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5.2 A rede de organizações da qual faz parte a Associação ANJU

5.2.3 Resposta ao problema de pesquisa da rede ANJU

O conjunto de dados das fontes de observação participante, observação não participante e de entrevistas apontou correspondências entre alguns indicadores de governança relacional e resultados sociais, o que sustentou parcialmente a proposição da pesquisa. As correspondências encontradas nesta rede podem ser observadas no Quadro 14.

Quadro 14 – Triangulação das correspondências dos indicadores de governança relacional e de resultados sociais apontados nas entrevistas e nas observações.

Governança Relacional Resultado Social Origem

2.2. Funções e poderes dados ao coordenador

A.2. Condições de trabalho Obs. não participante

A.3. Saúde Obs. não participante

4.1. Horários de trabalho (entrada, saída, pausas)

A.3. Saúde Entrevista Suj. 3

Obs. participante A.5. Acesso à educação Entrevista Suj. 2 A.6. Relacionamento social Entrevista Suj. 1 A.7. Ações na comunidade Entrevista Suj. 2

A.8. Relacionamento familiar

Entrevista Suj. 1 Entrevista Suj. 2 Entrevista Suj. 3

A.10. Lazer Entrevista Suj. 1

Entrevista Suj. 3

4.4. Determinação de função

A.2. Condições de trabalho

Entrevista Suj. 1 Entrevista Suj. 2 Entrevista Suj. 4 Obs. participante A.3. Saúde Entrevista Suj. 1 Entrevista Suj. 4 Obs. participante

4.5. Formas de decisão (qual material coletar)

A.2. Condições de trabalho Entrevista Suj. 4 Obs. participante

A.3. Saúde Entrevista Suj. 4

4.8. Condições de remuneração A.4. Atendimento médico

Entrevista Suj. 1 Entrevista Suj. 2 Entrevista Suj. 3 Obs. participante

6.3. Acesso a cursos de treinamento A.11. Capacidade

profissional Entrevista Suj. 4

Fonte: Autora, 2018.

Os dados do Quadro 14 mostram que a variável 4 do indicador de governança relacional é a mais presente. Essa variável refere-se às regras e ações criadas pelo

grupo para a realização da atividade fim da rede. Esse resultado condiz com outros dados levantados sobre a rede ANJU, que está se organizando, seja através de estrutura física, seja através de acordos para o melhor funcionamento da rede.

O indicador de governança relacional 4.1 Horários de trabalho (entrada, saída, pausas) foi o que mais impactou no resultado social dos associados. Sua correspondência se deu com os indicadores A.3. Saúde, A.5. Acesso à educação, A.6. Relacionamento social, A.7. Ações na comunidade, A.8. Relacionamento familiar, A.10. Lazer.

Nas entrevistas com os associados observou-se a convergência dos discursos sobre os indicadores de governança relacional e resultados sociais, especialmente sobre os indicadores 4.1. Horários de trabalho (entrada, saída, pausas) com a correspondência A.8. Relacionamento familiar e A.10. Lazer; 4.4. Determinação de função com a correspondência A.2. Condições de trabalho e A.3. Saúde; e 4.8. Condições de remuneração com a correspondência A.4. Atendimento médico.

A análise também mostrou flutuações de presença/ausência de indicadores conforme a fonte. O indicador 2.2. Funções e poderes dados ao coordenador somente foi evidenciado na observação não participante; e o indicador 6.3. Acesso a cursos de treinamento, somente na entrevista com o sujeito 4, que não atua diretamente na atividade fim da Associação. Talvez as flutuações se devam ao fato de que as entrevistas são mais operacionais para coletar informações do funcionamento da rede que aconteceram recentemente ou de situações que acontecem repetidamente, que já estão institucionalizadas. Os casos não rotineiros, ou que aconteceram no passado não foram comentados pelos sócios nas entrevistas.

Os sujeitos 1, 2 e 3 indicaram que a construção dos acordos entre os cooperados está majoritariamente relacionada aos mecanismos de operação, de quais são as regras que o grupo adota para fazer a Associação funcionar. Significa afirmar que a rede está num estágio inicial de organização, que os sócios estão aprendendo sobre cooperativismo e sobre como ser donos do negócio. O senso de economia comercial, de patrão e empregado está na mente dos associados. Os mesmos estão desconstruindo esse conceito e começando a entender a Associação como donos do negócio. Esse processo é paulatino e exige tempo para ser modificado.

