5.2 AVALIAÇÃO DOS ASPECTOS POSITIVOS E NEGATIVOS DO REALISMO
5.2.2 ALGUNS ASPECTOS POSITIVOS DA NOSSA PROPOSTA
5.2.2.1 DE QUE MANEIRA O REALISMO MORAL DE MUNDO 3 LIDA COM OS
5.2.2.1.1 Respostas aos argumentos da relatividade e da estranheza
Como demonstrado no capítulo anterior, a teoria aqui proposta não assume a discordância de posições como sendo algo problemático para o desenvolvimento moral, muito pelo contrário, é a tolerância frente aos diferentes pontos de vista que torna possível nosso progresso moral em direção à ideia de Bem. Uma vez que sejamos tolerantes a ponto de ouvir as diferentes opiniões morais e sejamos capazes de analisá-las de forma crítica, isto é, sem a crença cega e dogmática de que a perspectiva moral que ouvimos é verdadeira, estaremos aptos48 a descobrir as opiniões falsas de modo a suprimi-las do nosso discurso moral atual e, consequentemente, buscarmos opiniões melhores que possivelmente estarão mais próximas da ideia de Bem, isto é, que tem maiores chances de serem opiniões realmente boas.
Tal resposta, ao mesmo tempo em que parece dirimir a objeção presente no argumento da relatividade, permite resolver outro problema atribuído às posições realistas que não tratamos no capítulo 2, a saber, que essas posições estariam comprometidas com uma espécie de absolutismo moral.
Segundo Shafer-Landau (2003, p.168), o absolutismo moral assume a existência de uma norma ou princípio moral absoluto e definitivo, sob a qual estariam os demais princípios morais que dele seriam derivados. Sob esse ponto de vista, teorias realistas sobre a moralidade levariam à intolerância com relação às diferentes perspectivas morais e, consequentemente, ao dogmatismo.
Sob o ponto de vista da teoria que propomos, não parece haver esse problema, uma vez que não há algo como uma norma ou princípio supremo e definitivo. Uma teoria de tipo platônico, que assumisse algo como o mundo das ideias de Platão poderia apresentar esse
48 Estar apto a descobrir não é o mesmo que descobrir. Uma vez que não somos os “donos da verdade”, podemos
nos enganar ao excluir uma opinião ou teoria como sendo uma daquelas que possuem a propriedade de ser boa. Contudo, cremos que nada impeça que uma opinião ou teoria excluída prematuramente não possa ser revista posteriormente.
problema, mas não é o caso da nossa proposta. Uma vez que, dada a falibilidade humana49, jamais saberemos se alcançamos a ideia de Bem, não há nenhuma possibilidade de estipular uma norma ou princípio moral desse tipo. O que há são normas e princípios que se aproximam mais ou menos dessa ideia reguladora e, para que essa aproximação seja possível, devemos cultivar a tolerância e tentar aprender o máximo que nos for possível com as opiniões dos outros, inclusive com o absolutismo moral. Deste modo, o fato de haver uma entidade moral como a ideia de Bem, como a que é vista em nossa proposta, não acarreta a necessidade de haver uma norma como a que é descrita pelo absolutismo moral, o que dirime tanto o problema do absolutismo quanto o problema do dogmatismo.
Outro argumento contra o realismo moral, que foi apresentado no segundo capítulo, é o argumento da estranheza. Segundo esse argumento, propriedades morais seriam estranhas por possuírem uma qualidade que nenhuma outra propriedade do universo possui, o que exigiria a existência de uma faculdade cognitiva totalmente diferente daquelas que os seres humanos possuem. Tais características exigiriam que abandonássemos a ideia de que propriedades morais são reais.
Tal objeção será válida ou não dependendo de qual posição metafísica assumiremos. De um ponto de vista naturalista que seja também monista, isto é, que real é somente aquilo que é natural ou explicado pelas ciências naturais, é bastante aceitável que coisas como as propriedades morais não naturais sejam vistas como sendo estranhas. Ao aceitar essa perspectiva, afirmamos que não há nada que não seja natural ou redutível a propriedades naturais. Contudo, de um ponto de vista dualista ou pluralista, como é o nosso caso, tais propriedades não são consideradas estranhas. Embora não possamos excluir a possibilidade de que uma redução total possa vir a ocorrer, ainda há propriedades e eventos não completamente redutíveis a propriedades e eventos puramente naturais, que é o caso de alguns eventos ou fenômenos subjetivos, como as ideias e alguns tipos de sentimentos, ou, ainda, de entidades objetivas não materiais, como os números, propriedades teoréticas da física e as leis da lógica por exemplo.
Ao utilizarmos a Teoria dos 3 Mundos de Popper como base metafísica para estabelecer o que são e onde podemos encontrar as entidades morais, explicamos de que modo podemos
49 Segundo Brink, é possível assumir o falibilismo no campo da ética. Com relação a esse aspecto, assumimos uma
posição semelhante à desse pensador quando ele afirma que “Um realista moral, portanto, deve considerar aqueles que não concordam com ele como estando enganados. Mas isso não implica que ele deve manter suas crenças morais dogmaticamente. Ele pode e deve manter uma mente aberta sobre questões morais, envolver a oposição no diálogo, e reavaliar suas evidências ao longo do tempo. Pois, como um realista, ele também pode ser um falibilista.” (BRINK. 1989, p.94)
conhecer e interagir com elas, o que, como vimos no capítulo anterior, ocorre de forma semelhante com todas as entidades que compõem o mundo 3, dentre as quais estariam as entidades teoréticas da física, os números, os objetos e relações da lógica, mas também ideologias, princípios religiosos e, como já nos referimos, fatos morais. Segundo essa perspectiva, não se faz necessária uma nova faculdade cognitiva para que conheçamos fatos morais. É importante termos em mente, antes de tudo, que não nos é possível ter acesso epistêmico aos fatos morais de modo direto, imediato; nosso acesso epistêmico a eles dá-se sempre por intermédio de uma linguagem ou código, ou seja, de entidades do mundo 1 nas quais os fatos morais estão corporificados. Assim, é suficiente que compreendamos referida linguagem ou código para que conheçamos os fatos morais. Na prática, cada agente moral acaba aprendendo o rol de fatos morais através do aprendizado moral, o qual é ministrado pelos demais membros da sociedade em que está inserido. Neste aprendizado, é claro, a linguagem (falada, escrita ou mesmo gestual) tem um papel determinante.