CAPÍTULO III – IMPACTO DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA SOBRE O
III.4 Resultados de Blinder e Oaxaca
Nesta etapa, investigar-se-á o impacto do Programa Bolsa Família sobre a renda do trabalho e sobre a renda familiar, sabendo-se que esse programa tende a incentivar a oferta de trabalho informal por parte dos seus beneficiários adultos e que o trabalho informal tende a ter remuneração consideravelmente inferior em relação ao trabalho formal. A intuição por trás dessas constatações é a de que as famílias sejam racionais a ponto que a renda do trabalho seja diminuída, pela consequência da opção de ofertar trabalho informal, mas que a renda da família aumente, pois o PBF seria mais uma renda a contribuir para as despesas da casa.
Tabela 22 –Blinder e Oaxaca - Renda Familiar com o Grupo de Controle 1
Diferencial (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) Modelo_1 (s/BF) (0,0034)*** (0,004)*** (0,0065)*** (0,0086)*** (0,0034)*** (0,0039)*** (0,0074)*** (0,0096)*** 6,97 6,97 6,31 6,30 7,26 7,27 6,62 6,66 Modelo_2 (c/BF) 6,16 6,07 5,91 5,84 6,51 6,43 6,15 6,06 (0,011)*** (0,016)*** (0,015)*** (0,02)*** (0,0058)*** (0,0075)*** (0,0089)*** (0,012)*** Diferença (0,012)*** (0,016)*** (0,017)*** 0,81 0,9 0,4 (0,021)*** (0,0067)*** (0,0084)*** (0,012)*** 0,46 0,75 0,84 0,48 (0,015)*** 0,6 Decomposição Explicada (0,0085)*** (0,011)*** (0,0076)*** 0,48 0,56 0,18 (0,01)*** 0,22 (0,0049)*** (0,0059)*** (0,0057)*** (0,0084)*** 0,47 0,5 0,19 0,27 Não Explicada (0,012)*** (0,017)*** (0,016)*** 0,32 0,34 0,22 (0,021)*** (0,0069)*** (0,0087)*** (0,011)*** 0,24 0,28 0,34 0,28 (0,015)*** 0,33
Fonte: elaboração do autor com dados da PNAD
Valores entre parênteses são os erros padrão. *** p-valor < 1%, ** 1% < p-valor < 5%, *5 < p-valor < 10%. (1) Renda familiar, para homens, na área urbana, em 2004.
(2) Renda familiar, para mulheres, na área urbana, em 2004. (3) Renda familiar, para homens, na área rural, em 2004. (4) Renda familiar, para mulheres, na área rural, em 2004. (5) Renda familiar, para homens, na área urbana, em 2006. (6) Renda familiar, para mulheres, na área urbana, em 2006. (7) Renda familiar, para homens, na área rural, em 2006. (8) Renda familiar, para mulheres, na área rural, em 2006.
A tabela 22 deve ser comparada com a tabela 23, para que se verifique se o grupo de controle contrafactual 2 é melhor que o grupo 1, uma vez que se esperaria que um bom grupo de controle, deveria apresentar semelhanças entre as variáveis explicativas, quando comparado com as pessoas que recebem o benefício do PBF. Isso pôde ser observado na tabela 23, que teve a parte “explicada” da decomposição de Blinder e Oaxaca com valores reduzidos, quando comparados com os valores da tabela 22.
Enquanto que, ao se utilizar o grupo 1 (tabela 22), as diferenças de valores do logaritmo do salário decorrentes das divergências apresentadas pelas variáveis explicativas (exceto o PBF) entre as pessoas que recebem e que não recebem o benefício do PBF são da ordem de 0,5 para a área urbana (homens e mulheres) e de 0,2 para a área rural; ao se decompor a renda familiar do grupo 2 (tabela 23), as mesmas diferenças de salário (logaritmo) decorrente das divergências de dotações das variáveis explicativas são da ordem de 0,03 para todos.
Ressalta-se que, ao passar a analisar o grupo 2, em vez do grupo 1, a diferença total de salário diminuiu, mas a queda da parte explicada da decomposição de Blinder e Oaxaca, foi maior que decorrente da parte não explicada. Verifica-se, portanto, que o grupo 2 se apresenta como o melhor grupo de controle contrafactual, por representar indivíduos semelhantes, ao se comparar os que recebem o benefício do PBF e os que não o recebem.
