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Cavalcaselle 47 que possibilitará a consolidação destes procedimentos no âmbito de novos

96 PANE, 1987 [1944] Texto originalmente publicado sob o título “Il restauro dei monumenti”, na Revista

2.3.1 RESTAURAR É , ENFIM , PROCEDIMENTO CLÍNICO

A revelação do caráter absurdo deste método, não custa repetir, era motivada pela evidente necessidade de percepção da matéria dos edifícios, enquanto objetos à espera de

propostas efetivas de restauração. Com esta consciência, o texto de D’Ossat “Danni di

guerra e restauro dei monumenti”111, apresentado apenas mais tarde no V Congresso

Nazionale di Storia dell’Architettura, realizado em Palermo, em 1948, constrói com grande

habilidade a sugestão de uma postura de equilíbrio de caráter resolutivo. Sobretudo, é comunicação que traça uma competente seleção das ações executadas já naqueles primeiros

107 “la nostra è un’epoca senza architettura, priva di vere opere d’arte, priva di un linguaggio architettonico formato

e persino di un gusto.” BONELLI, 1948, p. 53.

108 “una giustificazione teoretica alla pigrizia o all’incapacità di vedere e di vivere organicamente la realtà

architettonica”. ZEVI, 1948, p. 62.

109 Na ocasião, Zevi tinha publicado apenas a primeira edição do famoso livro “Saper Vedere l’Architettura”,

escrito durante a guerra, nos Estados Unidos, na qual atribuía não à resultante bidimensional (para ele, “pictórica”), mas à configuração própria tridimensional do espaço arquitetônico o papel definidor da essência permanente que faz da arquitetura obra de arte. Sua percepção seria assim diversa e, portanto, a crítica cometia um erro ao adotar o mesmo tipo de análise que as demais obras de arte. Cf. ZEVI, 2000 [1948].

110 “Invece di osservare le opere architettoniche, si giudicano delle fotografie e si commette un’assurdità simile a

quella di chi volesse giudicare un quadro pittorico esaminandone distaccamente le parti. Chiunque abbia esperienza creativa di architettura non può che ritenere del tutto cervelottica e inadeguata la posizione critica ‘pittorica’ dell’architettura.” ZEVI, 1948, p. 62

111 D’OSSAT, 1995 [1948]. Texto republicado em 1995, em uma antologia dos textos mais importantes de

132

anos de Bandinelli dignas de serem realçadas enquanto casos de grande envergadura e potência propositiva diante das adversidades enfrentadas pelos superintendentes locais. Como confirma o arquiteto Gian Paolo Treccani, sua concepção da restauração “pareceu encorajar

uma ponderada prática de reparação regulada sobre a peculiaridade singular do caso e, sobretudo, na sua clara refutação a posições teoricamente intransigentes”112.

É preciso ressaltar que D’Ossat escrevia quando já se tinha alguma clareza das

marcas do conflito, de urgência já definitivamente transferida ao campo propositivo. Por isso,

seus argumentos são muito mais sintéticos, lúcidos e ainda mais pragmáticos. Como Pane, D’Ossat efetua uma retrospectiva das práticas de restauração no tempo, e nela acentua o papel positivo de Giovannoni ao campo da preservação da arquitetura em termos da consolidação de normativas e procedimentos “por um complexo de exigências espirituais e culturais”. Sobretudo, e aqui está sua síntese a favor de um novo consenso, apesar de a primeira metade do século XX ter amplamente atuado pela diminuição (e, enfim, proibição) da repristinação romântica, a guerra foi um trágico fenômeno, cujo resultado “não poderia não fazer refletir

as pessoas de cultura e os homens de ação sobre a oportunidade de continuar a aplicar as medidas habituais e a deixar inalterados os princípios colocados na base, nos últimos decênios, dos normais restauros em edifícios de caráter monumental.”113

