CAPÍTULO III. História dos Critérios de Intervenção aplicada à Pintura sobre Madeira
3.1. História dos critérios de intervenção em pintura sobre madeira
3.1.7. Os monumentos e sítios
3.1.7.2. Restauro de monumentos
A secção dedicada ao restauro de monumentos surge-nos ainda mais carregada de conotação negativa. São utilizadas palavras muito duras: «Na verdade é melhor deixar que os velhos monumentos históricos vão caindo pedra por pedra, carcomindo-se com a hera, e desaggregando-se pelo rijo vento da tempestade, do que profana-los e como que vilipendia-los com tão ignaros restauros»351. É dado o exemplo dos trabalhos decorridos na Sé de
348
Vd. Sé de Braga, http://dicionario.sensagent.com/s%C3%A9+de+braga/pt-pt/.
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Vd. HOLSTEIN, Marquês de Sousa – Observações sobre o actual estado das Artes em
Portugal, a organização dos Museus e o Serviço dos Monumentos Históricos e da Archeologia. Op. Cit., p. 44.
350
Vd. Idem, p. 45.
351
Vd. HOLSTEIN, Marquês de Sousa – Observações sobre o actual estado das Artes em
Portugal, a organização dos Museus e o Serviço dos Monumentos Históricos e da Archeologia. Op. Cit., p. 43.
Lisboa, que Holstein classificou de extremo mau gosto. Na sua opinião estes trabalhos desvirtuaram a integridade daquele monumento, ou, pelas suas próprias palavras, «Modernisaram e alegraram aquella velha sé (…)»352
, o que transparece uma ética de intervenção direccionada para a reconstrução e reformulação de acordo com o gosto vigente. Holstein descreveu de forma tenaz o «mau gosto» que regeu os trabalhos: «com as suas columnas cobertas de estuque vestido de cores, com seus capitéis compósitos, com as suas janellas abertas no tecto, com os seus anjos bojudos e galhofeiros pintados de variegados tons, como que para amenisarem a magestade solemne e grave do augusto recinto. Que mais queremos?»353.
Holstein defendeu que os restauros praticados na altura, nos monumentos, não eram admissíveis, pelo que, no que lhes concerne, «Deixa- los antes caír. Serão mais bellos em suas ruínas que debaixo da louçania de mau gosto com que querem rejuvenece-los»354.
Efectivamente, compete-nos procurar justificações para estas severas afirmações. Como pudemos constatar anteriormente, a década de 20 do século XIX trouxe consigo uma revolução política, social, e a promessa de uma alteração do panorama económico. O encerramento das ordens regulares originou um fluxo considerável de bens históricos e artísticos, tendo constituído uma época de alguma confusão; lamentamos, inclusivamente, que em Portugal não se encontrem nas fichas de inventário das peças tuteladas pelos museus ou pela Igreja, uma análise histórica profunda do percurso da maioria dos objectos. Permanece incerto o quanto se extraviou ou perdeu do alcance do Estado. O autor Héctor Feliciano publicou uma obra intitulada O Museu Desaparecido: As obras de arte confiscadas pelas forças nazis, em 2005 (a primeira edição em 1997)355, na qual analisou o percurso de grandes obras de arte mundial durante o conturbado período da Segunda Guerra Mundial. Parece-nos claro que a história dos objectos encerra em si dados da maior relevância para o seu conhecimento, para o conhecimento das mentalidades, das dinâmicas da salvaguarda do património – o que o rege, o que valoriza. 352 Vd. Idem, p. 43. 353 Vd. Idem, Ibidem, p. 43. 354 Vd. Op. Cit., p. 43.
355 Vd. FELICIANO, Héctor – O Museu desaparecido: as obras de arte confiscadas pelas forças
Fundamentalmente permite o conhecimento dos objectos per se, e é, em si mesma, uma ferramenta de protecção, pois «conservar é conhecer», como se afirma no título de um catálogo, publicado pelo Museu Machado de Castro356. Com toda a certeza afirmamos que, caso houvera um inventário (ou um esboço de inventário) do património nacional, saberíamos exactamente o que se perdeu, o que se conservou e pelo que passaram estes objectos. Carecemos de trabalhos de pesquisa nesta área, a fim de podermos começar a compreender, mediante ferramentas estatísticas, a dimensão da perda e as dinâmicas da conservação no século XIX.