O grupo 3 serviu somente para a análise da seção anterior, para verificar se existe o efeito de o PBF incentivar a informalidade, pois ele é viesado por natureza para gerar um resultado contrário ao teste. Logo, ele não deve ser um bom grupo de controle e não será considerado no restante desse estudo.
Tabela 23 –Blinder e Oaxaca - Renda Familiar com o Grupo de Controle 2
Diferencial (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) Modelo_1 (s/BF) 5,85 5,73 5,71 5,65 6,10 6,02 5,91 5,88 (0,0051)*** (0,0073)*** (0,0078)*** (0,01)*** (0,0056)*** (0,0083)*** (0,011)*** (0,015)*** Modelo_2 (c/BF) (0,012)*** 5,91 (0,018)*** 5,78 (0,015)*** 5,76 (0,019)*** (0,0062)*** (0,0088)*** (0,0089)*** (0,012)*** 5,67 6,19 6,07 5,94 5,85 Diferença (0,013)*** -0,062 (0,019)*** -0,049 (0,017)*** -0,05 (0,022) -0,015 (0,0083)*** (0,012)*** -0,085 -0,051 (0,014)** -0,034 (0,019) 0,021 Decomposição Explicada (0,0034)*** (0,0044)*** (0,0044)*** (0,0051)*** (0,0026)*** (0,0035)*** (0,0039)*** (0,0055)*** 0,029 0,033 0,023 0,023 0,035 0,038 0,036 0,039 Não Explicada -0,091 -0,082 -0,073 -0,038 -0,12 -0,09 -0,07 -0,017 (0,012)*** (0,019)*** (0,016)*** (0,021)* (0,0083)*** (0,012)*** (0,014)*** (0,019) Fonte: elaboração do autor com dados da PNAD
Valores entre parênteses são os erros padrão. *** p-valor < 1%, ** 1% < p-valor < 5%, *5 < p-valor < 10%. (1) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área urbana, em 2004. (2) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área urbana, em 2004. (3) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área rural, em 2004. (4) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área rural, em 2004. (5) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área urbana, em 2006. (6) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área urbana, em 2006. (7) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área rural, em 2006. (8) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área rural, em 2006.
Como descrito na metodologia, apresenta-se uma estimativa, em termos percentuais e em termos monetários30
, do efeito da parte explicada e da parte não explicada sobre a renda familiar.
Tabela 24 –Blinder e Oaxaca - Renda Familiar com o Grupo de Controle 2 (Reais) Diferencial (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) Modelo_1 (s/BF) R$ 439,37 R$ 391,95 R$ 381,99 R$ 361,06 R$ 524,47 R$ 481,49 R$ 431,08 R$ 417,36 Decomposição Explicada -R$ 12,52 -R$ 12,68 -R$ 8,82 -3% -3% -2% -R$ 8,25 -R$ 17,98 -R$ 18,11 -R$ 15,19 -2% -3% -4% -4% -R$ 15,79 -4% Não Explicada R$ 41,94 R$ 33,63 R$ 29,06 R$ 13,92 R$ 66,93 R$ 45,24 R$ 31,39 10% 9% 8% 4% 13% 9% 7% R$ 7,21 2%
Fonte: elaboração do autor com dados da PNAD
Valores entre parênteses são os erros padrão. *** p-valor < 1%, ** 1% < p-valor < 5%, *5 < p-valor < 10%. (1) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área urbana, em 2004. (2) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área urbana, em 2004. (3) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área rural, em 2004. (4) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área rural, em 2004. (5) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área urbana, em 2006. (6) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área urbana, em 2006. (7) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área rural, em 2006. (8) Renda familiar, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área rural, em 2006.
Na tabela 24, verifica-se que a renda da família aumentou na área urbana e na área rural, em decorrência da parte não explicada. Pelos dados já expostos, a parte não explicada da decomposição de Blinder e Oaxaca é estreitamente relacionada com o recebimento do benefício do PBF, mas também pode ser muito afetada pela existência de outros fatores, não pertencentes à equação explicativa da renda. No entanto, serve como referência para comparar com outros resultados, como os apresentados na seção seguinte. Em suma, os resultados da tabela 24 estão dentro do esperado, pois apontam que a renda familiar tende, em função do PBF, a ser aumentada (tanto para homens e mulheres, na região urbana e rural). Como resultado complementar, verifica-se o alto nível de focalização do programa. Isso se obseva pelo componente “Explicada” ser sempre decorrente de uma redução de renda, que se deve ao fato de, entre as pessoas elegíveis para a obtenção do benefício, foram escolhidas as que estavam em piores condições (que foram descritas pelas variáveis explicativas).