Referindo-se assim a Berenson e a Bandinelli, o texto abre-se para compreender o direito à memória do historiador da arte e a correta resistência científica do arqueólogo, mas, para ele, ambos simplificavam o problema, gerando desfavorável paralisia. Em outras palavras, sem se gerarem concessões, tanto uma cenografia que tornavam “híbridos” os

monumentos como o rigorismo que ignorava a renovação natural das cidades e o reaproveitamento das estruturas históricas eram prejudiciais. Conciliando o pensamento

de Pane, sua visão era necessariamente “clínica”:

Se cada monumento constitui uma individualidade muito bem definida e diferenciada, tanto mais cada restauro apresenta aspectos particularíssimos, diria pessoais. Cada edifício danificado requer cuidados e aplicações específicas, constituindo – por assim dizer – um caso clínico. E como a diagnose e o cuidado apropriado são consequências de uma meditada observação do organismo individual, dos traumas ocorridos da síndrome clínica e da personalidade do paciente, assim os critérios do restauro dos monumentos não podem se aplicar aos casos singulares se não com discernimento, tendo em conta o caráter, a natureza e a idade do edifício monumental como a resistência das suas partes.

112 “sembrò incoraggiare una misurata prassi di riparazione regolata sulla peculiarità del singolo caso e, più di tutto,

sul netto rifiuto di posizioni teoreticamente intransigenti”. TRECCANI, 2011, p. 82.

113 “per un complesso di esigenze spirituali e culturali”; “non poteva non far riflettere le persone di cultura e gli

uomini di azione sull’oppportunità di continuare ad applicare il consueto metro e a lasciare inalterati i principi posti a base, negli ultimi decenni, dei normali restauri in edifici di carattere monumentale.” D’OSSAT, 1995

133

Mas também aqui não é preciso exceder; não é de fato possível, como tentam alguns, rejeitar qualquer teoria e se refugiar na cômoda posição de quem quer julgar qualquer problema separadamente, caso a caso, segundo as circunstâncias. É necessário ter como guia algum princípio geral para não cair no empirismo mais esfacelado e nas inevitáveis contradições que dele são fatal consequência.114

O grande mérito de D’Ossat foi valorizar instancias técnicas, focadas no estado físico dos monumentos, qualificando a intervenção a seguir em dependência do caráter da

lesão sofrida durante o período bélico. Apesar da aparente simplicidade do raciocínio, não

se tratava de questão evidente, até mesmo porque resultou de síntese originária daqueles primeiros cinco anos de experimentos de salvamento. Ao qualificar os danos em “limitada entidade”, “maior entidade” ou “praticamente destruídos”115, poder-se-ia atribuir a todos os

monumentos (ou mesmo em áreas distintas do mesmo monumento) o mérito ou não da repristinação, anastilose ou conservação pura, definindo-se finalmente nuances pouco óbvias a todas as superintendências.

Aos edifícios de “limitada entidade”, a repristinação era plenamente justificada, uma vez que os danos nos rebocos por metralhadoras ou impactos estruturais secundários mantinham a compreensão integral do monumento e, portanto, a intervenção não afetava sua autenticidade histórica. Os problemas complicavam-se aos edifícios com danos de “maior entidade”, com duas alternativas:

A primeira é aquela da substancial repristinação nas formas precedentes; a outra, ao contrário, destacando-se desta prática instintiva e normal, tende a não repetir o aspecto primitivo, seja porque deste restam muito poucos elementos, seja porque o dano levantou ou trouxe à tona uma precedente estrutura, a qual se apresenta com maior interesse e mais facilmente restaurável que não o posterior e tradicional aspecto do edifício monumental.116

