4. O RETORNO: JOANA LIVRE E LEVE PARA VIVER
4.2. Ressureição e o Encontro com o Senhor dos dois Mundos
Nesta fase Joana deve renascer e assim purificar-se para reingressar no mundo comum. Ela enfrentará outro momento de morte e renascimento, só que ainda mais intenso que o acontecido na etapa da provação suprema. Neste contexto, apresentamos o conceito de Campbell (2007, p. 225), que substancia as nossas palavras:
A liberdade de ir e vir pela linha que divide os mundos, de passar da perspectiva da aparição no tempo para a perspectiva do profundo causal e vice-versa — que não contamina os princípios de uma com os da outra e, no entanto, permite à mente o conhecimento de uma delas em virtude do conhecimento da outra — é o talento do mestre.
Após tantos desafios, Joana se transforma e volta à vida comum como um novo ser, mais evoluído, experiente, com um novo entendimento do mundo e, principalmente, de si. Seu ego, agora saudável, demonstra compaixão pelas tristezas vividas e pelas alegrias encontradas em seu caminho. Joana inicia o seu processo de ressureição após resolver a situação do seu casamento com Otávio, perceber que não era feliz naquela relação, encontra o real motivo da sua busca. Como um ritual, Joana “interrompeu-se com o vestido na mão, atenta, leve. Tomou consciência da solidão em que se achava, no centro de uma casa vazia” (LISPECTOR, 1998, p.188).
Desse modo, após Joana vencer várias etapas da sua jornada, renuncia completamente aos vínculos e limitações, se vê desprendida dos temores pessoais e reveste-se de esperança e em grande sintonia consigo e com a Grande Mãe. Na concepção de Campbell (2007, p. 231),
Suas ambições pessoais estão dissolvidas, razão por que ele já não tenta viver, mas simplesmente relaxa diante de tudo o que venha a se passar nele; ele se torna, por assim dizer, um anônimo. A Lei vive nele com seu próprio consentimento irrestrito. [...]Mudava sem transição, saltos leves, de plano a plano, cada vez mais altos, claros e tensos. E de instante a instante caía mais fundo dentro de si própria, em cavernas de luz leitosa, a respiração vibrante, cheia de medo e felicidade pela jornada, talvez como as quedas quando se dorme. A intuição de que eram frágeis aqueles momentos fazia-a mover-se de leve, com receio de se tocar, de agitar e dissolver aquele milagre, o tenro ser luz e de ar que tentava viver dentro dela. [...] mergulhada numa alegria fina e intensa quase como o frio de gelo, quase como a percepção da música. Ficou de lábios trêmulos, sérios. Eterna, eterna [...] Ela própria renascendo sobre a terra asfixiada, dividindo-se em milhares de partículas vivas, plenas de seu pensamento, de sua força, de sua inconsciência... Atravessando a limpidez em névoas levemente, andando, voando...
Observamos que Joana atinge a sua totalidade e alcança um desenvolvimento psíquico, é interessante lembrar que todo ser humano tem em si a capacidade e o potencial de desenvolver-se e concluir o processo de individuação. Vale lembrar que esse processo sempre será impulsionado por meio de forças inconscientes, de caráter impulsionador do self, produzindo, assim, manifestações através de sonhos, dentre outros, conforme podemos ver ilustrado na obra e no momento a seguir:
Não era obrigada a seguir o próprio começo... Doía ou alegrava? No entanto sentia que essa estranha liberdade que fora sua maldição, que nunca a ligara nem a si própria, essa liberdade era o que iluminava sua matéria. E sabia que daí vinha sua
vida e seus momentos de glória e daí vinha a criação de cada instante futuro (LISPECTOR, 1998, p.196).
É relevante afirmar que, por meio desse processo, Joana, ao longo de sua jornada de autoconhecimento, aos poucos foi integrando a sua personalidade, as sombras, e aceitou-se com defeitos e qualidades, chegando ao final do percurso mais inteira e total. Na obra O Homem e Seus Símbolos, Jung (2008, p. 214) afirma que tal processo é assim definido:
O processo de individuação é, na verdade, mais do que um simples acordo entre a semente inata da totalidade e as circunstâncias externas que constituem o seu destino. Sua experiência subjetiva sugere a intervenção ativa e criadora de alguma força supra pessoal. Por vezes, sentimos que o inconsciente nos está guiando de acordo com um destino secreto. É como se algo estivesse nos olhando, algo que não vemos, mas que nos vê – talvez o Grande Homem que vive em nosso coração e que, através dos sonhos, nos vem dizer o que pensa a nosso respeito.
O processo de individuação como uma constante não é um lugar a que o indivíduo chega ou deve chegar, muito mais que isso, é um processo contínuo, justamente porque sabemos que o inconsciente é uma galáxia imensurável. Quanto ao processo de individuação e às dificuldades provenientes da morte simbólica, Maria Goretti Ribeiro (2006, p. 19) argumenta:
[...] depois da morte simbólica que acontece durante a “passagem do meio”, cujo percurso se realiza como a descida às camadas mais profundas do inconsciente, um lugar sombrio em que são superadas obscuras resistências e forças esquecidas, perdidas, são revitalizadas a fim de que se tornem disponíveis para a tarefa de transformação do ego e consequente transfiguração do mundo. A alma é o espaço em que o ego-herói (masculino ou feminino) realiza sua trajetória, desempenhando o papel único de se sacrificar no reino da morte simbólica para renascer, o que significa realizar a nobre busca do homem possível, mais feliz e mais comprometido com a sociedade.
Ademais, a individuação está reconhecendo e se diferenciando do inconsciente coletivo. É necessário compreender, segundo Franz (2008, p. 221), que “[...] voltar-se para as trevas que se aproximam, sem nenhum preconceito e com toda simplicidade, e tentar descobrir (...) o que vêm solicitar do indivíduo” faz parte da inteireza do processo.