não estejam doentes, ou de bagagens, contêineres, animais, meios de transporte ou mercadorias suspeitos de contaminação, de maneira a evitar a possível contaminação ou a propagação do coronavírus (BRASIL, 2020).
Para a presente lei, foram inseridas algumas modificações que:
resguardam os serviços públicos e atividades essenciais; condicionam a adoção de medidas de saúde pública que afetam a execução de serviços públicos e de atividades essenciais, inclusive os regulados, concedidos ou autorizados, à formalização em ato específico; e por fim se referem a
“profissionais essenciais” que obrigam as medidas de saúde pública, entre elas a quarentena. Elas se encontram, respectivamente, no § 7º-C, § 11, J
§ 1º do art. 3° (CONECTAS DIREITOS HUMANOS; CEPEDISA, 2021, p.33).
É importante falar que a quarentena e testagem foram aplicadas no
“fechamento de fronteiras”, termo para restrição temporária e excepcional da entrada de não nacionais no Brasil, que foi uma reação imediata de vários países, impedindo a entrada dos não nacionais, também ocorreu no Brasil. A Portaria nº 255, que pode ser considerada com o marco infralegal do chamado "fechamento de fronteiras" unificou todas as portarias anteriores (CONECTAS DIREITOS HUMANOS; CEPEDISA, 2021, p. 49).
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir do exposto, é possível afirmar que, no âmbito federal, em ambos os períodos, a atuação do Governo Federal brasileiro não buscou uma atuação preventiva efetiva para amenizar os danos causados pelas pandemias. Enquanto, em 1918, a Diretoria-Geral de Saúde Pública atuava de forma tímida, tendo apenas como responsabilidade a barreira
sanitária dos portos e a higiene da capital do país, em 2020, o Governo, liderado pelo PR Jair Bolsonaro, atuou de forma a acelerar a infecção das pessoas, alegando “imunização de rebanho”, o que já era comprovado que não funciona para o Covid-19.
A atuação do atual governo demonstra uma irresponsabilidade muito maior do que a de 1918, pois nos dias atuais a ciência tem instrumentos e conhecimento por evidências que amenizariam as infecções e mortes por Covid-19.
REFERÊNCIAS
ALVES, Gabrielle Werenicz. Uma comparação entre a pandemia de Gripe Espanhola e a pandemia de Coronavírus. In: Coronacrise. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2020. Disponível em:
https://viana.ifes.edu.br/images/stories/APNP/Gripe_Espanhola/Uma_co mpara%C3%A7%C3%A3o_entre_a_pandemia_de_Gripe_Espanhola_e_
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BRASIL. Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020. Dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do Corona vírus responsável pelo surto de 2019. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/lei/l13979.htm. Acesso em: 04 fev. 2022.
CONECTAS DIREITOS HUMANOS; CEPEDISA - Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário. Direitos na Pandemia:
Mapeamento e Análise das normas jurídicas de resposta à Covid-19 no Brasil. In: Boletim n. 10 Direitos na Pandemia, São Paulo, 2021.
Disponível em: https://static.poder360.com.br/2021/01/boletim-direitos-na-pandemia.pdf. Acesso em: 04 fev. 2022.
WESTIN, Ricardo. Gripe espanhola: a catastrófica epidemia que varreu o Brasil em 1918 3ª parte. Rádio Senado. 2020 (5m34s). Disponível em: https://www12.senado.leg.br/radio/1/series-
especiais/2018/12/07/gripe-espanhola-a-catastrofica-epidemia-que-varreu-o-brasil-em-1918. Acesso em: 04 fev. 2022.
WESTIN, Ricardo. Gripe espanhola: a catastrófica epidemia que varreu o Brasil em 1918 5ª parte. In: Rádio Senado. 2020 (6m24s). Disponível em:
https://www12.senado.leg.br/radio/1/series- especiais/2018/12/07/gripe-espanhola-a-catastrofica-epidemia-que-varreu-o-brasil-em-1918. Acesso em: 04 fev. 2022.