114 “Se ogni monumento costituisce una individualità assai bene definita e differenziata, tanto più ciascun restauro

presenta aspetti particolarissimi, direi personali. Ogni edificio danneggiato richiede cure ed applicazioni specifiche, costituendo – per così dire – un caso clinico. E come la diagnosi e le cure appropriate sono conseguenze di una meditata osservazione dell’organismo individuale, dei traumi subiti della sindrome clinica e della personalità del paziente, così i criteri del restauro dei monumenti non possono applicarsi ai casi singoli se non con discernimento, tenendo conto del carattere, della natura e dell’età dell’edificio monumentale come della resistenza delle sue parti. Ma anche qui non bisogna eccedere; non è difatti possibile, come tentano alcuni, rigettare ogni teoria e rifugiarsi nella comoda posizione di chi vuol giudicare ciascun problema separatamente, caso per caso, secondo le circostanze. È necessario avere di guida qualche principio generale per non cadere nell’empirismo più sfacciato e nelle inevitabili contraddizioni che ne sono la fatale conseguenza.” Id., p. 14.

115 Cf. Id., p. 17.

116 “la prima è quella del sostanziale ripristino nelle forme precedenti; l’altra invece, distaccandosi da codesta prassi

istintiva e normale, tende a non ripetere l’aspetto primitivo, sia perché di questo sono rimasti troppo pocchi elementi sia perché il danno ha rilevato o posto meglio in luce una precedente struttura, la quale si presenta di maggiore interesse e più facilmente restaurabile che non il seriore e tradizionale aspetto dell’edificio monumentale.” Ibid.

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FIGURA 49 Loggia della Mercanzia, Bolonha. Fotografias do edifício

parcialmente destruído pela explosão de uma bomba (à esquerda) e durante processo de recomposição com o uso de tijolos à vista pelo arquiteto Alfredo Barbacci. In: LAVAGNINO (Org.), 1947, figs. 12 e 13, p. 10 et seg.

Para além do exemplo prático de Pane na Igreja de Santa Chiara em Nápoles, D’Ossat também dava ampla visibilidade a nomes como o de Alfredo Barbacci, superintendente bolonhês que havia se tornado um expoente intérprete daquelas primeiras recomendações de consolidação de 1944, especialmente se tratando da necessidade de completamento de partes faltantes117. Exemplo de grande destaque na literatura é a Loggia

della Mercanzia, em Bolonha (FIGURA 49), na qual Barbacci não apenas completa o edifício a

partir de uma reprodução formal dos elementos preexistentes, que ele chama de “reintegração”, mas o faz distinguindo a intervenção por sinais visíveis na alvenaria, já que não bastava deixar “não rebocado” um edifício medieval, cuja técnica construtiva original era a própria alvenaria não rebocada. Para D’Ossat, além de oportunidade de estudo formal,

este era também exemplo efetivo de uma prática de restauração criativa, pois dava novo sentido ao edifício destruído, mesmo utilizando os ainda poucos instrumentos disponíveis118.

117 Para ampla revisão da experiência de Alfredo Barbacci no período bélico, com a vinculação do seu

pensamento em vários casos da literatura da Restauração, cabe citar o recente trabalho de TALÒ, 2012. Para equivalente estudo crítico sobre sua atuação em Bolonha no contexto da reconstrução, apresentando casos como a Loggia della Mercanzia e do Archiginasio, recomenda-se o artigo de PASCOLUTTI, 2004.

118 Recolhendo os resultados da experiência prática, Barbacci será autor da obra “Il restauro dei monumenti

in Italia”, de 1956, uma das primeiras sínteses a respeito da teoria e metodologia do restauro no pós-

guerra. Nela, para além da análise internacional da teoria, associando exemplos e recuperando parcialmente os princípios filológicos e científicos de Camillo Boito e Gustavo Giovannoni, amplia o estudo a respeito das práticas que chama de “reintegração”. Usando a mesma analogia de D’Ossat, escreve: “a reintegração é obra que se realiza ao restituir ao monumento mutilado a sua forma, reproduzindo-

lhe as partes perdidas. É o restauro típico, e, a partir disso, como as normas dão ao restaurador, médico dos monumentos, as receitas para cada doença, deixam-lhe a responsabilidade de estabelecer-lhe as doses e o uso conforme os casos que lhe se apresentam, sempre distintos, ainda que frequentemente afins, como acontece exatamente na medicina”. Nesse caso, segundo o arquiteto, colocam-se ainda válidas as recomendações

da Carta de Atenas, em especial as que se referem à exigências pelo uso de demarcações físicas e da data da intervenção no corpo próprio do monumento. Do italiano: “la reintegrazione è l’opera che si compie

