3.3 ABORDAGEM DAS ADJETIVAS EM PESQUISAS LINGUÍSTICAS
3.3.2 Restritivas versus explicativas em Souza (2009): aspectos prosódicos e
O estudo de Souza (2009) sobre orações adjetivas foi desenvolvido sob a égide 10 Oliveira afirma, com base em Givón (1979), que a oração restritiva foi originada a partir da explicativa
por um processo de gramaticalização. Entendemos, porém, não haver elementos suficientes para sustentar a posição da autora, uma vez que esses tipos oracionais possuem funções primordiais e distintas entre si, convivendo desde há muito. Defendemos que há diferença no grau de integração entre esses tipos oracionais e o antecedente a que se vinculam sem entrar no mérito da gramaticalização.
do funcionalismo sistêmico-funcional, utilizando textos da esfera jornalística. A principal problematização de seu trabalho diz respeito à divisão dicotômica restrição
versus explicação, da qual a autora discorda. Partindo desse ponto de vista, Souza,
assim como Oliveira (2001), elabora uma escala de adjetivação. A autora considerou principalmente três fatores distintivos: a prosódia entre antecedente e oração adjetiva, o grau de definitude e o status informacional do SN antecedente.
Para identificar as distinções com base em aspectos prosódicos, Souza utiliza o programa computacional Praat de análise acústica. Os resultados apontam que as adjetivas restritivas são caracterizadas pela ausência de marcas prosódicas, enquanto as explicativas caracterizam-se pela presença dessas marcas, que indicam uma segmentação da oração adjetiva em relação à cláusula matriz. Essas marcas são a pausa e o tom de fronteira, embora a pausa não seja o recurso categórico próprio para essa distinção segundo a autora. Souza afirma que, em contraposição ao que afirmam abundantemente os manuais, do ponto de vista sonoro, o tom de fronteira que se dá a partir da curva melódica ou entonação mostra-se como recurso mais significativo para a distinção entre essas orações. Evidência disso é que no corpus foram encontradas tanto orações não restritivas sem pausa, como restritivas com pausa. Souza explica que há um tom ascendente antes da oração explicativa que aponta para sua não integração à oração principal, sendo a pausa um indicador redundante dessa ruptura. Por outro lado, segundo a autora, as restritivas formam um “todo melódico” com a oração principal em que se encaixa.
Evidentemente a ruptura fonética aponta para a ruptura sintática, que, por sua vez, aponta para a distinção entre um tipo de oração mais integrada ao antecedente: a restritiva; e um segundo tipo mais solto, a explicativa. Por esse raciocínio, podemos pensar que essas orações ocupam diferentes níveis de integração sintática em relação à oração matriz. Nessa direção, Souza concorda com Oliveira (2001) no sentido de que a oração restritiva é mais integrada à matriz.
Souza (2009) destaca que a distinção entre restritivas e explicativas quanto ao nível de integração tem desdobramentos no âmbito semântico e discursivo. Concordamos com a autora de que há essa relação, mas consideramos que a função precede a forma, ou seja, a função semântica e discursiva que tem desdobramentos na sintaxe, na fonética, na morfologia e não o inverso. Esse desdobramento tem por base a função de “recorte” que as restritivas exercem sobre o SN antecedente.
Os outros dois fatores investigados por Souza (2009) são também objeto de estudo desta dissertação. Para investigar a relação entre a definitude do SN antecedente e tipo de oração adjetiva, a autora criou um quadro com cinco graus de definitude. Souza afirma que SN com grau máximo de definitude, quando conectados a cláusula(s) relativa(s), exigem as não-restritivas; aqueles com grau mínimo exigem as restritivas, e os de graus intermediários aceitam qualquer tipo de relativa, a depender das condições específicas de produção” (p.1367-138). A autora, no entanto, não faz uma análise quantitativa cruzando a definitude do SN antecedente e a tipologia semântica da adjetiva.
Com base no comportamento das orações de seus dados, Souza subdivide as adjetivas
em quatro grupos, do ponto de vista semântico-sintático, conforme podemos visualizar na figura a seguir. As categorias prototípicas seriam determinadas com base no grau de definição do SN antecedente. Quando este possuir grau máximo, a relativa será não- restritiva prototípica; quando possuir grau mínimo, ela será restritiva não prototípica. Já as não prototípicas são determinadas por uma correlação entre o grau de definitude e a informatividade do SN antecedente. Além disso, ela ressalta que os aspectos prosódicos também desempenham um papel relevante quando se trata de textos da modalidade oral.
Figura 3: Tipologia das adjetivas
Fonte: Souza (2009, p. 217)
A autora afirma ainda, com base no nível de integração com a oração matriz, que as adjetivas se situam entre as completivas e as adverbiais, o que explicaria o fato de haver orações adjetivas híbridas11 com características de completivas e com características
adverbiais (possuindo conteúdos circunstanciais, por exemplo, conforme vimos nos exemplos de AZEREDO, 2008). Nesse sentido, para Souza (2009), podemos falar em “adjetivas completivas” e “adjetivas adverbiais”. Na figura 2, podemos ver um esquema de como a autora situa as adjetivas em relação a esses outros tipos oracionais.
11 O conceito de adjetiva híbrida é da própria autora.
Tipologia das adjetivas
Não-restritivas
Figura 4: Posição das adjetivas no contínuo oracional em relação às adverbiais e às
completivas
Fonte: Souza (2009, p. 218)
Sobre essa relação entre as adjetivas e outros grupos oracionais, valer salientar que, conforme podemos ver na figura, as “adjetivas/adverbais” não se confundem com as adverbiais nem as “adjetivas/completivas” com as completivas propriamente ditas. Há semelhanças que aproximam esses grupos oracionais, mas também há traços que distinguem um do outro.
Algumas das distinções e semelhanças entre as adverbais e “relativas/adverbiais” foram investigadas no estudo de Leitão (2009), resenhado na seção seguinte. A autora se concentra nas adjetivas explicativas e, além de observar a relação entre estas e as adverbiais, também analisa as semelhanças e distinções entre adjetivas explicativas e substantivas apositivas. Na seção seguinte, ao resenhar o trabalho de Leitão, nos concentramos principalmente na caracterização que Leitão faz da adjetiva explicativas, após distingui-las desses dois grupos citados anteriormente.
3.3.3 A adjetiva explicativa em Leitão (2009): aspectos sintático-semânticos e