Por outro lado, as entrevistas com os atores externos evidenciaram diferentes níveis de conhecimento e atuação na rede.

O sujeito 4, representante do SEBRAE, apresentou conhecimento da governança relacional da rede e até de alguns indicadores de resultados sociais que essa governança corresponde na vida dos associados. Esse ator tem laços estreitos com a ANJU e tem visão sobre o cooperativismo. A contribuição que esse sujeito ofereceu a ANJU até o momento da entrevista foi sobre gestão: a caracterização do negócio enquanto instituição com a criação da logomarca da Associação; a articulação entre alguns empresários e o SEBRAE para a construção de um ecoponto instalado no centro da cidade para a recepção de materiais previamente separados pela sociedade; vinda de um professor de economia solidária da rede COOPERTAN para orientar sobre formas de organização de funcionamento e materiais recicláveis mais vendáveis; orientação do espaço físico da Associação através de uma limpeza nos arredores da Associação.

Diferentemente do sujeito 4, os sujeitos 5 e 6 têm laços menos desenvolvidos com a rede.

O sujeito 6, representante do Ministério Público, tem conhecimento do funcionamento da rede, e apoiou-a com a destinação de Termo de Ajustamento de Condutas que foram usados para a aquisição de dois caminhões de coleta seletiva de material reciclável e uma prensa. Esse sujeito atua como órgão consultivo da legislação e acompanha o cumprimento da Lei como, por exemplo, a determinação do uso de equipamento de segurança individual e recolhimento previdenciário dos associados. A análise indica que o ator 6 é atuante na rede ANJU e seu apoio tem estruturado fisicamente a Associação. Por outro lado, esse sujeito desempenha o papel de fiscalizador da Lei. Logo, sua relação com a Associação Nova Conquista é de um ator que determina o que precisa ser realizado ou cumprido. Portanto, com esse ator, a governança não é relacional.

O sujeito 5, representante da Secretaria Municipal do município de Castanheira, é um ator que foi incluído na rede pela determinação do sujeito 6. Seu conhecimento sobre as atividades e seu papel dentro da rede não estão definidos. Nesse caso, a governança exercida também não é relacional.

Os sujeitos 4, 5 e 6 discorrem sobre as relações interorganizacionais, cujos laços estão melhor desenvolvidos com alguns atores e mais fracamente com outros.

Indica também que alguns atores têm poder de determinação sobre o funcionamento da Associação e até mesmo sobre outros atores.

Considerando todos os dados coletados, incluindo os de fontes secundárias, pode se afirmar que a rede ANJU é uma rede menos desenvolvida, com estrutura física insuficiente e com falta de equipamentos, tais como esteira.

A gestão da Associação é realizada por pessoas que não são associadas e que foram indicadas pelos fundadores, a Igreja Católica. Essa gestão, juntamente com o apoio dos demais atores, alavancou a estrutura física quando comparada com os primórdios de fundação; a organização das tarefas, o que resultou em maior quantidade de coleta de materiais e venda em períodos menores, ou seja, de 25 a 30 dias, aumentando o valor da sobra dos sócios.

Em relação à proposição dessa pesquisa de que há correspondência entre governança relacional e resultados sociais em redes de cooperativas, pode-se dizer que na rede ANJU ela se sustenta parcialmente porque foram encontradas algumas correspondências. Foram observados alguns resultados sociais que não corresponderam a nenhum indicador de governança relacional, o que pode indicar que alguns resultados sociais decorrem de outras correspondências.

Outro fator é que os processos que caracterizam a governança relacional estão pouco desenvolvidos. A gestão é centralizada e os atores ainda são tímidos em relação à discussão, a tomada de decisões. Os sócios ainda não estão

empoderados como donos do negócio e, por isso, agem como se fossem

empregados. Nessa configuração, a governança relacional aparece com importância relativa, mas sem a possibilidade de se afirmar que é o centro dessa rede.