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FIGURA 50 Ponte Coperto, Pavia. Acima, à esquerda, fotografia antes da

destruição (In: ARMILLOTTA e PASCOLUTTI, 2011, fig. 129, p. 134). Acima, à direita, projeto de reconstrução, com proposta de redesenho urbano e deslocamento do seu local original (In: ARMILLOTTA e PASCOLUTTI, 2011, fig. 132, p. 135). Abaixo, situação atual da ponte, reconstruída com novos vãos, medidas de calha alargadas e alteamento da cobertura, constituindo-se um “falso histórico” autêntico (In: ARMILLOTTA e PASCOLUTTI, 2011, fig. 135, p. 137).

Aos edifícios “praticamente destruídos”, era enfático:

Quando um edifício é destruído, qualquer refazimento não poderia atingir senão uma revivida e falsa cópia do original. A diversidade dos materiais, a fatal incerteza das formas e das medidas particulares e a indisponibilidade das partes decorativas justificam o mesmo princípio, postulado da ciência do restauro.119

Se a concessão à repristinação poderia ser oferecida aos edifícios pouco danificados, a afirmação servia para novamente refutar o mote “com’era dov’era” das possibilidades de intervenção de grandes monumentos ou massas urbanas destruídas. Na ocasião, caso clássico e extremamente criticado era a absurda reconstrução da Ponte Coperto de Pavia (FIGURA 50), realizado por intenção da administração pública da cidade e do

Ministero dei Lavori Pubblici. A partir da ponte arruinada e do clamor popular, estes

terminaram por completar a demolição dos restos para “atualizar” a ponte medieval, ampliando sua largura e deslocando seu traçado, de modo a facilitar o alinhamento viário120.

per restituire al monumento mutilato la sua forma, riproducendone le parti perdute. È il restauro tipico, e di esso, come delle norme danno al restauratore, medico dei monumenti, le ricette per ogni malattia, gli lasciano la responsabilità di stabilirne le dosi e l’uso a seconda dei casi che gli si presentano, sempre diversi, anche se spesso affini, come avviene appunto in medicina.” BARBACCI, 1956, p. 113.

119 “Quando un’edificio è distrutto, qualunque rifacimento non potrebbe riuscire che una smorta e falsa copia

dell’originale. La diversità dei materiali, la fatale incertezza di forme e di misure particolari, l’irreperibilità delle parti decorative giustificano codesto principio, postulato della scienza del restauro.” D’OSSAT, 1995 [1948], p.

17.

136

Tratava-se de pastiche histórico que o superintendente Barbacci habilmente criticou no artigo de sugestivo título “Come non era e dove non era”121, visando evidenciar e vincular o

problema apontado por D’Ossat:

Por que o Estado se comporta menos sensatamente que os mais humildes dos seus administrados? Por que mantém nas faculdades de Arquitetura as cátedras de Restauro dos monumentos, se então, na prática, não tem em conta o seu ensinamento? Assim Pantalone paga, e é mal servido. No entanto, seria muito mais fácil servi-lo bem e sem maior despesa ao erário: bastaria transferir ao Ministero della Pubblica Istruzione as somas que o Ministero

dei Lavori Pubblici gasta para os Monumentos.122

À parte a impressionante atualidade do protesto, que poderia ser literalmente repetido em muitas obras contemporâneas brasileiras, em suma, o problema revelava o quanto

o mote “com’era dov’era” era perigoso emblema que servia para confundir o público e estimular irresponsáveis simplificações, muitas vezes resultantes de interesses econômicos. Solução mais bem adaptada aos mesmos problemas seria ainda oferecida por

Piero Gazzola123, superintendente que, por ocasião da reconstrução da Ponte Scaligero, em

Verona (FIGURA 51), ofereceu como justificativa para a reconstrução integral do monumento

seu vínculo ao conjunto do Castelvecchio, conciliando a seu modo a polaridade do dilema124.