30 Chama-se a atenção para o fato de que, após o procedimento descrito, todos os valores monetários
Tabela 25 –Blinder e Oaxaca - Renda do Trabalho com o Grupo de Controle 2 Diferencial (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) Modelo_1 (s/BF) 5,73 4,78 5,37 4,24 6,03 6,40 5,64 6,30 (0,0064)*** (0,064)*** (0,0095)*** (0,085)*** (0,0067)*** (0,025)*** (0,013)*** (0,089)*** Modelo_2 (c/BF) 5,57 5,95 5,08 5,54 5,88 6,12 5,35 4,20 (0,016)*** (0,063)*** (0,024)*** (0,12)*** (0,0084)*** (0,031)*** (0,02)*** (0,09)*** Diferença 0,16 (0,017)*** -1,17 (0,09)*** 0,28 (0,026)*** -1,31 (0,14)*** 0,15 (0,011)*** 0,28 (0,04)*** (0,024)*** 0,29 2,11 (0,13)*** Decomposição Explicada 0,035 (0,0083)*** (0,014)*** (0,0082)*** (0,03) 0,074 0,025 0,019 0,047 (0,0058)*** (0,0097)*** (0,0083)*** (0,026)** 0,08 0,031 0,052 Não Explicada 0,13 (0,017)*** -1,24 (0,089)*** (0,025)*** 0,26 -1,32 (0,14)*** 0,11 (0,011)*** 0,2 (0,04)*** 0,26 (0,023)*** 2,05 (0,12)*** Fonte: elaboração do autor com dados da PNAD
Valores entre parênteses são os erros padrão. *** p-valor < 1%, ** 1% < p-valor < 5%, *5 < p-valor < 10%. (1) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área urbana, em 2004. (2) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área urbana, em 2004. (3) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área rural, em 2004. (4) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área rural, em 2004. (5) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área urbana, em 2006. (6) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área urbana, em 2006. (7) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área rural, em 2006. (8) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área rural, em 2006.
Tabela 26 –Blinder e Oaxaca - Renda do Trabalho com o Grupo de Controle 2 (Reais) Diferencial (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) Modelo_1 (s/BF) R$ 392,13 R$ 150,70 R$ 271,96 R$ 87,58 R$ 486,63 R$ 705,59 R$ 329,39 R$ 639,34 Decomposição Explicada -3% -7% -3% -2% -5% -8% -3% -5% -R$ 13,47 -R$ 10,72 -R$ 6,82 -R$ 1,61 -R$ 22,24 -R$ 54,23 -R$ 9,99 -R$ 32,47 Não Explicada -12% 247% -23% 276% -10% -18% -23% -87% -R$ 46,74 R$ 372,65 -R$ 62,17 R$ 241,63 -R$ 49,36 -R$ 128,96 -R$ 75,74 -R$ 557,36 Fonte: elaboração do autor com dados da PNAD
Valores entre parênteses são os erros padrão. *** p-valor < 1%, ** 1% < p-valor < 5%, *5 < p-valor < 10%. (1) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área urbana, em 2004. (2) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área urbana, em 2004. (3) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área rural, em 2004. (4) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área rural, em 2004. (5) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área urbana, em 2006. (6) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área urbana, em 2006. (7) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para homens, na área rural, em 2006. (8) Renda do trabalho, com renda domiciliar < metade do salário mínimo, para mulheres, na área rural, em 2006.
Analisando as tabelas 25 e 26, observa-se que o PBF tende a reduzir a renda do trabalho dos adultos beneficiados. Isso é corroborado pelos resultados apresentados na seção anterior, com modelos Logit e Probit, concluindo-se pela forte tendência de o Programa Bolsa Família incentivar os seus beneficiários a ofertar trabalho informal, porque existe forte tendência de o trabalho informal ter menor remuneração quando comparado com o trabalho formal, tal como foi observado na tabela 18.