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Respostas, na entrevista, do Doutor Vasco Ribeiro

No documento Comunicação de Crise no Desporto (páginas 198-200)

1- Tem acompanhado desde o seu início e com interesse o “Caso E-mails”?

Acompanhei de forma irregular, já que não sou muito atento ao desporto. Fui seguindo e tendo acesso à informação que o “grande público” teve.

2- Acha que a imagem da instituição sairá reforçada ou denegrida? Porquê?

Penso que sairá denegrida. Desde o momento em que há uma corrente de notícias negativas sobre o clube, a marca Benfica fica fragilizada.

3- E quanto à confiança, tanto dos sócios e simpatizantes como do público em geral, acerca dos dirigentes do Benfica? Será a mesma que antes do despontar da Crise? O futebol vive, e sempre viveu, de um ambiente de impunidade, porque o comportamento de qualquer adepto é tudo menos racional. É um comportamento emotivo. Isto é bastante interessante para uma marca, visto que atinge o princípio de “top of mind”. As pessoas compram o produto de forma emotiva e não racional, sendo esse o desejo de qualquer marca, ou seja, confiarem de tal forma que compram na mesma. O Sport Lisboa e Benfica pode fazer o que quiser que irá ter sempre uma clientela muito fiel, que são os seus adeptos. Por isso é que algumas das regras da comunicação de crise são enviesadas. Já que existe uma irracionalidade em volta do tratamento destas questões. É muito complicado desligarmo-nos de uma marca, ainda para mais no caso do Benfica. Eu nunca vi ninguém a mudar de clube. Os adeptos ficam zangados, dececionados, mas mantêm o sentimento de orgulho e de emoção em volta da marca. Desta forma, penso que o “Caso E-mails” deu alguma má imagem, mas, à primeira vitória do clube em campo, os adeptos vão esquecer o assunto. Penso que, no futebol, os adeptos são diferentes, porque parece que dão vida ao “Xico-espertismo português”. O comportamento de afronta, agressividade, escárnio e maldizer, por vezes, abunda no noticiário desportivo. É um mundo de emoções e não de racionalidade.

4- Era previsível que esta situação crítica pudesse despontar? Acha que o Sport Lisboa e Benfica estava preparado para enfrentar uma crise deste género, desencadeada, em parte, pela divulgação dos e-mails no Porto Canal, por de Francisco J. Marques? Penso que o clube estava preparado. Por acaso, achei que o Sport Lisboa e Benfica, naquilo que fui acompanhando e tendo acesso, conseguiu gerir mais ou menos bem esse dossiê. Isso era previsível porque o Benfica tem um conjunto de profissionais muito habilitados para fazer esse trabalho, sendo estes da primeira linha da comunicação estratégica em Portugal. Esta equipa, que conta com o seu Diretor de Comunicação Luís Bernardo, tem muita experiência. Vi o Luís Bernardo a multiplicar-se em explicações, o que o liga ao princípio da qualidade informativa quando é confrontado com a informação. No entanto, não foi só ele. Houve uma

179 orquestra de mensagens, bem adequadas, o que chamamos de discurso de moratória, mais ou menos alienadas. O que dizia Luís Bernardo era também, mais ou menos, reproduzido pelos comentadores desportivos habituais. Houve uma grande preocupação em criar uma harmonia, com discursos de moratória, de qualidade informativa. Houve agilidade, não esperando muito tempo, visto que quando se desencadeia um processo, desmultiplicam-se em explicações.

5- Acha que as estratégias de comunicação do clube, acerca do caso, foram as mais corretas? Porquê?

Acredito e acho que poderiam ter feito mais, visto que deveria ter sido dada muito mais informação. Não acompanhei ao “milímetro”, mas da perspetiva de quem é da opinião pública e tem um acesso limitado à informação, pareceu-me que houve situações contraditórias, agilidade e um discurso coincidente desde o Presidente até aos comentadores televisivos, o que permite ao adepto a replicação dessas próprias mensagens. Na morfologia de uma crise, o caso teve um período agudo, que durou alguns meses. Uma crise, quando existe um acontecimento com mais de duas semanas, atinge e fere a opinião pública. Os episódios que duram mais de duas semanas, de acordo com o princípio de Thompson, são considerados escândalos. Os estados desportivos são efetivamente efémeros, sendo que os episódios passam relativamente rápido.

6- Acha que a criação do gabinete de crise, anunciado por Luís Filipe Vieira a 10 de março deste ano, quase um ano depois dos primeiros e-mails divulgados por Francisco J. Marques, foi tardia? Porquê?

Sim. Penso que foi tardia e “patinaram” nesta questão. Eu penso que foi criado tardiamente, mas no momento em que tiveram acesso às informações. No entanto, não me parece que tenham atuado como atuaram sem um gabinete de crise. O gabinete de crise tem as pessoas chave da instituição ligadas a esse dossiê. Não me parece que tenham esperado quase um ano para criarem essa célula de crise. Anunciaram tardiamente, mas penso que essa célula de crise não era só relativa ao “Caso E-mails”, mas sim a todos os assuntos que estavam a envolver o Benfica. No fundo, foi o operacionalizar de uma célula de crise que foi criada, de forma ágil, no período do “Caso E-mails”.

7- Esse gabinete de crise tem feito a diferença na defesa da imagem do Sport Lisboa e Benfica e dos seus dirigentes? Porquê?

Respondendo como alguém que não teve acesso a toda a informação, como mero espetador e que, consequentemente, não está muito habilitado a responder a essa pergunta, penso que agiram bem.

8- O despontar do “Caso E-mails” retirou credibilidade às vitórias anteriores, mais propriamente ao tetracampeonato? Porquê?

Penso que, no desporto, estes casos não contam muito, assim como não contaram no “Apito Dourado”. Infelizmente, conta pouco, sendo utilizado, principalmente, como uma forma de arremesso e ataque nas discussões desportivas. Como disse anteriormente, a emoção sobrepõe a racionalidade.

9- A situação crítica poderá ter repercussões financeiras e desportivas no futuro? De que modo?

Tenho alguma dúvida que, em concreto, o “Caso E-mails” manche o Benfica. Penso que o caso das agressões aos jogadores do Sporting, na Academia de Alcochete, mancha mais a imagem do Sporting. Não penso que, neste momento, alguma marca se queira associar ao Sporting Clube de Portugal. O “Caso E-mails” não chegou a essa dimensão. Há uma tipologia de crises. Neste caso, esta é uma Crise de Honorabilidade, de honra. A Crise de Honorabilidade, para todos os efeitos, no desporto, tem um sentido menor que, por exemplo, na política. Estas situações fazem parte do modus operandi do dirigente desportivo. No adepto, há a perceção de que o que faz um bom dirigente é a sua capacidade de dominar os árbitros. Apesar de não estar a dizer que isto acontece, há essa perceção instalada na opinião dos adeptos e faz, mais ou menos, parte dos processos de vencer a todo o custo. Penso que o “Caso E-mails” é grave e uma vergonha enquanto cidadão e pessoa ligada ao desporto. Mas no futebol, pouco conta. Por vezes, este tipo de casos dá ainda mais força aos adeptos. Neste caso em particular, esta irracionalidade toma conta dos adeptos e esta Crise de Honorabilidade não tem efeito na ligação do clube com as marcas. Penso que no caso do Sporting já é diferente, visto que colocou em causa a vida dos atletas.

10- O “Caso E-mails” poderá prejudicar outras modalidades? De que maneira?

Lamento, mas não consigo responder. Invoco o meu desconhecimento na área desportiva nesta pergunta.

No documento Comunicação de Crise no Desporto (páginas 198-200)