Nesse sentido, D’Ossat pontuava no seu texto o rigor (e não o rigorismo) em alguns casos excepcionais, já que não era possível aplicar uma regra tão generalista diante da importância de alguns monumentos, mas também inferindo a favor da necessidade da aplicação de metodologias de intervenção filológico-cientificas.

Caso substancial era a restauração do Tempio Malatestiano, em Rimini, intervenção inacabada de Leon Battista Alberti no século XV, na antiga Igreja de San

Francesco, e que havia sofrido danos particulares: como resultado dos bombardeios na cidade,

parte do antigo templo medieval havia sido destruída e os efeitos das explosões nas proximidades provocou grandes deformações nos muros do projeto albertiano (FIGURA 52).

D’Ossat enquadrou o problema por meio da reafirmação da anastilose como correto procedimento de recuperação dos monumentos, mas reduzindo o seu âmbito apenas e

121 BARBACCI, 1997 [1951]. Artigo originalmente publicado na Revista “Architetti”.

122 “Perchè lo Stato si comporta meno sensatamente del più umile dei suoi amministrati? Perché mantiene nelle

facoltà di Architettura delle cattedre di Restauro dei monumenti, se poi in pratica non tiene conto del suo insegnamento? Così Pantalone paga, ed è mal servito. Mentre sarebbe assai facile servirlo bene e senza maggiore spesa per l’erario: basterebbe trasferire al Ministero della Pubblica Istruzione le somme che quello dei Lavori Pubblici spende per i Monumenti.” Id. p. 15.

123 De formação na escola romana e superintendente veronês no pós-guerra, Gazzola será um dos autores

da redação da Carta de Veneza, em 1964. Uma ampla revisão de sua obra, analisando sua importância e contribuição para a cultura do restauro no século XX, pode ser vista em DI LIETO e MORGANTE (Orgs.), 2009, publicação de um seminário de estudos dedicado ao arquiteto, realizado em 2008.

124 Para aprofundamento, recomenda-se o trabalho CECCHINI, 2009, que analisa a reconstrução da Ponte

Scaligero e da Ponte di Pietra, ambas em Verona, buscando traçar o perfil projetual do arquiteto. Para uma

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FIGURA 51 Ponte Scaligero, Verona. Acima, edifício destruído, e sua

relação com o Castelvecchio. (In: LAVAGNINO [Org.], 1947, fig. 204, p. 114). Abaixo, à esquerda, reconstrução dos arcos sobre bases preservadas (In: CECCHINI, 2009, p. 142). Abaixo, à direita, situação atual. Fotografia do autor, 2012.

FIGURA 52 Tempio Malatestiano, em Rimini. À esquerda, acima, aspecto

do edifício antes da guerra, e, abaixo, imagem dos grandes danos na abside medieval (In: LAVAGNINO [Org.], 1947, figs. 163 e 164, p. 96). À direita, deslocamento do paramento na parede lateral direita por deformação após impacto da explosão (In: LAVAGNINO [Org.], 1947, fig. 167, p. 97).

especialmente aos edifícios feitos em cantaria, que, em vez de destruídos, considerava “descompostos”125.

138

FIGURA 53 Tempio Malatestiano, em Rimini. Acima, à esquerda e centro,

fotografia e documentação dos procedimentos adotados para a consolidação das grandes fissuras da alvenaria, com injeção de argamassa de cimento (In: PASCOLUTTI, 2011, figs. 139 e 140, p. 142); à direita, reconstrução da abside medieval em tijolos (In: LAVAGNINO, 1950, fig. 5, p. 179). Abaixo, fotografia e desenho de documentação arqueológica da fachada albertiana, visando à correção do prumo do edifício, por meio de desmontagem e reassentamento das peças (In: LAVAGNINO, 1950, figs. 9 e 10, p. 180 et seg.).