Maria Helena Maia afirma que apenas se verifica uma alteração na política de intervenção após a nomeação de Luís Mousinho de Albuquerque para o cargo de Inspector-Geral Interino das Obras Públicas do Reino, em 1840. Antes desta data não se verificaram intervenções propriamente ditas, senão apenas reformulações dos edifícios públicos e reparos completamente desconexos do valor histórico e artístico destas edificações357. A figura de Mouzinho de Albuquerque surge, desde 1840, relacionado com intervenções regidas por uma visão, uma metodologia um pouco mais definida, tal como é o exemplo da intervenção sobre o Mosteiro da Batalha, descrita numa Memória358.
A prática do restauro era na altura bastante criticada pelos seus contemporâneos, tal como verificámos anteriormente, em particular devido aos excessos cometidos e às reformulações de gosto. Mouzinho de Albuquerque reconheceu o valor histórico dos monumentos, e aqueles que gozavam desse estatuto deveriam ser intervencionados com extrema cautela, se possível recorrendo à sua manutenção e recorrendo ao restauro apenas quanto estritamente necessário359. Existia claramente uma diferenciação teórica entre
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Vd. ALARCÃO, Adília, REDOL, Pedro (coord.) – Conservar é conhecer. Coimbra: Museu Machado de Castro, [s. d.].
357 Vd. MAIA, Maria Helena – Património e Restauro em Portugal (1825-1880). Op. Cit., p. 103. 358
Vd. ALBUQUERQUE, Luís da Silva Mousinho de – Memória inédita ácerca do edificio
monumental da Batalha. Leiria: Typographia Leiriense, 1854.
359
Vd. ALBUQUERQUE, Luís da Silva Mousinho de – Relatório contendo os fundamentos da
despesa orçada para a repartição das Obras Públicas do Reino, a exposição do sistema fundamental para aplicação dos fundos votados para esta repartição e a indicação e proposta de algumas providencias legislativas e regulamentares, necessárias para o andamento regular deste ramo do Serviço Público: apresentado ao ilustríssimo e excelentíssimo senhor ministro e secretario de Estado dos Negócios do Reino, em observância da portaria de 17 de Novembro
restauro e conservação/manutenção, embora o emprego do termo “restauraç o” fosse, na prática, utilizado para todas as acções interventivas, embora questionemos todavia a sua aplicação prática, pelo hiato entre a elaboração este documento, datado de 1840, da autoria de Mouzinho de Albuquerque, e as críticas do Marquês de Sousa Holstein, publicadas em 1885, ou mesmo das registadas por Alexandre Herculano. Maria Helena Maia afirma que existiam pressupostos definidos, referentes à teoria que regia as intervenções na altura, e que as críticas dos documentos coevos expressam essa realidade. Colocamos algumas reservas no que concerne a este consenso teórico, pois verificamos uma discrepância considerável entre teoria e prática que não parece justificável sob tutela estatal. Desta forma a definição de restauro parecia prender-se com o retorno ao traço primitivo, mas pressupondo alterações abonatórias, sob a forma de complementos360. Estas definições parecem-nos demasiado complicadas de explicar de forma mais detalhada, sem o auxílio de exemplos específicos, pois parece-nos que o retorno ao traço original, mediante melhorias, pode justificar inclusivamente a intervenção de Viollet-le-Duc em Carcassonne, a qual, no seu elevado esmero, recorreu entretanto a melhorias não originais, como é o célebre caso das coberturas, típicas do norte da França e não daquela área geográfica. Seria necessário considerar se as melhorias eram efectuadas em termos estruturais, ou se cediam, com maior ou menor evidência, ao gosto vigente, tal como critica Alexandre Herculano. Este facto revela influência das correntes que agitavam a Europa, nomeadamente em França e Reino Unido.