Esta pequena diferenciação, que postulava a tipificação do material associada à tipificação do dano ocorrido, permitiu a modificação do debate, não mais em função da busca por resultantes projetuais unitárias, ou seja, não segundo um resultado polarizado entre reconstruir e não reconstruir, mas a posturas de fato endereçadas à complexidade física do

monumento. No caso em questão, desenhou-se a realização de diversas ações integradas e já

habituais da experiência italiana recente, como a reconstrução de partes destruídas em tijolos à vista, a consolidação de alvenarias com grandes fissuras e, sem pouca polêmica, a decisão pelo desmonte e recomposição da fachada para a correção da deformação do edifício, de modo a recuperar seu valor artístico126 (FIGURA 53).

Ainda que se tivesse como precaução o preciso cadastro das peças desmontadas, a correta aplicação de argamassa de assentamento similar à antiga e a cuidadosa reassemblagem

126 Decisão tomada pela comissão ministerial de estudos, composta pelo arqueólogo Doro Levi, pelo historiador da arte Emilio Lavagnino, pelo arquiteto Roberto Pane, pelo arquiteto Marcello De Vita e pelo historiador da arte Mario Salmi, que insiste na correção da ortogonalidade do edifício, apesar da solicitação de cautela do superintendente, o arquiteto Corrado Capezzuoli (Cf. SEBREGONDI, 2008). Uma síntese descritiva dos trabalhos realizados foi publicada em 1950, por Emilio Lavagnino, indicando inclusive a difícil interação da obra com o Ministero dei Lavori Pubblici, que tomou à frente determinadas ações, especialmente de reconstrução da cobertura e da abside, reponsabilidade posteriormente transferidas ao Ministero della Pubblica Istruzione (Cf. LAVAGNINO, 1950).

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FIGURA 54 Ponte Santa Trinita, Florença. Acima, canteiro de reconstrução,

com projeto de redesenho da curvatura catenária, realizado pelo arquiteto Riccardo Gizdulich (In: GIZDULICH, 1957, figs. capa, 5 e 6, pp. capa e 77). Ao centro, esquema indicativo da ponte original e da proposta de reconstrução da ponte em caixão perdido de concreto armado, com uso do paramento em pedra recuperado (In: PER LA RICOSTRUZIONE DEL PONTE A S. TRINITA, 1952, p. 30). Abaixo, Ponte Santa Trinita atualmente. Fotografia do autor, 2015.

para a garantia do lineamento albertiano, o monumento sofreu com a carência de recursos e de mão-de-obra, problema ainda constante até o final dos anos 1940 em todas as obras do período127.

Portanto, o que se pode depreender deste debate é que a Segunda Guerra

Mundial, mais que um trauma, transformou a Europa num amplo canteiro de obras,

oferecendo a inigualável oportunidade de se constituir em vasto laboratório de restauração de arquitetura e obras de arte, que passam a acumular resultantes comuns. Tratou-se de positivo processo, ainda que sem garantias: em Florença, por exemplo, conviveram a positiva solução projetual de reconstrução da Ponte Santa Trinita (FIGURA 54), e, a poucos metros de distância, a considerada insegura reconstrução128 do conjunto edificado às margens da Ponte Vecchio

(FIGURA 55).

127 Id., p. 184, ver as notas do artigo. Para aprofundamento e análise crítica das dificuldades operacionais para a ativação do canteiro, ver BIFFI, 1996.

128 A avaliação é do historiador da arquitetura Giovanni Klaus Koenig, que considerou o resultado uma “oportunidade perdida”, porque simulava um conjunto edificado antigo com materiais novos e ainda se apegava de modo integral ao problema da teoria ambiental de Giovannoni (Cf. KOENIG, 1968). Além

140

FIGURA 55 Acima, vista da Ponte Vecchio a partir do Lungarno Acciauioli. Em primeiro plano, à direita, os edifícios reconstruídos do

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